Pesquisando

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

[conto] Forgiven: as consultas na madrugada

Mais outro conto que não finalizei, mas não posso ficar com nada na fila do final de ano. Esse é do cenário de Forgiven Jojo Ulhoa, um conto enooooorme e velhaco que fiz em 2007 sobre uma criaturinha que perdura no meu trato digestivo (Não, não andei dando uma de Cronos e comendo meus filhos, mas se é pra dizer que o ego trágico da Jojo costuma estar emaranhado perto do meu baço, aí sim).

Como o incrível resumo do NYAH! Fanfiction diz: A vida de uma legista hipocondríaca e com problemas de aceitação. Com vocês, Joanne Ulhoa, a louca.
(Jzuis, preciso atualizar esse bichinho ano que vem!)


Nunca fui de acreditar em contos-de-fada, muito açucarados para meu gosto, muito exagerados nos detalhes fantasiosos, pouco consistentes com a Realidade que eu constantemente via e vivia. Contos-de-fadas serviam para aliviar pessoas de sua trágica existência, confortavam crianças despedaçadas pela sociedade e às vezes... às vezes, eles costumavam povoar meus sonhos como um enxame de pensamentos aleatórios que ocupavam minhas manhãs mesmo após acordar.

Com o tempo fui aprendendo que contos-de-fada são construções simbólicas de determinações morais de nossa modernidade, algo que a burguesia capitalista instituiu em nosso meio para padronizar comportamentos, taxar aspectos moralistas, vincular o status quo com a existência humana. Muitos filósofos e pesquisadores desprezavam tal literatura para instruir seus discípulos, mas as massas, elas adoravam contos-de-fada.

A vida nos ensina que contos-de-fada não são reais, não há "Era uma vez" cada manhã que se acorda, não há "Final Feliz" no final do dia, não há príncipe encantado de armadura reluzente em seu alazão, nem beijo apaixonado no final da tarde com o sol a se pôr, os mocinhos se dão bem, os vilões sempre se dão mal. Nada disso acontece realmente. Não há extremos na vida que vivo, apenas borrões entre os termos. Como odeio isso.

Arrasto-me para mais outro plantão, minha cabeça pulsando mesmo com o gosto amargo da aspirina em meu paladar, o cochilo na sala dos internos não adiantou muito para remover os resquícios de uma bebedeira na noite anterior, jamais deveria ter pedido o turno de final de ano, sabendo o quanto de álcool poderia ser consumido pelos meus amigos (o que raios a Tracy não me ligou até agora? Coloquei a guria no táxi e ela nem para dar notícias se tinha chegado bem?!), jamais deveria ter enfiado meus pés pelas mãos ao tentar me aproximar novamente do meu projeto científico mais interessante em todos aqueles anos.

Aperto o botão para o subsolo e sou seguida pelo senhor da manutenção, um homenzinho mirrado, grisalho, com cheiro de água sanitária, desinfetante floral e uniforme mais desgastado que aquele prédio. Ele sorri em silêncio, respondo com um breve aceno de cabeça, não sei se meus lábios estão preparados para arriscar um sorriso amarelo (Não quero tentar igualmente), esperamos até o elevador chegar ao seu destino e a porta abrir com um rangido esquisito. Agradeço-o por manter a porta aberta para mim e me preparo para o pior: as macas no corredor para o necrotério do Hospital.

Essa rotina maluca de visitar o sujeito de pesquisa não estava fazendo bem para minha cabeça. Tudo bem lidar com os problemas dos outros, lares destruídos, casais com problemas, insegurança de homenzarrões do Exército, mas nada superaria o impacto que eu tinha toda vez que saía daquele elevador e dava de cara com aquele corredor vazio, gelado, de iluminação absurdamente alta, com zumbidos de maquinário funcionando para manter a temperatura ideal para retardar a decomposição dos cadáveres esperando nas macas enfileiradas, apenas esperando a próxima rodada. Odiava mais ainda o que teria que lidar quando entrasse na sala de atendimento, era como revisitar o Katrina e ter todo o tipo de lembrança ruim que aquele lugar perturbado trouxera para a gente. Eu felizmente conseguira me manter sã e salva com muita meditação, aulas intensivas de pilates, limpando bem meu corpo com uma nova dieta saudável e bem formulada, e felizmente tendo alguém para conversar quando o pânico e os pesadelos chegavam. Já o meu sujeito de pesquisa se enterrara em um PhD maluco em outro estado, achando que iria espantar seus demônios com trabalho de campo e estudos.

