Pesquisando

domingo, 6 de março de 2016

coisas que a gente não fala

"Anjo da Morte" por Evelyn De Morgan (1897)
A Morte, assim como qualquer coisa que envolva o Corpo acaba se tornando um tabu tão fechadinho numa redoma de adamantium que poucas pessoas que já conheci nessa vida de escriba se sentiram à vontade para sentar e conversar por horas sobre isso. Eu como boa pesquisadora desde que me entendo por gente, acabei me interessando por esse negócio (o corpo e tudo que vem envolvido nessa temática) por razõesmeio extracurriculares da minha própria natureza questionadora.
(Sabe o negócio de: "como funcionam as coisas?", então, o corpo humano pra mim é a caixinha cheia de engrenagens mais perfeita e misteriosa que já botei os olhos)

Tem gente que tá acostumada com essa perspectiva nefasta - gente que já viu a Dona Muerte de perto ou que teve experiências próximas com a perda de parentes, amigos, etc - e conversa de boa, mas mesmo assim sinto que o assunto não é lá bem tratado como deveria.

Já havia mencionado aqui no blog sobre algumas coisinhas sobre isso e como afeta diretamente a minha forma de ver o mundo, mas quando acontece muito perto, o mundo meio que para e revejo uma porção de coisas que estão erradas. Porque é exatamente isso que a Morte causa nas pessoas vivas: o questionamento incessante de que não estamos vivos completamente.

Para ler mais sobre isso tem esses links aqui [x] - [x] - [x] - [x] - [x]
Tem essa animação irlandesa MUITO legal: [x]
Emilie Autumn trata dessa temática com maestria: [x]

Alguma hora tudo isso que chamamos de corpo biológico vai parar de funcionar. Algum dia toda a energia que mantem essa estrutura intricada vai falhar e será mais um nome na lista da Dona Muerte. Às vezes o processo será apressado por inúmeras razões, medo, dor, culpa, tristeza, e por aí vai. E é aí que o tabu se torna mais afunilado, porque ninguém fala sobre suicídio.

Não sei da onde vem tanto terror pelo tópico, mas pelo que entendo em ler algo nas pessoas é que elas não exteriorizam esse pavor sobre suicídio. Por muitas vezes quem se mata é menos vítima do que culpado. A dor que fica remoendo as pessoas que ficaram para testemunhar esse ato de profunda responsabilidade - porque se matar está entre ser algo extremamente são e lúcido em certas circunstâncias, ou algo não-planejado e espontâneo. Fazer isso de forma abrupta e sem motivo algum é o que mais aflije pra quem fica. Da mesma forma que muitos classificam suicídio como na etimologia da palavra do latim, sui, "próprio" e caedere ou cidium: "matar", mas na minha teorização todos os dias estamos praticando um ato suicida contra nosso corpo.

Querem exemplos? Hábitos que prejudicam a normalidade de funcionamento do organismo: bebidas alcóólicas, drogas, cigarro, hábitos alimentares, falta de exercício, estresse demais, problemas psicológicos, ter uma carteira de habilitação...
(Oh vocês sabiam que acidentes de carro matam mais que armas de fogo no mundo inteiro? Então quem está atrás do volante pode ser considerado um suicida/homicida em potencial do que uma pessoa que possui porte de arma de fogo)




Tudo isso no balaio é uma forma de atentar contra a Vida que está no nosso corpo, diminuir a resistência para certas doenças, dar chance para acidentes acontecerem por falta de coordenação motora ou discernimento, all in all, estamos nos matando aos poucos de forma sutil e recorrente. O suicídio está muito próximo de nossa Realidade, não precisa ser explícito e romantizado como sempre, pode ser em atitutes pequenas que fazemos no automático ou por influência de outros. Tem uma vertente americana de legistas e tanatologistas que acreditam que qualquer forma de se agredir a si mesmo é uma tentativa de suicídio. Quando você fuma cigarro ou usa drogas é uma forma de suicídio prolongado. O beber e exageros com álcool também estão categorizado dessa forma. O atravessar a rua sem estar na faixa de pedestres, o ficar exposto a um calor terrível de 40º graus para entrar em um prédio com arcondicionado no 16º grau. São simples erros do dia-a-dia que podem ser considerados como suicidas.

Só o fato de respirar faz com que meus ossos do corpo todo se oxidem. Você está morrendo a cada instante, não tem como escapar dessa.

