Pesquisando

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

[conto] rootless tree

Quantos rascunhos de contos deixei na inbox? Tou apavorada! Bem, postando sem terminar!
Sim, em inspirei na homônima música de São Damião dos pseudos-irlandeses pra escrever essa.

===xxx===
Abriu os olhos, pequenos olhos, de perninhas curtas e dormentes, de respiração ofegante já no começo da manhã, do retumbar ecoante dos passos no assoalho de madeira forte, mas que às vezes parecia frágil. Seguiu em passos trôpegos até a mesa do café, não havia nada para seu estômago: "Uma pena" pensou sem sentir as palavras, mesmo que sua Fome estivesse ali presente ao seu lado (Como um espectro amarelado cutucando seu corpo), a diversão lá fora era mais atraente.

Desceu as escadinhas de madeira, deu uma última olhada para a casinha tão humilde que habitava em suas horas de não-vigília e suspirou fundo. Hoje iria saber como era ser grande.

Em muito segundos incontáveis cruzou o quintal dos fundos, tênis surrado nos pés já grandes para prender com cadarços, calças amassadas pelo tempo que passou dormindo na cama improvisada da casa humilde, a blusinha de tecido fino balançava solta em seu corpo miúdo que não engordava nunca - falta de nutrientes, falta de tudo, falta de nada - ajeitou a touca rasgada entre os cabelos negros tão desgrenhados pela falta de banho e se aprofundou na Grande Floresta da Adultice.



Era ali em um bairro próximo onde ela costumava mendigar, pedindo tostões no semáforo ou entretendo os motoristas mais simpáticos com anedotas de papagaios, piratas, pessoas como eles e principalmente pombos. Ela odiava pombos, então fazia piadas maldizendo as malditas aves. Ali naquele bairro próximo havia uma escola, e era ali que ela brincava com as crianças de sua idade - essas nem sabiam quem era ela ou onde ela morava, apenas sabiam que a pequena era uma peça rara no parquinho, uma ótima corredora no pique-pega e sabia bem como ludibriar os adultos chatos quando queriam atrapalhar algumas traquinagens. Ali ela ficava, a observar o mundo dos adultos, suspirando proveitosa de sua satisfação em saber que era alguém especial - era uma criança, é claro - alguém que os outros não compreendiam por completo, mas que de certa forma temiam (E não era pelas suas roupas ou pelo seu cheiro, ou a barriga roncando).

Ali naquele bairro havia essa casinha, no meio de uma selva de mato alto, árvores distorcidas e uma cerca enorme com uma placa de "Vende-se" que já enferrujara de tantos verões exposta ao Sol e a chuva. Ali ela habitava, quase como uma moradora permanente, mas sabia que aquele terreno era pertencente a outros, outros como ela, mas invisíveis aos olhos dos "outros" (E os "outros" nada viam, apenas asfalto, concreto e cinzento. Tudo era cinzento naquele bairro.).

A Grande Floresta da Adultice era uma mistura de mato morto úmido que encharcava a sola de seus pés miúdos sem meias no par de tênis surrado, e uma vasta vegetação doentia que se espalhava pelo terreno dos fundos da casa abandonada. Por mais que a pequena adentrasse em seus dias de exploração, não ousava passar de um ponto: a velha árvore que não dava frutos. Decidida a ser corajosa e não recusar um desafio como aquele, ela recebeu uma mensagem via sonhos (E eles se tornavam tão frequentes enquanto estava dormindo naquela casa de madeira humilde e abandonada!) propondo que ela passasse os limites do quintal dos fundos e entrasse no mundo da Adultice.

Apesar da palavra soar bem estúpida em sua cabeça agora, quando era pequena parecia ser um convite para o inexplorado.

Na manhã fria que se seguiu a entrada da Adultice, ela respirava o mundo com novos pulmões, observava o mundo com novos olhos e se pudesse ser mais criteriosa em suas sensações, sentia que o ciclo estava para acabar, a roda girava para mais outro sonho para explorar.

Encontrou a árvore sem frutos, encontrou o limite entre o sonho e o possível, encontrou a Adultice e escarneou no primeiro instante por ela ser iluminada demais, enfeitada demais, cheirosa demais, encontrou e se apaixonou. Apaixonada por uma sensação infantil de felicidade instantânea. O mundo dos Sonhos estava ali, bem a sua frente, sem precisar muito para se alcançar, sem fazer muito esforço para o tocar (E por tudo que era sagrado em seu coração de poucos anos, como gostaria de tocá-lo), sem pedir nada em troca.

Nada.

E ela não temeu em tocar a árvore sem frutos e passar dos limites para Adultice, e não hesitou em conversar com seu Sonho (Que era bem real, se querem saber. Tinha nome, tinha cheiro, tinha voz, tinha luz, tinha Vida), e ali ficou uma tarde inteira, debaixo da árvore sem frutos, proseando sem parar sobre tudo que poderia imaginar com a primeira melíade que viria a encontrar. Coincidentemente, a ninfa da Floresta da Adultice informou que não era seu primeiro e último encontro com a pequena, muitos iriam vir, e muitos encontros seriam através de outras pessoas, a pequena acreditou, gostou do que seu Sonho falava, gostou da luz, dos enfeites, do cheirinho bom, e se apaixonou. Apaixonada por uma criatura imaginária para a maioria dos humanos. E assim foi.