Como se a Ciência pudesse salvar a gente.



A primeira maca foi razoável, nenhum vestígio de morte violenta, apenas o corpo inerte coberto pelo lençol branco bem preso a maca, uma tag de identificação no começo do alumínio: homem, caucasiano, parada cardíaca, limpeza feita, incisão em Y não feita. Meus passos foram vacilantes para a próxima maca, um corpo pequeno, mirrado, lençol escondendo uma criança. A tag, evitei olhar, apenas um nome: Kendra McKintare. Irlandês, talvez fosse do bairro ao Norte, talvez fosse morte natural (Mas mesmo assim injusta, sem explicação lógica científica, cedo demais), filha de alguém, irmã de alguém, nunca seria mãe de alguém ou esposa de alguém. Uma vida interrompida antes que pudéssemos fazer algo. Mais outra maca, o de sempre, sim, esse tinha vestígios de morte violenta, o lençol estava empapado com sangue fresco, sem tag de identificação, a parte em que supostamente deveria estar delineando um rosto estava coberta por um saco plástico preto. Mais outra vítima da violência urbana, coisa que eu tinha que lidar toda vez que ia para a associação de moradores, mas nunca daquele modo. Eu pegava casos horríveis muitas vezes, gente desequilibrada, famílias disfuncionais com todos os termos de perturbação psicológicas, adolescentes com traços de sociopatia, mas eles estavam vivos e os pacientes dela não. Eles nunca tinham muito que falar com ela - e isso ela reclamava às vezes por não ter a capacidade emocional de entender o que eles queriam dela, mesmo sabendo que estavam mortos e não havia mais nada para se fazer.

Maca pesada, senhor corpulento, velhinha qualquer, mais dois homens não identificados, uma maca vazia apenas com um saco preto em cima, deveria ser partes. Arrepiei-me em mim mesma com o pensamento de que ela iria investigar aquilo com os olhos clínicos e cínicos por muito tempo até chegar a conclusão antes de qualquer investigador da Polícia poder se pronunciar. Ela estava ficando muito bem naquilo que não era chamada, aquilo que ela não deveria se envolver. E era por isso que eu acabara indo visitá-la quase todos os dias nos turnos em que ela pegava para me assegurar que não sairia da linha - e ela já fizera isso em Nova Orleans, não iria deixá-la cair nessa estrada novamente.

Meu objeto de estudo favorito era digno de pena e ajuda urgente e imediata, quase ninguém se preocupava já que ela literalmente morava no subsolo com seus "pacientes", fazendo o trabalho que ninguém gostava de pensar que existia. E eu realmente odiava quando ela abraçava essa rotina com tanto entusiasmo quanto eu e a Psiquê Humana. E depois que a vaga de Legista-Chefe foi para ela sem revisão de currículo ou indicação da Diretoria do Hospital, eu sabia, lá no fundo, ela morrera um pouco por não ter coragem de desistir.