Mas o que isso tem a ver com a postagem?
É porque não é costumeiro admitir que se está ferrando com o próprio corpo para outrém. Você pode até se enganar dizendo que vai começar a dieta e a caminhada semana que vem, mas esse tipo de atentado contra o corpo é mais devagar, bem mais processual e gradual. Pode até ter uma previsão da merda que vai dar lá na frente, mas não exatamente quando. Já o suicídio que estamos acostumados a ouvir falar "Morte abrupta por meios violentos contra si próprio" é que fica mais estampado no senso comum. É disso que a maioria teme, essa intrusão de interromper a própria vida sem seguir o procedimento que todos estão acostumados a "se matarem". É o rápido, o escape, o evento único e doloroso de extinguir a própria vida e não ter mais volta.

Não vai ter. Sério.
Ninguém voltou para dizer se tinha volta.

As crenças e religiões de diversos povos tratam o suicídio como algo errado, uma maldição que o corpo foi capaz de praticar para condenar uma alma contida nele. Se pesquisarmos a quantidade de sentidos que a palavra suicídio tem nas diversas culturais, posso garantir que 78% delas vai denotar algo como violação corporeidade: você, como ser humano são, racional e capaz de fazer decisões, não tem direito de se matar. Mas de matar os outros tudo bem, tem justificativas boas pra esse item. O de tirar a própria vida? Nananinanão: tá riscado da lista.

Essa discussão internalizada que mantenho comigo mesma já não é de hoje. Quem já esteve um tiquim perto daquilo que poderia ser o ultimato entre o dever e o direito ou sofreu algum tipo de trauma tão ferrado que a cabeça para de produzir as ideias boas para prosseguir nos upgrade da vida, vai entender que a linha é tênue, o esforço é grande, os conceitos são vários, mas a sensação parece ser a mesma: impotência.

Infelizmente uns dias atrás recebi a notícia de que um dos amigos da época do vilarejo-brejeiro - quando eu estava numa banda - se foi dessa maneira trágica. O que mais me incomodou não foi o porquê ele conseguiu dar fim a própria vida, mas a maneira como a notícia demorou a chegar entre o grupo de amigos (E como isso afetou seriamente o comportamento de alguns, inclusive o meu que já não estava bem). Parecia que falar/admitir que o querido havia tirado a própria vida era algo proibido e vergonhoso. Ele tinha os problemas dele, as enfermidades, as inseguranças, todo um conjunto de fatores que vão se construindo e edificando uma torre bem alta de expectativas e decepções. Quando não tem gente trabalhando nas escadas dessa torre, beleza, não é preciso fazer malabarismo para atingir o topo, mas quando a escada tá prontinha e só falta se jogar lá de cima, as pessoas recuam com medo de que "falar" sobre a bendita da escada é algo inconcebível.

Deus Tânatos da Mitologia Grega - Créditos [x]
O não falar pode ser pior do que abrir o diálogo.

Durante a semana que ocorreu o episódio horrível - e foi, porque mesmo não tendo contato com o rapaz há muito tempo, foi como entender que esse caminho mais rápido, mais violento, menos custoso, menos dolorido foi a única solução que ele teve para teminar com a dor que sentia - o choque foi misto entre indignação (muitas, mas muitas perguntas) e o peso no coração. A minha cabeça literalmente explodiu com uma crise chata de dor por alguns dias, seguido de uma vontade enorme de entender o porquê. Não para apaziguar ou acalentar os ânimos de quem queria explicação - como disse antes: às vezes é impensado e eficaz, não tem volta - mas para abrir o diálogo sobre o assunto.

Tenho contato com pessoas de diversas idades e diferentes backgrounds de vida, tenho muito contato com jovens da minha idade que supostamente estão na mesma linha de "okay, eu estou bem" e também adolescentes/crianças que passam por todas as transformações com menos informação que supostamente elas deveriam ter. Falar sobre a Morte é algo natural nas aulas de Ciências/Biologia, quando é sobre algo que não é humanóide. Tudo bem o ciclo de vida de insetos, plantas, parasitas e outros mais, mas falar da decomposição do corpo humano e necrochorume? Nopes, pouco há disso ali na vida escolar e acadêmica. Quando certas situações aparecem e que a palavra priobida abre uma pop-up de advertência, eu já fico ligada para ver o que posso fazer para ajudar ou possivelmente freiar o modus operanti que talvez já esteja rolando. Eu já fui adolescente, eu já fantasiei muitos cenários de Vida, de sucesso, de amor, de vitória, mas também de Morte. Em alguns isso fica acentuado mais que os outros.

