Pesquisando

quinta-feira, 23 de março de 2017

[conto] a cidadezinha

Esquina da Bourbon Street no French Quarter - Nova Orleans
Título: a cidadezinha (por BRMorgado)
Cenário: Original/Cotidiano - Nova Orleans.
Classificação: 18 anos. (linguagem forte, violência, morte, abuso de drogas).
Tamanho: 4.789 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Diálogos quebrados entre os anos de Sarah Irina ingressar na Marinha e a volta forçada para casa.
Disclaimer: Como não largo as vibes de Nova Orleans e aproveitei o cenário que já tenho (Felicidade Adormecida, em breve um link prestável) para colocar essa pequena peça de diálogo. Faz parte desse cenário aqui também [x] - Escrevi esse pedaço em forma de diálogo, então bora tentar deixar desse jeito e ver se flui a história.
Trilha sonora: Sem trilha dessa vez, mas bota tudo que for dos anos 80 aí nessa mistura e um bocado de música country da sofrência mais pra frente.

 - Música boa!
 - Arram...
 - Pensei que o DJ ia só tocar paiera.
 - Oi? Parceira?
 - Paiera! É tipo, música tosca!
 - Mas é música tosca tocando!
 - Quê?
 - Trash dos anos 80 é música de qualidade pra ti?
 - É classicão da porra!
 - Nossa, nunca pensei que você tinha a capacidade de xingar... Estou impressionada.
 - Tem umas coisas que cê precisa saber de mim antes né?
 - Qual tipo de coisas?
 - Cê sabe, essas coisas que só gente como a gente costuma trocar...
 - Acho tão fofo esse teu jeito de confiar sem antes de saber as intenções da pessoa...
 - Uai, não rola isso a esse ponto não?
 - Dividimos a cama uma vez...
 - E outra vez sem a cama... E mais outra sem ter divisão alguma... Eu diria... NOSSINHORA DEPECHE MODE!!
 - Uau, meu ouvido?
 - Foi mal, mas!!!
 - É, eu sei... É a nossa música...
 - Se chegamos ao ponto de ter uma música só nossa, por que não poder contar segredos?
 - Sei lá, a gente tava meio que...
 - Dividindo cama?
 - Isso.
 - Trocando DNA?
 - Okay.
 - Dando uns pegas?
 - Certo, já colocou seu ponto de vista bem nítido sobre esse assunto.
 - Se te incomoda, tudo bem. Deixo baixo que é melhor, né?
 - Música tocando, bico fechado.
 - "Nossa" música tocando.
 - Nossa...
 - Deviam tocar uns punk...
 - Aí cê tá pedindo demais... Vou ali com a turma.
 - Beleza. Te vejo depois?
 - Urrum... Nada de ir pra roda punk, maluquinha...
 - Mas nem vai tocar punk.
 - Quem disse?
 - Você acabou de dizer?
 - Não acredite em tudo que digo, pode ser bem perigoso...
 - Beleza.



 - Que a esquisita tá querendo dessa vez?
 - Ela nem sai da escola quando tem feriado.
 - Não é sobre o que ela quer, mas o que eu quero que ela faça.
 - Ih lá vem...
 - Cê manda nessa escola toda se deixar, hahahahaha!
 - O que posso dizer? Talvez seja o meu incrível charme... Sempre cativando os meros mortais.
 - Mas sério, por que a esquisita?
 - Porque ela me obedece.
 - E gosta mesmo de punk.
 - Ela ama Depeche Mode, e as músicas que gosto. Já é o bastante.
 - Não, não, cê não entendeu: ela gosta MESMO de punk.
 - Oh não, de novo não!
 - Uuuuuuuh caraca! Ela sabe mesmo ir pra uma roda punk.