Ela não desistiria nem se isso fosse arriscar a própria vida, e creio que a minha presença a lembrava que poderia ser um pouco humana e menos robótica (Aliás, investigar bem de onde ela retirou essa palavra, pois nas últimas conversas tem se repetido várias vezes...). Bato devagar na porta da sala de atendimento e sou recebida pelo som de uma cadeira rolando no chão tão limpo que reluz meu reflexo discretamente, uma cabeça de longos cabelos ruivos emaranhados em trancinhas desiguais e uma trança enorme presa bem ao cocuruto aparece.
- A senha, faz favor? - ela pergunta em tom infantil.
- Desde quando preciso de senha, mocinha? - respondo com certa ironia.
- Desde quando você se tornou minha Personal Jesus. - abro a porta sem cerimônia e um suspiro de alívio me veio quando vi que a sala ao lado estava vazia, sem corpos nas macas de alumínio e instalações do necrotério do Hospital. O sorriso dela é fingido, mostrando dentes um pouco tortos pela formação dentária precária de uma garotinha que vivera toda sua infância e adolescência em uma cidadezinha qualquer no sul. Os olhos, esses sim me dizem muita coisa: expectativa, aflição, ansiedade, desconfiança, excitação sexual. Okay, respiro fundo mais uma vez e a empurro na cadeira para ficar em seu lugar de base, a frente do monitor do computador amarelado do Hospital, o site aberto é de um fórum que ela gostava de se distrair enquanto estava sozinha nas longas horas de turno noturno, o tocador de mp3 ligado em uma gambiarra com as caixas de som do local. Uma caixa de doces de diversos tamanhos e sabores está ali perto dela, uma garrafa de suco natural de procedência original (E para se conseguir algo natural nessa cidade era difícil até para quem sabia onde procurar, acreditem, eu fazia compras desse tipo todo final de semana).
- Jazz? Doces, suco de uva natural? Posso saber se estou vestida apropriadamente, porque isso parece um encontro... - sei que ela não vai pegar a minha piadinha irônica de primeira, pois ela escaneia as minhas roupas e as dela, já que estamos ambas com jalecos do Hospital, roupas comuns de trabalho por baixo, ela de tênis surrado com rabiscos de canetinha e eu nos meus saltos agulha como sempre.
- Ah entendi! - ela anuncia com uma careta cômica. Adoro quando ela finge que entendeu as coisas que eu disse para amenizar o clima estranho que sempre acontece quando estamos juntas. Isso ocorre desde o Katrina e desde então o silêncio constrangedor se tornou uma companhia em nossas "consultas" noturnas. - Só achei que você iria gostar de comer alguma coisa antes da gente começar... E esse bendito suco é gostoso demais para não se comprar mais de uma garrafa inteira...
- Então vai desistir da sua rotina de porcarias no jantar e pular o almoço?
- Tou dormindo bem, aliás. E é por isso que não almoço. - ela não se move do lugar que honra com muito cuidado. Ela ama ficar sentada naquela cadeira de rodinhas com encosto quebrado e estofado rasgado, como se fosse alguém que não quisesse largar o Trono, mas sei muito bem o porquê dela não desgrudar dali e dos olhos no computador: ela se sente pouco confortável quando estou por perto. Ainda mais porque hoje resolvi usar o perfume que ela tanto fica tagarelando o quanto é bom, agradável, instigante, e em uma das confissões feitas na madrugada enquanto estava em meus braços: extremamente tentador.

