Pesquisando

terça-feira, 26 de maio de 2015

[Projeto Reverso] Má Reputação

Título: Má Reputação - parte 2/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 14 anos.
Tamanho: 1915 palavras
Status: Incompleta.
Resumo: O laboratório está muito cheio para se fazer Ciência.
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

SEM TÍTULO [1] - MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:



Muita gente. Muita. Estão tocando nos tubos de ensaio que sobraram, tem um escorado na única mesa cirúrgica, rastros de lama por todo chão, se fosse sangue eu suportaria a bagunça, mas reuniãozinha de clubinho justamente no meu local de trabalho?!
 - ... não podemos confiar nos muros do Sul, reforçaram com arame farpado e uma barricada, mas mesmo assim não tem como conter caso façam uma entrada maciça.
 - Pessoas usando vocabulário bonito, parabéns... - eu comento no meu tom menos usual (Aquele cheio de sarcasmo, mais aproximado pra um grunhido de depreciação).
 - Podemos fazer rondas a cada 2 horas, diminuir o tempo à noite.
 - Temos pouco pessoal, não há como fazer isso sem... Ai! Qual é o problema, maluca? - o tapa bem dado com a minha única luva de cirurgia pesada deu conta do recado, o idiota saiu de perto da mesa.
 - Ignore ela, diga-me, como estão as entradas para o metrô.
 - Bloqueadas até então. Tem um túnel transversal que era usado pelos trabalhadores na manutenção de lâmpadas...
 - Mas é apertado e não se sabe onde vai dar. Pode haver...
 - Tá rindo do quê, maluca...?
 - Nada, só uma piadinha infame que ouvia no colégio... - disfarcei a frustração de ter um pensamento insano sobre metáforas de tunéis apertados e a pessoa que me dirigiu o insulto de "maluca" novamente.
 - Mande os catadores lá, dois deles, três dos nossos. se o Russo quiser enviar algum deles, pode deixar. - ouvindo essa conversa me dá um sono imenso de acompanhar, preparo uma cartada boa para afastar aquele grupinho de revolucionários sem noção do meu laboratório, abro o freezer de bom uso e tiro um pedaço daquilo que a gente tanto luta desde o começo dessa bagunça toda. Até onde sabemos, noss país foi literalmente pro saco por culpa desse pedaço desgraçado que seguro com força para não escorregar e jogar na mesa cirúrgica. O cheiro é o primeiro a chamar atenção. Estou protegida com a máscara, avental e luvas, mas eles? Bem, não tou nem aí se eles não estão.
 - GUARDA ESSA PORRA NO CONGELADOR, MALUCA!! - gritou um deles, o mais perto do pedaço e colocando a mão no rosto para tapar o nariz. Os outros instintivamente se afastaram, mãos no nariz ou cobrindo com os tecidos de suas roupas maltrapilhas, a líder da revolução dentro do laboratório não piscou ou saiu do lugar.
 - Pessoal, tudo bem. Não é o que pensam... - ela disse firmemente não tirando os olhos da coisa, um brilho assassino atrás daqueles olhos escuros tão distraidores dos meus pensamentos de dias e infestando meus sonhos à noite. - Ela faz isso pra me evitar sempre quando pode.
 - E sempre funciona. - respondo tranquilamente metendo a faca de cozinha afiada rusticamente pra tentar causar mais desgosto ao grupo. Eu quero ficar sozinha com minhas coisas, preciso do meu tempo sozinha e eles não andam respeitando muito bem as placas ameaçadoras que faço na porta lá fora.
 - Não mais. E então senhores?
 - Catadores, Esquilo, Parafuso e eu podemos ir de boa. Vou ver se o Russo vai querer alguém no grupo.
 - Quanta coragem pra entrar num beco apertado na principal via daquelas coisinhas nojentas... Boa sorte...
 - Vai se danar, maluca... - alguém disse, não sei identificar quem com quem, depois da pancada na cabeça da queda da bicicleta o cérebro não registra mais faces. Ótimo mesmo, não quero lembranças desse povo nem que a vaca tu...
 - Coelho, fora daqui. - a "líder" disse, parece que a coisa ficou feia pro lado deles. os outros que arrastaram os pés do laboratório murmuravam coisas que não me interessavam, estava mais preocupada com o fluxo viscoso saído do centro do pedaço enorme da coisa. Já tinha visto isso uma vez na viagem a campo lá de Agosto e pelo que testamos com os braniacs de lá, é porque finalmente o tempo de manter guardado pra testes e análise havia acabado. Cubro a coisa com plástico usado de outras cirurgias e me desfaço do embrulho colocando dentro do freezer que não funciona. Se começar a feder, é só jogar o caixote ladeira abaixo. Vai fazer diferença alguma.