 - O que eu disse pra você?
 - Que aminoácidos são formados por carbonos, hidrogênio, nitrogênio e oxigênio?
 - Não tou de brincadeira! Levanta o queixo.
 - Ai, dói!
 - Não doeria se você não fosse idiota o bastante pra se jogar com aqueles brutamontes!
 - Hahahahahahahahaha fala isso de novo?
 - Não zombe de mim!
 - Seu vocabulário muda quando você quer mandar na gente?
 - Isso não vem ao caso. Cospe logo antes que você engasgue. Deus, você quase arrebentou os dentes...
 - Tá ficando inchado? Tou sentindo inchar.
 - Qual é teu problema?
 - Roda punk sempre rola isso.
 - Eu disse expressamente que NÃO ERA pra ir em roda punk alguma.
 - Oh dó, eu fui...
 - Vai rindo vai... Sua cara vai virar uma batata daqui a pouco e esse sorriso vermelho não é nada atraente.
 - Tudo bem, não tenho mais com o que me preocupar...
 - O-oi?
 - Eles tocaram Dropkick Murphys, era tudo que eu tava esperando mesmo...
 - Pensei que tinha vindo, porque eu mandei você vir...
 - É, teve isso também...
 - Não adianta jogar de difícil, viu? Você sabe muito bem que na minha mão você derrete rápido.
 - Cê tá tentando me seduzir no banheiro? Com rosto amassado e sangrando? Seus padrões tão baixando hein?
 - Cala a boca, vai...
 - Okay...
 - Abre a boca, deixa eu ver se você não mordeu a língua ou algo assim.
 - Ah.
 - Sua língua é parte importante do nosso acordo caso não se lembre... Não quero meus pertences sendo danificados por conta dessa cabeça oca do interior...
 - Obrigada.
 - Boa menina.

 - Oh esquisita! Apressa o passo aí!
 - Vai no fluxo, véi!
 - Ela usou alguma coisa antes de sair da festa?
 - Depois daquela cotovelada nas fuças, até eu me sentiria com um parafuso solto.
 - Vamos, amorzinho...
 - Hahahahahahahahaha você chamou ela de amorzinho!
 - Para de zoar, porra!
 - Qual é? Cê tá de brincadeira comigo?
 - Iiiiiih vai ter DR agora?
 - Cê chama ela de amorzinho e eu sou o quê?
 - Meu amorzão?
 - Véi isso tá muito errado, cês tão tudo junto? Tipo poligamia?
 - Ca***** Irina, anda logo aí ou as freira vão nos enquadrar!
 - Quem enquadra é milico, véi. Tá precisando aprender umas gírias de malandro logo.
 - Sério que vocês tão juntos?
 - Não é isso, gente...
 - Porque dou total apoio. Se quiser mais alguém, tou disponível.
 - Você é tão facinho, seu bichinha.
 - Quale véi, sou chegado nessas coisas não, nem me olha assim.
 - Vocês, garotos, só sabem brigar.

 - Arram.
 - Yep.
 - Arram, arram.
 - Tá com dor de garganta? Tenho bala aqui.
 - Onde conseguiu isso? É proibido doces aqui, menina.
 - Joguei verde, Madre.
 - Seu rosto está inchado.
 - Caí da cama.
 - Uma queda e tanta. Tem até a marca de dedos ali na boca.
 - Erro de cálculo.
 - Pode dizer como foi essa queda?
 - O de sempre... Pareço que sou uma batata, né?
 - Batatas são mais graciosas. Meninas que acham que podem se comportar como selvagens, como homens, não são graciosas.
 - E mulher graciosa acaba se casando mais rápido, né?
 - Arram.
 - Pigarro?
 - Não. Por que trouxe esse assunto?
 - Você que começou com o sermão da graciosidade.
 - Anda conversando muito com aquela Rutherford. Não gosto nadinha disso.
 - A senhora acha que algum dia eu caso?
 - Oi?
 - Tipo, casar mesmo. Mesmo com meu problema?
 - Deus tem um plano para cada um de nós, Sarah. Lembre-se bem disso. O matrimônio é o bem mais sagrado que nós mulheres podemos ter para honrar nosso dever.
 - Cê sabe que cê é freira, né? A regra não vale pra ti?
 - Arram.
 - Escapou, foi mal.
 - E sendo o plano de Deus que nós obedecermos em retidão aos desígnios Dele, seria muito importante que você se concentrasse em se manter inteira e tranquila antes de...