Mais confiante do poder que tenho sobre ela, giro sua cadeira para que ela me olhe diretamente com aqueles olhos escuros que tanto me fascinam. O sorriso fingido está ali, como ela aprendeu a fazer desde criança para afastar preocupações e perguntas dos outros, mas ele continua ali para mim mesmo depois de tanto tempo juntas, quase 7 anos desse jeito. As poucas vezes que a vi sorrir verdadeiramente eram raras e quase sempre era escondido em outra máscara que eu simplesmente não entendia o porquê dela manter sempre colocada: o de menina do interior boazinha e inocente demais.
Minhas mãos passam por seus ombros erguidos e seu pescoço quente e palpitante (Por Deus, consigo sentir a pulsação dela só com um toque no lugar certo! O que será que ela está tramando para estar tão fora de si?)
- Já te disse que não precisa sustentar esse sorrisinho quando estou perto... - eu acaricio seus cabelos emaranhados e recebo um beijo no pulso esquerdo. A expressão de antes muda completamente, os ombros caem, a postura se curva, os olhos que se voltam para mim se tornam turvos e perdidos em algum lugar, logo sinto o puxão costumeiro, o abraço desajeitado na linha da minha cintura, o arfar dos pulmões que tanto já ouvi, o rosto prensado em meu estômago. - Hey, calma... Está tudo bem... - eu repito a mesma ladainha para mantê-la em uma linha de controle. Era quase sempre assim, desde que ela voltara do outro estado com uma coleção de artigos na pasta premiada, muitas recomendações de Instituições de grande renome, uma indicação para alto cargo no Centro de Controle de Zoonoses e uma conta bancária mais avantajada que poderia imaginar. Ela dividira essas preocupações comigo durante as "sessões" noturnas, de como a vida dela mudara tanto em Nova Orleans, como Tulane havia respeitado sua decisão em largar o Mestrado em Oncologia e pular de cabeça em uma carreira na Polícia Local. - Jojo, florzinha... Está tudo bem... Apenas relaxe, sim? - o fungar entre os arfares, as lágrimas que eu sentia umedecerem meu jaleco e minha camiseta, o aperto em minhas costas. - Chore, meu bem... Vai te fazer bem... - eu digo a acariciando nas costas, ombros, e cabelos cheios de trancinhas. Enquanto ela chora o que tem que chorar por motivos que nunca sei que beiram qual superfície que ela quer mostrar, eu solto uma risada calma. - O que fizeram com o teu cabelo...? - sinto o rosto dela se espremer de encontro ao meu umbigo (E não posso negar que isso me traz mais desconforto do que pena, há certas vezes que não consigo manter o profissionalismo quando ela está perto demais de locais onde sabe muito bem que me deixam... alegre sexualmente falando...) e um sorriso vir, mas esse sorriso eu não consigo captar.
- A galera resolveu fazer concurso de cabeleireiro... - ela levanta o queixo e me encara com aqueles olhos que só eu consigo ver e mais ninguém. Não é pena que sinto, mas como se meu coração estivesse sendo extraído do meu peito em uma incisão feita por um bisturi cego (Ou pelo menos é assim que ela se auto descreve quando sente que está lutando contra suas emoções), minhas mãos trêmulas vão para seu rosto choroso, massageio suas orelhas com carinho e recebo um sorriso morno, sei que ela gosta quando sabe que eu tenho controle de tudo. E certamente eu tenho, pois vê-la daquele jeito durante anos me deu poder suficiente para saber exatamente quando ela estiver caindo novamente. - Você tem que ver a enfermeira Carlson... Ganhou um moicano com gel e tudo...
- Vai ser um custo desatar essas trancinhas... - eu suspiro já desamarrando uma com cuidado para não machucá-la.
- Eu gosto quando eles mexem no meu cabelo, me dá sono... - eu fico surpresa com a revelação sincera, não sabia desse detalhe! Ela nunca falou abertamente sobre os problemas de sono, apenas os pesadelos de sempre (Porque eu também os compartilhava de vez em quando). Sei muito bem que ela não dorme direito durante as folgas e os cochilos entre os turnos não ocorrem com freqüência, não poderia considerá-la insone, mas mesmo assim preocupa.
