Pesquisando

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

as filas da vida


Começa com uma rememoração bem bem lá do fundo do baú, uma lembrança que talvez a infância não entenderia o contexto pra saber se cuidar ou retrucar.

 A linguagem ali era meio que um treino pra socialização posterior - mas por que as pessoas não falam umas com as outras? As coisas seriam tão simples.

Lápis é lápis. Caneta não pode usar, só os adultos. Giz de cera já não serve, porque a Educação Infantil passou e adiantada 2 anos no meio de uma turma de crianças já alfabetizadas assusta. E eu gosto de giz de cera pela textura, pelas curvas que dá pra fazer, o cheiro, a fragilidade de não poder deixar cair ou jogar de qualquer jeito dentro da mochila. A vida com giz de cera foi bem curta, mas rendeu desenhos como de uma menininha pastoreira que colori insistentemente com a cor azul, porque sempre amei azul, logo pela lógica infantil seria legal ter essa pigmentação a mais na nossa epiderme.

Aí vem as filas. Ou a linha de produção em massa em que somos domesticades.





Uma pra meninos. Outra pra meninas. Ordem crescente de tamanho. As maiores lá atrás, as menores na frente. Eu no meio, porque os 1,75m que queria enquanto crescia nunca chegou (é a genética né? Ela prediz tanta coisa! Será que previa a fila onde eu deveria ficar? Ou isso foi ssocialmente instalado?).

As filas se replicam durante a idade escolar, fila pro lanche, pro banheiro, pra cantar hino de 3 coisas que nem entendia ainda (conceitos de nação, estado e bandeira eram tão abstratos quando agora), fila pro médico, pra tirar foto 3x4 pela primeira vez.

A foto era ambígua. Não era é não sou de superfícies refletoras - aquele papo de espelho captar parte da sua alma continua circulando - preto e branco, sem detalhes de fundo como eu gostava de perseguir nas gravuras de revistas de viagem e catálogos de filmes que tinha em casa. 

O rosto de 6 anos de idade não me diz muita coisa sobre a diferenciação nas filas, mas me dá pistas de quem eu era. Parece ser a/uma Bruna, mas mesmo assim não Bruna. Parecia comigo, mas não familiar. Descobri cedo que fotografias poderiam ser boas formas de recolher pistas para o futuro.
(uma menininha com cara qualquer, dentes crescendo, cabeleira confusa e volumosa, presilha de cabelo para prender as madeixas, não pra me identificar como menina - aliás, não seria legal pensar que todo mundo já tinha uma ideia do que eu era? Porque eu tinha lá na fila, a do meu lado era de meninos, a minha era de meninas)

Socializar com os meninos da rua não me dava direito a ser como eles. E percebi que na escola, o fato de sempre estar na fila do lado deles não me deixavam jogar futebol, apenas vôlei, brincar com as bonecas da caixa, me refugiar numa revista em quadrinhos. Essas eram as opções. E eu achava que era vice-versa, os meninos não podiam mexer na caixa das meninas. Não podiam jogar vôlei no pátio (Porque a quadra era deles e era normal não é? os espaços maiores são deles, inclusive os banheiros tem mais coisa), na fila do lanche não podiam entrar na minha frente.

Eles podiam.
Agora o porquê ninguém me ensinou. 

Nos aniversários eu pedia caixas de peças de madeira ou Lego quando dava, meu pai foi felizardo em entender que passar muito tempo falando aos cotovelos de histórias fantásticas deveria ser extravasada em algum lugar mais produtivo. Primeiro conjunto de Lego: um astronauta em um planeta gelado.

Um boneco amarelo, de cara genérica, cabelo escondido pelo capacete enorme, um veículo para percorrer a geleira. Nenhuma curva, nenhuma acentuação corporal indicando qual fila ele possivelmente poderia se encaixar lá na escola. Por muito tempo foi brincando com ele e sendo direcionada por uma amiga imaginária bem marcante (sim, era uma moça bem gente boa) que a infância foi de boas.

Aí depois do acidente de bicicleta, a vida meio que deu uma guinada. O corpo começou a mudar, o rosto da 3x4 mudou muito na área do queixo, fui confundida por um menino na saída do colégio.
Porque estar toda ralada, queixo enfaixado, rosto inchado e um sorriso de experiência bem válida (e foi, nunca mais repeti o delito de descer a rua na bicicleta sem freio e verificar se as leis de Newton funcionavam mesmo) eram experimentações masculinas. Volta e meia um colega de turma estava quebrado, ralado, com roxo no corpo. Para a fila do lado era um troféu de: "fiz uma manobra no skate, não freiei o rolimã na hora, a bola me acertou na cara" - na minha fila era vergonhoso uma menina estar assim.

Insira aqui diversos motivos para uma criança de 8 anos não se acidentar por conta do bem-estar de sua saúde.

Insira aqui reprimendas por mal conseguir abrir a boca pra comer por conta da dor, mas contar animadamente que voara por cima do guidão como um super-herói.

E receber uma silenciada com aquela frase típica: "Você não é hominho pra fazer essas coisas. Não faça mais." - vejam, não veio da minha família, não foi alguém que me importava muito, mas aí que veio o gatilho pra tudo.

Eu não era "hominho", mas brincava como um, sabia me relacionar bem como um, entendia do mesmo universo deles, e mesmo naquele espaço da fila de "não pode tal coisa, pois é menina" eu fazia muito mais coisas que uma menina podia.

Isso dá uma autonomia tão perigosa que me achei no direito de trocar de fila um dia, no lanche, só pra ver se a tia gente boa do lanche me reconhecia e pedia pra mudar de fila. Ela notou, ela encheu a caneca de achocolatado, passou os biscoitos e me despachou. Foi bem cedo que aprendi que não tinha os mesmos direitos com quem mais socializava .

As censuras diárias de  gênero  fizeram parte da minha vida desde cedo num espiral looping que começava com a sensação que podia me sentir bem fazer algo, mas que socialmente não encaixava na denominação e gênero que me colocaram. Se aprende a valiosa lição que não se pode falar tudo que passa na nossa cabeça, não quando há outras pessoas por perto. Descobri que ser adiantada 2 anos na não me ajudavam nada em conhecer mesmo as pessoas e entender as duas filas.

Na família ficava esse clima de "logo ela  fica feminina, logo ela para de fingir que é homem" - tive sorte de não receber uma heteronormatividade compulsória de minha mãe na infância, mas foi mudar pro estado do pão de queijo pro pesadelo linguístico começar, ouvir o repertório de:
"Você é menino é?"
"Deixa de ser macho que não é certo menina fazer isso!"
"Sem brinco, vestido, melissinha? Cadê a presilha, batonzinho, a Barbie?"
"Não posso brincar com você, porque acham que você é homem."
"Não posso brincar com você, porque você é menina."
"Não pode ficar aí, porque vai achar que você tá aprontando."
"Oh menininho, opa desculpa era mulher? Nem parece."

Afinal de contas, o que eles estavam falando?! Sou uma pessoa primeiro, se a fila onde passei minha idade escolar primária dava a entender que sofreria limitações, teria deixado o anarquismo bater e bagunçar o sistema de filas.
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