 - Por Deus, o que cê tá tentando fazer?!
 - Quebrar uma perna, tá difícil.
 - Cê enlouqueceu de vez?!
 - Opa, essa também é uma opção. Ou ir pro Canadá.
 - Que cê tá falando?
 - Tou falando, chica. Última vez que a gente leva essa maluca pras festa da gente!
 - Porra, foi uma queda e tanto, cê tá bem Irina?
 - Posso estar vendo o mundo girando agora. E a partitura da 5ª de Mozart toda, com estrelas.
 - A maluca falando de música clássica agora?
 - Você ouviu?
 - Tentei tirar de ouvido, mas o maldito surdo tem umas pegadinhas
 - Surdo era o Beethoven, amorzinho
 - Amorzinho de novo... Porra, Rutherford. O que cê tá fazendo?
 - Mas gostei mais dos alemães. Agressivos. Mais drama. Rola umas coisa pro cello.
 - O que vou fazer com você, hein?
 - Casa comigo?
 - Quê?!
 - Whoa homão da porra, nada de ciuminho. É óbvio que a esquisita tá entupida de açúcar mascavo.
 - Hein?
 - Heroína, véi! Ela usava quando mais nova, por que raios pularia ali da varanda como se quisesse voar?
 - Vamos voltar com ela pro quarto. Se tá doidona, vai ficar doidona longe da gente.
 - E-eu vou com ela.
 - Quale, é a nossa noite favorita!
 - Vou depois. Para de choramingar ou não vai ter mais sua noite favorita.
 - S-sim.

 - Sarah?
 - Oi?
 - Espero que entenda que temos orgulho da sua escolha.
 - Urrum.
 - E damos toda a força e apoio para você ir com a glória de Deus e a bênção de Virgem Maria.
 - Beleza.
 - Sabemos que você vai se dar muito bem lá... Será um exemplo entre os outros jovens.
 - Aqui, toma meu rosário da Santa cruz, vai te proteger de todo mal que rondar. Minha bênção pra você se manter no caminho verdadeiro de nosso Senhor Jesus Cristo.
 - Obrigada irmã...
 - Sei que encrenquei contigo esses anos todos, mas teu dever é divino, chamado dos anjos. Defender nosso país do terror dos infiéis é algo...
 - Irmã Clarence...
 - Oh desculpe Madre. Aqui minha bênção, minhas orações e...
 - Obrigada
 - Tenta voltar pra gente, ok?
 - Okay.
 - Vem cá... Vou deixar essas cerimônias de lado menina, você já passou por muita coisa nessa vida tua. Vem, deixa eu te dar um abraço, minhas bênçãos e segue teu caminho na fé com a proteção de Maria Imaculada.
 - Cês me confundem pra caramba com a quantidade de santo que vai me proteger. Posso escolher um aí não? Poupa trabalho lá no céu...
 - Você não tem jeito...
 - Estou tão orgulhosa de você, querida. Saiba que aqui sempre será o teu lar se assim você quiser. E quando voltar...
 - Se eu voltar.
 - E vai voltar! As aulas de música são suas.
 - Então é melhor voltar logo, menina. Já cansei de tentar botar algum juízo na cabeça desses colegas desmiolados.
 - Vai dar tudo certo.
 - Na graça de Deus.
 - Bendito seja.
 - Pai nosso que estais nos céus, santificado seja...