- Então mais outra razão para eu desamarrar isso tudo para você... Aí você tem uma noite de sono decente... - ela sorri tristemente fechando os olhos quando percebe que estou desatando mais outra trancinha mal feita por mãos de crianças com prazo de validade expirado para alguns dias, semanas ou meses. A Ala de Oncologia Infantil no Hospital era mais doída que ir ao Necrotério. Apesar de lá ser agradável aos olhos, com o clima seguro e aconchegante nos corredores, nada substituía a essência daquele local: ali seria o lar de muitas crianças para o resto de seus dias contados.
- Não era isso que eu tinha pensado pra hoje... - é minha vez de sorrir maliciosamente, sabia que ela viria com esse papo.
- E o que você estava pensando exatamente? - eu me inclino para frente, a encaixando bem em meu corpo e massageando sua nuca. - Achei que iríamos conversar...
- Já estamos.
- Até você cair no choro... - questiono com um olhar que a faz rever suas intenções. Sei que ela convive diariamente com a falta de autoconfiança e o desapego automático que sente em expressar emoções, mas sabia também que ela lutava bem contra isso e me mantinha a par das batalhas.
- Eu tava precisando...
- Algo que queira me contar? - eu a nino calmamente, dançando lentamente perto dela para que ela acompanhe os movimentos e relaxe. A ansiedade voltou aos seus olhos assim como haviam escapado minutos atrás. - A menininha? - ela balança a cabeça negando.
- Doença congênita degenerativa. Os pais já estavam esperando. - ela respondeu rapidamente, juntando seu corpo sentado na cadeira com a minha pequena dança calma e protetora.
- Velhinha?
- Não. Falha nos rins, pessoal da UTI me avisou semana passada.
- Sacola na última maca? - o cenho dela franze e se levanta da cadeira em um movimento rápido e fluído.
- Que sacola...? - indo até o corredor com as macas e abriu a sacola sem cerimônia alguma, apenas a vi se afastar rapidamente com um dos braços protegendo sua boca e nariz.
- Homem-suco? – pergunto já sabendo do termo usado para restos mortais liquefeitos de pessoas.
- Pior. A cabeça do camarada ali na frente... - ela pega a sacola e coloca ao lado do cadáver do homenzarrão decepado.
- Pessoas e suas estranhezas...
- Matar alguém assim é desperdício... - ela comenta voltando e indo para a câmara de necrópsia limpar as mãos e se desinfetar. Ela melhorara substancialmente desde o ano passado quando cuidamos do T.O.C. com muito sorvete de morango, vinho branco, filmes de comédia romântica e sessão de amassos no meu sofá. Ela passava muito tempo debaixo do chuveiro se esfregando até a pele ficar com marcas de vermelhidão e arranhões auto infligidos, típico. Quem não iria ficar literalmente enojado de si mesmo ao passar 5 semanas num calor infernal, numa cidade destruída por um furacão, uma enchente e milhares de corpos para se identificar, empilhar e enterrar? As vezes eu esqueço que fazia parte da equipe, as vezes esqueço do que vi no Estádio, nas filas intermináveis, nas ruas devastadas. As vezes esqueço que ela surtou e que se não fosse eu, ela teria se juntado aos detritos, aos corpos em decomposição, ela não estaria aqui se não fosse eu. Como eu odeio esse sentimento. - ... ainda mais que consome uma energia do caramba! Sabe quanto de esforço precisa para cortar o pescoço de alguém? Não é com faca elétrica de cozinha, muito menos com machadinha, é difícil pra caramba fazer o corte como... – ela tagarela e não percebe que agora sou eu que estou chorando. Não queria ter lembrado do dia em que ela surtou em Nova Orleans, não queria mesmo. Pensei que havia afundado essa memória bem fundo no meu subconsciente, mas não, está ali, bem a mostra, bem perto do meu coração, bem perto de... – Claire, você tá bem?
- Droga, Jojo... Por que você complica as coisas?
- Eu? O que eu fiz? – ela pergunta secando as mãos mais de três vezes e colocar mais desinfetante nas mãos mesmo não necessitando lavar as mãos novamente. O enxágüe é feito automaticamente, ela nem percebe no ato repetitivo, na inspeção profunda nos nós dos dedos, no arranhar de unhas nas palmas e costas das mãos.
- Para com isso... Você já lavou a mão... – ela não para, ela não me escuta e essa cena repete como se eu já soubesse do final do filme. Só que dessa vez sou eu que estou perdendo o controle, não ela em seu mundinho esquisito de normas e leis absurdas de higiene pessoal que beiram a uma obsessão grave que pensei que já havíamos tratado com as consultas e os remédios contra ansiedade.