Ela continua ali, o cheiro do cabelo dela chegou as minhas narinas. Não é de shampoo, ou perfuminho qualquer que estávamos acostumados, é apenas o cheiro natural dela, misturado com um bocado de fuligem das fogueiras, o cigarro barato dos babacas que ela lidera, poeira. Tudo isso está muito perto de mim, decido lavar minhas mãos com a luva e começar a rotina estúpida de limpar o chão sujo que os brutamontes deixaram.
 - Você precisa ser rude assim? - peguei o escovão, o balde com a água nada limpa e o pouco daquela coisa pegajosa que as tias mais velhas faziam pra limpar nossas roupas. Nada me tira da cabeça que usam gordura de animal nessa coisa, horrível.
 - Não fui paga pra ser gentil, princesa...
 - Não sou princesa nenhuma e pare de me tratar como se fosse uma ameaça. - ela disse entredentes mãos encontrando a gola da minha camisa. Ela está muito perto do meu rosto, assustadoramente perto e mesmo assim não consigo definir como é o rosto dela, apenas esses olhos escuros...
 - Seus minions sujaram o chão em que eu durmo. - digo somente e espero ela entender a deixa para sair dali. Alguns segundos se prolongam, não sei o que ela está fazendo, tudo é muito confuso e borrado. Será que está me encarando? Analisando cada detalhe do meu rosto como costumo fazer quando ela não está olhando? as mãos na minha gola afrouxam um pouco.
 - Você dorme no chão. - a pergunta valeu como uma afirmativa.
 - Sim.
 - Você tem uma cama no pavimento superior.
 - Passei a vaga pro casal com a criança ruiva. - ela continua a me olhar, não me sinto intimidada, mas meu pigarreio a faz soltar a gola finalmente. Estava ficando difícil em não me inclinar pra frente e roubar um beijo assim totalmente insano (Oh, aí sim poderiam mesmo me chamar de maluca com razão).
 - Por que fez isso sem me informar?
 - Porque eu faço o que quero e não tou nem aí com o que você acha ou deixa de achar? - aresposta fez a mágica, ela se afastou bruscamente, tirou as botas do pé para não voltar a sujar tudo de novo e arrancou o escovão da minha mão, puxou o balde com vontade e começou a esfregar a lama deixada pelos subalternos dela.

Okay, oficialmente perplexa.
(E excitada. É definitivamente excitada.)