 - Cê é católica, soldado?
 - Nunca fui. Sou cellista.
 - Caraca, achando que era... Crucifixo e livro de reza e talz...
 - É amuleto da sorte. As pessoas que me deram queriam meu bem.
 - Tá se sentindo melhor agora?
 - Uma maravilha. Minha voz tá arrastada assim mesmo ou é só eu?
 - Foi uma explosão e tanta. Cê perdeu o espetáculo.
 - Oh dó, acho que tava preocupada com metade da meu corpo não responder mais e o Michigan dilacerado no meu colo.
 - Foi foda essa...
 - Família dele vai buscar?
 - Não sobrou muita coisa pra buscar. Vão mandar a caixa e o cheque.
 - Porcaria.
 - Oh, não levanta daí, não, o doutor disse procê ficar de molho até a anestesia sumir.
 - Tou anestesiada?
 - Arram, e demorou a pegar essa porra. Na tua ficha tá escrito algo... "Alérgica a opioides."
 - Hahahahahahahahaha eles botaram alérgica?!
 - E, tá aqui oh...
 - Véi... Essa foi a coisa mais fofa que alguém escreveu na minha ficha médica.
 - De ser alérgica ?
 - Já me enterrei heroína quando adolescente.
 - Corajosa. Sobreviveu como?
 - Colégio católico, muito castigo de Deus e sermão das madres. Tou aqui né?
 - Mas se proteger de comboio na mira de malaco do Talibã, não né?
 - A gente tá tudo podre aqui.
 - Bem, só sobrou eu e você. Taylor desistiu de respirar na terça.
 - Porcaria... E os outros?
 - Os civis viraram churrasquinho. A porra toda incendiou depois. Não deu pra tirar o povo a tempo. Terrence e Alisson foi na hora, muito estilhaço. Vamos dizer que Taylor foi o mais fácil de catar os caquinhos.
 - Merda.
 - Hey, olha o palavrão aí, tu ficou apagada por 2 semanas, de lá até aqui.
 - O que aconteceu de interessante? Ganhamos a guerra?
 - Olha pra minha cara?
 - Não custa nada sonhar.
 - A enfermeira fez aquele teste lá. Contigo, o teste em você.
 - Qual teste?
 - Aquele que fazem em vítimas de estupro... Disseram que é obrigatório quando a situação é meio essa.
 - A enfermeira era bonita? Gente boa? Tinha uma conversa cativante?
 - Hahaha, vai rindo maluquinha... É uma senhora de cor, fala bonito sabe? Acho que é bambambam por aqui.
 - Por que ela fez isso?
 - Te falei, é procedimento pra quem vem transferido do deserto pra cá.
 - Onde é ?
 - Landstuhl.
 - Cacete, tamo longe de casa...
 - Pelo menos tem casa pra voltar.
 - Na verdade, um convento.
 - Tá doida? Virar freira? Tu já detonou com 9 dos 10 mandamentos.
 - Uai, é o lugar onde vivi desde...

 - Cê tá zoando comigo?!
 - Esquisita, vai logo senão a coisa vai ficar feia pro teu lado.
 - Vai assim, sem dar adeus? Sem agradecer? Você deve muito a ela! Sua vadia ingrata, depois que ela fez por você e aguentou esse teu jeito esquizofrênico? Ela se arriscou com a família dela pra ficar de boas contigo!
 - O que cê tá falando? Ela não fez porcaria nenhuma. Não tem essa de obrigação entre a gente não! E pra quê tou dando satisfação pra tu zé povinho? Cê não faz muita diferença na vida dela não... É estalar o dedo e ela consegue outro pra servir de bichinho de estimação.
 - Retire o que disse!!

 - Abra bem a boca... Okay, relaxe... Feche a mandíbula algumas vezes, sim? Okay, agora vamos ver essa sua cabeça, sim?
 - Cê é médica?
 - Legista. Tou fazendo extra pra ganhar pontos com o programa de pós.
 - O que legista faz?
 - A gente costuma cuidar de gente morta, descobrir porque as pessoas morrem e talz. Pros milico a gente é top pra resolver assassinatos e... Cê tentou quebrar a perna né?
 - Como você soube?
 - A ultrassonografia deu ali, oh... Tá vendo essa mancha? Aqui foi a luxação, o processo de cicatrização foi bem aqui e aqui.
 - Quebrar a perna é uma boa estratégia para evitar serviço militar.
 - Ooooooh alguém foi descoberta! Hahahahahaha, boa!
 - Sarah Irina, não é? Tua ficha roda aqui no sistema.
 - Isso é bom?
 - Pra você é, pra mim não.
 - O que a doutora quer dizer é que isso te mantém longe de recaída, mas dá um trabalhão pra quem tem que fazer o relatório mensal.
 - Sua avó era alguém muito querida pra mim, não vou deixar a neta dela ir pro mal caminho...
 - Obrigada.
 - Cê não tá se picando mais né? Nem cheirando?
 - Não, tou limpa. Me alistei ano passado, preciso estar bem pra ir.
 - Texas é mó ruim. Qual base cê pegou?
 - A de Houston mesmo. Tou nem ligando pros rednecks...
 - Tem algo contra nós texanos?
 - Oh doutora, foi mal! Não sabia que cê era do estado mais irritante do EUA!
 - Os exames de rotina estão certos, os medicamentos também controlados. Seu cadastro com o programa tá ativo né?
 - Urrum, uma vez por semana, vou na terapia de grupo também.
 - E está gostando?
 - Ah...