- Hey, Claire... Sério, você está bem?
- Por que...?
- Por que o quê? – ela seca as mãos novamente, passa o álcool em gel, se aproxima devagar, ela tem medo de mim, sei disso. O desconforto dela é contagioso, está chegando bem perto de mim e me... – O que houve, sério...? – a voz dela é quase um sussurro em meus lábios, desde quando ela tem o poder aqui? Desde quando deixei ela ser a controlada para a controladora? Estou ficando maluca, é isso? Maluca como ela? – uma das mãos tão bem lavadas cobre minha nuca de um jeito acolhedor e gentil, nossas testas se encostam e nossos narizes roçam um no outro. Por que ela tem que fazer isso comigo quando estou vulnerável? Ela simplesmente poderia me perguntar o porque estou... – Eu sei que você tem suas coisas para lidar e se livrar... E sei também que não entende muita coisa que eu tenho que lidar e me livrar... – não, não não faça isso... Eu odeio quando você tenta racionalizar minhas reações, odeio...
- Por que você faz isso comigo? – eu murmuro em um apelo, logo sinto que minhas lágrimas não se esconderam em meus olhos. Por que estou tão emotiva? Por ter lembrado daqueles dias infernais ou de ter a visto fazer algo que supostamente não deveria mais fazer? – N-nós trabalhamos tão bem sobre isso... E você... você...
- Trabalhado o quê? – ela responde no mesmo tom baixo que eu. Como odeio quando ela faz isso, quando me acalma para me dizer que está tudo bem, mesmo eu sabendo que não está.
- Você sabe o quê... – eu pego a mão em minha nuca, e tento tirá-la dali, mas ela é rápida demais para meu estado de torpor que me encontro. Por que diabos fui lembrar de Nova Orleans?
- Claire... Senta um pouco... Você ta tremendo...
- Por que você faz isso comigo? – é, eu sei, estou perdendo a minha compostura, sei que estou. Parece um filme em que vejo a mim mesma entrando em um colapso nervoso só porque a vi lavando as mãos repetidamente. Oh ótimo, agora sou eu que estou na cadeira em que ela fica o tempo todo, sou eu a que precisa de ajuda urgente e imediata, e o mais vergonhoso: sou eu que preciso de pena.
- Se você não falar, arranco de você de qualquer jeito... Tou ficando bem em interrogatórios... – o sorriso dela é um daqueles que mais me dão um tapa bem dado no ego, era para eu cuidar dela, não ela de mim. Era para ela falar os segredos que a incomodam tanto, não ao contrário! – Claire, não vou saber como te ajudar se você não me falar o que...
- Por que você disse aquilo no armário de limpeza?
- O que eu falei?
- Que você queria morrer...?
- Eu tava surtando?
- Você disse... – percebo agora que meu autocontrole foi para o espaço, pois sou eu essa criatura em prantos, sentada na frente dela, quase vomitando meus sentimentos para fora e ela não percebe em nenhum deles. – Você disse que queria morrer...
- E depois disse que só não morria porque te amava demais pra ter coragem de fazer isso... – e bem na mosca! Ela faz com que todo meu coração se contraia em meu peito, como se estivesse sendo espremido aos poucos para minhas vias respiratórias e se alojar em minha garganta em um bolo de puro choro convulsivo e emoções reprimidas. – E eu repito: eu te amo, Claire. – a voz dela está tão segura, tão diferente do costumeiro monótono e apático, robótico (por que raios ela repete tanto essa palavra em nossas conversas?) – É isso que ta te incomodando agora? Eu te amar?
- Eu sou hetero... – respondo bobamente, com tantas provas contrárias para a seleção de minha sexualidade, creio que dizer isso foi a coisa mais estúpida em toda minha vida.
- E isso não faz diferença nenhuma pra mim. Te amo por ser você, pessoa, não se é mulher ou homem ou alien ou redneck... – ela se afasta para se ocupar com alguma coisa. Como é que consegue se manter em tanto controle? Cerca de 5 minutos atrás era ela nessa cadeira, choramingando, não eu, a psicóloga particular dela. Ela se encosta na mesa de computador e me encara com a cabeça tombada para o lado, é assim mesmo que ela faz para analisar as pessoas, para saber suas motivações, para construir aquele quebra-cabeças imenso de fatos que a faz chegar a conclusão sobre o que os outros pensam. Droga! Eu não sou um sujeito de pesquisa! Por que ela não pára de me analisar? Sou eu a psicóloga aqui!