A Adultice não mais existia lá fora, ela estava nela. Presa em um corpo nada confortável, carregando um saco de ossos e carne em profusa movimentação. E por tudo que era amaldiçoado: como odiava correr com salto alto. Tudo isso para esconder uma Verdade, aquela que todos acreditam por ser a mais impactante, aquela que mais se espalha por ter mais significados do que significantes, como odiava a Adultice. Do outro lado da cerca, com a placa ainda ali, não mais legível pela ação do tempo, mirava com olhos marejados o que restara da árvore sem frutos, tão imponente outrora, assegurando muitas brincadeiras até o entardecer em seus galhos e seus insetos, agora aos 19 anos, sustentada por botas com saltos impossíveis de se caminhar corretamente, Angela sentia todo o significado de ser realmente adulta.

A Fome, sim, esta estava sempre lá, aflorando em um canto de seu abdômen, chamando seu nome com um ruído gutural e abafado, a casa humilde de madeira sumira deteriorada, vegetação espessa tomando seus restos, apagando qualquer memória concreta que algum dia aquilo fora um lar. O seu Lar. E a árvore sem frutos.

Um toco jazia nos fundos do quintal, um toco machucado de diversas formas (Machado, serra, facas, o que fosse), não transpirando mais Vida, apenas ali, fincado na terra fofa e molhada da Floresta (Não mais) da Adultice. Os insetos não eram os mesmos, as plantas não eram as mesmas, as pedras embaixo de seus pés não eram as mesmas, apenas ela era a mesma desde aquele entardecer com os vagalumes e o Sonhar.

O que faria agora? A Adultice a ensinara que correr e se esconder no mato não era honrado, procurar abrigo em uma casa abandonada de madeira e humilde era covardia, mas agora, justamente agora em que deveria tomar uma decisão de verdade, uma decisão de criança para poder se salvar, teria que apelar novamente para a Grande Floresta da Adultice - mas ela não mais existia, apenas o toco.

Olhou por cima do ombro parcialmente dilacerado pelo fogo e sentiu Fome, mas não era hora de sucumbir ao seu mais secreto Pesadelo. O que viesse pela cerca de ferro, ela iria enfrentar, mesmo que fosse pior que seu Pesadelo, mesmo que fosse pior que seu Sonho, mesmo que fosse sua Realidade, não iria titubear, não poderia recusar a um desafio lançado. Não, não, isso não era honra ou valentia, ou qualquer outra prova de que era capaz de qualquer coisa: era sobrevivência.

O portão arrebentou em um estalido metálico, fazendo a cerca se retorcer violentamente, o vapor que subiu do caminho de terra batida até o começo do mato mais alto onde ela se encontrava foi anunciando o começo de um incêndio. E ela sabia que a "outra" estaria ali, a espreita, esperando o melhor momento de atacar. Esperando que a Sina não fosse tão bondosa com quem a lia tão naturalmente, mas o cenário mudou quando sentiu mãos poderosas agarrarem seu pescoço, aquecendo sua garganta e queimando superficialmente a pele delicada para empurrá-la contra o toco da árvore sem frutos. A força era tamanha que suas costas sentiram as mágoas da árvore morta, todos os golpes de machado, serra e tesouras pareciam se transferir para seu corpo (E do agressor também), impulsionou seu corpo para trás, girando sobre si mesma e se afastando do maldito aprendiz. Era agora ou nunca: tirou os sapatos de saltos impossíveis dos pés e fincou os pés ao chão, sentindo a terra molhada, a decomposição da natureza, tudo aquilo que a Sina guardava para ela sentir em raros momentos de reflexão. Uma estrela solitária e vermelha piscou no horizonte, anunciando algum evento do Destino: era ali que se tornaria adulta, como naquela manhã que saiu do abrigo e foi correndo para a árvore sem frutos para passar além dos limites.

O agressor se contorcia, escapando das dores que sentia com mais intensidade que ela - Angela sentia dores, muitas vezes físicas pela falta de cuidados quando criança, mas a dor espiritual, essa não residia mais nela, mas sim nele, o aprendiz desgarrado - avançou em dois passos contra a não mais pequena jovenzinha e com um grito ensurdecedor borrifou chamas em cima dela.

A Floresta (Não mais) respondeu com o mesmo ardor. As chamas que consumiam a vegetação ali agora atingiam o tronco, o ar tão fresco de um quintal abandonado dava lugar a um ambiente pestilento de fumaça e fuligem. Prendeu a respiração por alguns momentos e tentou alcançar a parte do quintal onde estava o limite, e ao ver qual era o preço a ser pago, ela recuou um passo atrás. O agressor - desconhecendo os fatos e os mistérios revelados em um entardecer de verão naquele mesmo lugar há 13 anos atrás - avançou mais ainda, espirrando sua cólera inflamada por ódio, mágoa e principalmente ciúmes. Algo inteligível saiu de sua bocarra deformada, mas Angela não conseguiu entender. Em um gesto brusco girou sob os calcanhares e atingiu o corpo do agressor - uma criatura macilenta, fluída e extremamente inflamável - o fazendo cair sob o toco. E ali ficou, paralisado em sua ira cega, enquanto a garota tentava fugir do fogo se alastrando aos poucos no quintal dos fundos que ela tanto amara quando criança, ali brincara, ali descobrira que o Sonho é interminável, ali conhecera sua Vida e se apaixonara por algo infantil, uma felicidade instantânea.

Outro urro da criatura agressora e o bastar do vento Sul afastando as chamas do tronco. Os galhos retorcidos na raiz se dispuseram como uma manta nodosa em volta do agressor e o puxou lentamente para se unir a ela, a próxima seria Angela.

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