E aí que o diálogo serviria de um grande apoio para quem está secretamente sofrendo de uma dor tão insuportável que cogitou em tirar a própria vida para interromper o ciclo de destruição.
(Paradoxalmente, interromper um circulo de destruição com uma ação violenta. Yep, bem isso)

Estou a ler um livro que trata do cotidiano dos trabalhadores da Saúde no Brasil que enfrentam essa palavra proibida todos os dias, em situações adversas e de uma forma em que as precauções devem ser imediatas e controladoras. No final o que conta é a Vida salva, não a Morte interrompida. Mas por que dar manutenção à Vida apenas quando isso acontece? Seria mais sensato abrir o diálogo para o assunto desde novos, para sabermos que há pessoas e problemas que são dificeis de compreender e consolar.

O livro "Chaves do Óbito Autoprovocado" do psiquiatra Alan Índio Serrano traz essas questões do diálogo antes, durante e depois. O durante é mais acentuado e ajuda a entender algumas facetas de como se portar durante uma tentativa de suicídio ainda não finalizada, o que pode ser uma mão na roda para os servidores da Saúde, Bombeiros e outras instâncias, me abriu um leque de averiguações em que eu devo (E é no imperativo devo) conjugar na minha vida e na minha atual conjectura de fatos que constrói a minha Realidade: tem jeito sim. Tem como falar sobre suicídio e informar as pessoas sem alarmar de modo catastrófico que a mídia e o senso comum costumam lidar com casos assim.

Como futura bibliotecária acredito que qualquer assunto deve ser extirpado de qualquer pré-conceito e julgamento de valores, falar de coisas como essa, que requerem que entremos numa esfera proibitiva dentro da sociedade é como meter a mão num ninho de vespas e esperar que nenhuma vá te picar. Pessoalmente eu me sinto no direito de falar mais abertamente sobre isso, porque é algo que me interessa, algo que de certa forma molda minha visão de mundo (Nâo, não são tudo unicórnios e arco-íris e pirações de Loki aqui na cachola abençoada), algo que se fosse tratado como a nomenclatura de espécies ou a conjugação de verbos da Gramática Normativa, a problematização seria intoduzida cedo e argumentada durante a vida do sujeito, culminando então para ir pra uma questão de Saúde Pública, seria outra perspectiva de encarar a Morte como parte essencial da Vida. Se nossas crianças nas escolas entendessem que o corpo (delas, do Outro) estão sujeitos a tipo de violência mais devastadoras que um joelho ralado, não haveria tanto problema por aí - índices altos de feminicídio, altas taxas de homicídios em grupos étnicos e minorias, suicídios em grupos específicos, estupros, abuso moral, bullying, prevenção nula, avaliação falha, solução impossível, etc. - Se PELO MENOS a Educação Brasileira fosse mais humana daria para fazer entender que o problema maior não é o Morrer, mas é o Viver em uma sociedade onde a Morte é a assombração e a Vida Eterna parece ser mais valorizada que tudo.

Todo ciclo não é eterno, nem perfeito, os clássicões falavam, tudo tem seu fim, mas tudo também continua o mesmo. O mesmo sobrevive ao fim e é isso que dificulta alguém conseguir conversar abertamente e saudavelmente sobre Suicídio.

Todas essas questões me deixaram para baixo por dias, porque não há com quem conversar sem parecer um tiquim mórbida ou pragmática sobre o assunto. Ao dar a brecha para falar, presenciei afastamentos, nós na garganta e bom senso ruleiando até o chão. Não é o ato em si que me perturba - acontece - é o que sobra após o ato. Os sobreviventes (Parentes, amigos, chegados do suicida), esses precisam de todo apoio possível e toda a informação que for cabível para ser compartilhada, isso que me irritou mais durante esse tempo.

E quem achar que esse papo todo tá muito mórbido e que eu não deveria estar tocando nessa ferida, bem... Desculpe-me a intrusão, mas cês não acham que se soubessem um pouco mais sobre suicídio quando mais novos (Fase escolar), não haveria melhor compreensão e estudos mais aprimorados para prevenção dessa situação?

Tudo bem que insistir na causa pode causar uma derradeira rasteira no meu humor já prejudicado por outros fatores (E olha só que interessante: revisando todo meu histórico de depressão e PTSD, a Vida é que me importuna mais, não a perspectiva de Morte.), mas deixo o texto para reflexão aqui. Sei que não falei nem 10% do que realmente queria, mas como sempre falo: esse blog é para posteridade, talvez algum dia eu volte e reveja minhas opiniões.
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