- Não posso fazer isso...
- Fazer o quê? – eu rio da minha falta de resposta. O que raios eu quero dizer com isso? O que eu quero fazer?
- Isso tudo que a gente... divide uma com a outra? – ela se encolhe com o desconforto, porque sei que é isso que a incomoda mais, quando a verdade está bem debaixo de seu nariz e ela não pode fazer muita coisa para conter.
- Quer que eu pare de trazer doces e suco bom? – eu rio novamente, mirando o chão como se fosse meu único protetor ali, sei que meu escudo caiu. Não sou mais a psicóloga, virei a paciente. – Eu paro. Quer que eu apenas te cumprimente quando você quiser? Eu faço. – ela dá de ombros como se aquilo não a incomodasse, mas sei que ela ta mais fragilizada que eu. – Quer que eu finja que você não existe, eu consigo, não é tão difícil assim... Pratico bem durante esses 7 anos... – isso me machuca bem mais do que imaginava, eu sabia que ela iria propor isso cedo ou tarde. – Agora se vai me pedir para esquecer o que tivemos, o que fizemos, o que eu sinto... Foi mal, mas isso não consigo deletar tão fácil não... – ela estende a mão na minha direção, um copo de suco está ali para me servir. Sorvo o liquido escuro com sabor inconfundível de uvas e me sinto com mais forças para rebater seja lá o que meu coração queira expelir nesse meio tempo.
- Eu não te amo...
- Tá, tudo bem, eu entendi... – ela responde rapidamente como se quisesse escapar da constatação que está bem decorada em meus lábios. – Mas por que você continua voltando aqui todas as noites? – a pergunta faz meu corpo reagir na hora, como um belo tapa na consciência, um chacoalho ferrado na minha espinha dorsal: por que eu volto ali naquele lugar mesmo?
- Eu quero cuidar de você...
- Podemos fazer isso depois do meu turno, na sala de assistência. – a resposta dela é seca e clara. Eu sei que ela está no modo robótico novamente. – Quer cuidar de mim? Tudo bem, eu aceito o programa de reabilitação, aceito tomar os remédios... até aceito outro terapeuta se...
- NÃO! – eu exclamo sem pressentir que minha possessividade havia tomado conta. Por Deus, o que essa mulher está fazendo comigo?
- Então temos que acertar isso aí... – ela diz devorando 2 docinhos ao mesmo tempo. – Porque eu não consigo ficar longe de ti... – a voz embargada pela boca cheia de docinhos me faz rir um pouco. Ela consegue ser uma criança tola quando quer, extremamente tola. – Mas posso tentar... Se você quiser, eu tento. Vai que dá certo e a gente não precisa mais... mais... – a gesticulação dela vai me dando pistas: ela está mais perdida do que eu nessa conversa estranha. – Tipo, você não precisa de mim, né? Sou eu que preciso de você... pra me colocar na linha e tudo mais... E é por isso que eu te amo tanto, você não desiste tão fácil assim como eu... – ela dá de ombros e outro docinho é mastigado com voracidade. – Você vai falar essas coisas hoje e chorar na minha cadeira e até me convencer que o que fazemos é errado e antiético, mas vai voltar atrás... Porque você se importa e insiste no que quer que seja que queira...
- Jojo...
- Eu desisto fácil porque não me deixam muitos motivos pra continuar... Olha só pra mim...
- Não quero que você desista. – a minha voz volta ao normal por alguns momentos, e os olhares que troco com ela me dizem que não foi só isso que eu disse. – Não quero mesmo que você desista...
- Eu não vou me matar, Claire, se é isso que quer saber... Eu só vou... – os ombros caídos parecem cair mais na figura encolhida na minha frente, esfregando os dedos sujos de docinho. – Só vou... sei lá... continuar existindo... Posso fazer o quê? – o olhar que ela me dirige faz o meu coração dar aquele mesmo golpe de misericórdia, coloco o rosto em minhas mãos e me amaldiçôo por ter começado isso. Maldita curiosidade minha.
- Por que me falou isso justamente naquele dia?
- Por que eu tava surtando? Já respondi essa...
- Droga, Jojo... Você faz tudo ficar tão complicado... – eu desabafo, tomando o resto do suco de uva.
- Queria mesmo saber como descomplicar...
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