Pesquisando

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

aquele lembrete discursivo


Quem convive diariamente com a depressão (Ou como eu chamo: bode, por conta do trem lá do teatro grego, o tal do trasgo) sabe que mensurar as palavras é uma tarefa bem bem difícil. Às vezes os altos são marcados com explosões de humor que podem ferir quem está por perto e os baixos são caracterizados por silêncios horrendos de se livrar. Por mais que seja tentador seguir um dos caminhos, creio que a lição de se cuidar muito bem com que você fala é um passo para melhorar e voltar a ser uma pessoa sociável.

Problema é que quem está por perto não entende bem quando os altos e baixos acontecem e o porquê acontecerem assim sem aviso. Ter comunicação com quem cuida da gente ou demonstra que se importa é algo que é bom manter, conforme dá (o bode também dá uns migué de que você não precisa avisar, porque ninguém vai te ajudar, te levar a sério, vai entender e tudo mais), se não der, tudo bem, não precisa forçar, ok? Apenas tenha a ciência de que pelo menos alguém pode te ajudar, te escutar, te levar a sério - tente respirar com mais calma e perceber nessa pessoa, vai que está ali do lado e o bode deixou uma neblina tão densa que ficou difícil de enxergar.


Quanto as explosões de humor, sim, todo mundo tem um dia de fúria pra soltar os cachorros, mas o bode meio que sente prazer em usar justamente esse argumento para atacar as pessoas que estão por perto. E de uma maneira bem covarde, xingar, ofender, humilhar e fazer comparações inferiores para "soltar o verbo" não costumam ser uma forma boa de chegar a catarse básica. Há uma diferença enorme entre estar pedindo por ajuda e ser babaca, isso piora mais a situação (o bode gosta de fazer a gente pensar tanto, mas tanto que esquecemos de curar o problema principal para inventar mais uns trocentos para não solucionar nada. A bola de neve vira avalanche).

Quanto aos silêncios, eles são preciosos pra quem tem uma mente tão barulhenta, que o bode aproveita pra se amarrar em uma das nossas pernas e estacionar ali por um bom tempo. Silêncio é bom para ordenar pensamentos e não cair na de gritar com os outros, mas quando o silêncio vira estática de rádio, aí que reside um perigo. Deixa os outros se aproximarem, ouça mais o que eles falam, não precisa opinar, ou se sentir pressionadx a se expressar, apenas não chegue ao ponto de achar que o bode amarrado na perna é sua única companhia pro resto do tempo que você tem (e quando tempo ainda terá! Bota isso como prioridade, o seu tempo aqui vai durar bastante e terá muita coisa pra se preencher ele, tipo, eu gosto de estudar, escrever e tr0llar meus gatos, isso já me dá um alívio imenso de saber que posso aproveitar o tempo assim).

O bode bale bem alto, é ensurdecedor algumas vezes, de cansar a gente, de fazer com que as manhãs sejam horríveis de se levantar e se arrastar pra fora da cama, as tardes serem feitas de um policiamento de "o que fazer para não cavar mais um palmo nesse buraco que me enfiei (e a culpa é minha, só minha, minha, minha)" - fecha os olhos, respira fundo, o bode também tem essa mania de culpar a gente de uma maneira excessiva. A culpa não é sua, tem como sair do buraco, tem como parar de cavar, tem como ouvir melhor sem o bode balindo. As pessoas que cuidam e se importam estão ali de certa forma pra gente se atentar a isso, respire fundo e ouça elas de vez em quando, faz bem.

Tem pessoas que se preocupam de formas diferentes, umas são grudentas quando a gente se acha sufocadx pela corda que o bode amarrou na perna. Tem outras que são distantes, mas tem um jeitinho de descobrir a campainha do muro que a gente ergue pra fugir dessa loucura toda aí fora (e o barulho e o medo e essa normatividade que mata), essas são as mais engraçadas, porque elas sabem a hora de tocar a campainha e sair correndo pra te deixar curiosx com o que raios elas queriam (por que desperdiçar seu tempo vindo checar o muro? Não sou tão importante assim na sua vida, não tenho o que oferecer de volta, sou insignificante na maior parte do tempo, então por quê...? Sim, é muita pergunta ao mesmo tempo).

Tem outras que pensam que precisamos de corretivo, tratamento de choque, fazer tudo ao contrário, dar colo. Perda de autonomia na cachola é uma das principais coisas que acontece com quem está depressivo, a gente dúvida de tudo e de todos, e mais ainda: não nos damos mais valor para absolutamente nada. Não nos lembrar que o bode tá ali, amarrado na perna e só tratar do nosso corpo não vai adiantar muito, afinal... O bode continua amarrado na perna.

Então para quem sofre em estar depressivx e quem está por perto dessa pessoa, lembrem que a comunicação é uma arma letal, mas também uma ótima forma de fazer o bem. Prestem mais atenção ao redor, saibam que não estão sozinhxs, pratiquem mais a alteridade, toquem campainhas nos muros altos, tenham um fone de ouvido pro bode não balir tão alto, medidas boas, mas válidas quando se é pra se recuperar, se curar e se sentir feliz de novo.

Vale a pena batalhar por isso. Algum dia o bode cansa de ser deixado pra trás pelo nosso esforço em querer ser awesome. E por mais que pareça que não, você é awesoooooome, coisamaislindadouniverso, maravilhosx e não duvide mais de si mesmx.

Uma ótima noite, dorme bem e que amanhã você saia da cama com um belo dia pela frente. Porque eu com certeza vou tentar o meu máximo aqui ^_______~