 - Você poderia ser um pouco mais sociável, seria mais fácil para acalmar os nervos aqui.
 - Não sei como o eminente pensamento de apocalipse e extinção da Humanidade pode ser aliviado com boas maneiras.
 - Pessoas confiam em médicos, não vê a enfermeia Wools? Ela trata muito bem os pacientes e ganha privilégios por isso... - aí lembro da senhorinha velha com um marcapasso de bateria limitada do outro lado dessa vilinha maldita que nos enfiamos para nos esconder da Morte. Se ela faz o que faz é para saber que vai pro Céu com os anjinhos dela.
 - Não tou interessada em privilégios não. Apenas faço o que me foi designado, inclusive limpar o meu local de trabalho.
 - Meus companheiros fizeram a sujeira, eu limpo.
 - Não tenho objeção a isso. Faz o que quiser... - me afasto dali bufando impacientemente, está cada vez mais pior ficar muito perto dela. Modos, maneiras, boa educação. Ensinaram isso na escola, não tem como errar agora. Ser rude por fora, tratar todo mundo como objeto de estudo, ficar afastada das pessoas. Elas fazem mal a nossa saúde mental, ela faz mal a minha linha de raciocínio...
 - Você poderia ajudar?
 - Isso foi uma pergunta ou uma ordem? Porque ao que me consta, eu não obedeço a você nem aqui nem lá fora...
 - Quando General Grande chegar, teremos uma boa conversa sobre isso... - ela se esforça em esfregar um pedaço grosso de marca de botas ali. Essa marca era a dela da semana passada que não me atrevi limpar. Por que ainda me importo?
 - Vai contar pro papai que a cientista maluca não gosta de brincar de casinha com a filhinha? É isso? - ela arregala os olhos ao me ver segurando um instrumento afiado de improviso feito com pá de pedreiro e muita fita adesiva. Cutuco a lama empedrada que ela tenta tirar do chão e logo faz efeito. Agora cá estou eu, muito perto dela, limpando o chão.
 - Realmente você me irrita.
 - Oh que bom saber. Vou me esforçar ao máximo pra melhorar a irritação.
 - Você poderia ser mais gentil, por favor? Já é difícil ter que... - a voz dela se perde ali, no esforço de empurrar o escovão de pêlos gastos no chão liso do laboratório de ciências da escolinha primária em que o "hospital" fica alojado.
 - A senhorinha Wools vai morrer daqui a pouco. - ela se vira para me encarar. - Ela tem um marcapasso de 10 anos que não recebe manutenção faz um bom tempo... - sei que ela mudou de expressão, dá para perceber pela curva no canto dos lábios, ela tem uma cicatriz ali, fui eu que fiz o curativo, foi quando a reconheci no meio de tanta gente.
 - Você pode fazer algo para ajudá-la?
 - Sou formada em Patologia Clínica, princesa... Não sei de nada sobre cirurgias com gente viva.
 - Você falando assim quase me convence que é realmente um ser humano de verdade... - eu rio com o desabafo dela, o chão está parcialmente úmido, mas limpo. O escovão é jogado dentro do balde com pouca água e a pasta, eu abro as janelas para que possa secar direito até a noite. Ela limpa as mãos e braços, faz isso por um tempo, metodicamente, por tudo que me é sagrado, como sinto falta de banhos quentes... Banhos quentes seriam perfeitos agora, ao lado dela principalmente.

Okay, preciso parar com essas coisas.
Rápido.

 - Desculpa pela portada naquele dia.
 - Tranquilo. - respondo como quem não quer nada. A portada no carro chique dela me custou 5 dias na UTI, medicamentos enfiados por um tubo pela minha goela, com suspeita de traumatismo grave e uma nova forma de ver o mundo. Perdi a melhor parte do espetáculo, quando o mundo começou a deteriorar de dentro pra fora e em menos de um mês tudo que conhecemos se decompor em caos, miséria, histeria e corpos. Muitos corpos para se estudar.
 - Pare de me chamar de princesa.
 - Tranquilo.
 - Pare de falar tranquilo. - ela parecia sorrir, a entonação da voz mudara.
 - Okay... - meu deslize a fez rir baixo. - Tranquilo.
 - Te peguei nessa...
 - Vai ser a única e última vez. Agora dá o fora do meu laboratório.
 - Se você continuar assim, vai ter uma má reputação a zelar.
 - Cê acha que dou a mínima pra isso? Tou acostumada. - e firmando meu olhar no brinquinho de osso que ela usa na orelha esquerda, tento ser a mais séria possível. - Dá o fora, princesa.
 - É Joan. - ela diz antes de fechar a porta, acho que ela esperou que eu respondesse.
 - Problema é seu. - é a única coisa que consigo falar.

É óbvio que sei que o nome dela é Joan.
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