 - Meu nome é Timothy Rutherford e eu sou viciado. Podem me chamar de Tim.
 - Olá Tim!
 - Comecei cedo, acho. A gente começa cedo aqui na Big Easy, né? Muita facilidade, os amigos errados, essas coisas... Tou tentando me manter longe, pro meu bem, pro bem da minha família. Tá difícil, tem dias que só quero esquecer dessa porcaria de vida e me enterrar na coca, sabe? Tenho dois filhos, crianças incríveis, inteligentes pra caramba! Bem melhores que esse pai destruído aqui. Mas são amáveis e incríveis... Tenho muito orgulho deles. Quando voltei da tour, só queria abraçar eles e dizer o quanto são importantes pra mim, mas aí a nóia bateu e tive que me entregar pra coca né? É inevitável. Quero muito sair dessa, não faz bem pra mim, não é nada bom dar esse exemplo pras crianças. Quero muito que eles sintam orgulho do velho deles.
 - Patético...
 - Oi?
 - Ele fala como se fosse o problema maior no quadro geral...
 - Costuma ser...
 - Com licença?
 - Quando a gente não tem muito apoio, acaba indo pro lado de querer ser exemplo pra alguém.
 - Ele é um velho fracassado, mal consegue segurar o sax direito...
 - Cê não é da aula de Literatura, é?
 - Oi?
 - Com a Irmã Grace?
 - A impossível Grace?
 - Essa mesmo!
 - Por que nunca te vi lá?
 - Eu costumo dormir no fundo. Atrás do Taylor, aquele armário?
 - Oh! Fico só na frente...
 - CDF.
 - Hey, não é minha culpa se tenho uma incrível percepção do mundo para me dar bem com as nuances do mundo.
 - Falando assim, CDF...
 - Que cê tá fazendo aqui?
 - O mesmo que teu pai.
 - E-ele não é meu... ahn...
 - Tudo bem, ter vergonha dos parentes faz parte da vida...
 - Qual teu nome, maluquinha?
 - Sarah Irina.
 - "A" Sarah Irina?
 - Eita porra... Todo mundo já me conhece é?
 - Com teu currículo absurdo na cidade, sim. Prazer em conhecê-la finalmente doida de pedra.
 - O prazer é todo meu, CDF Rutherford...

 - Pensei que tu tava de caso com meu marido.
 - Eu meteria um tiro de AK-47 no meu joelho novamente do que chegar perto dele dessa forma. Espero que entenda.
 - Hey!
 - Sem ofensas, cara! Mas você não faz meu tipo nem aqui nem lá no Afeganistão.
 - Karen, fica de boas... Ela é a soldado que te falei nas cartas? Salvou nosso traseiro lá na Alemanha.
 - Eu só fiz o meu trabalho bem feito, não é salvamento nenhum.
 - Vocês vão voltar pro quartel ou ficar aqui?
 - Calma, querida... É de verdade. A gente fica, eu fico.
 - Eu vou pro convento.
 - O quê?
 - Ela tá de sacanagem.
 - Não tou, me chamaram pra dar aula lá.
 - Você é professora?
 - Sou cellista. É a única coisa que consigo fazer direito na vida.
 - Toca cello?! Você é a "a" Sarah Irina?
 - Por que todo mundo vem com essa toda vez que falo meu nome...?
 - Tá famosa é soldado?
 - Me respeita que sou primeira-tenente, uma patente acima da tua.
 - Sim, madame!
 - Idiota.
 - Doida de pedra.
 - Okay, preciso entender o que tá acontecendo aqui? Você é a Sarah Irina? E você tava no mesmo comboio...?
 - Urrum.
 - Aquele comboio...?
 - Esse mesmo.
 - Karen, não fica assustada.
 - Oh Deus, oh Deus, oh Deus...
 - E teu idiota aqui me levou pro hospital de campo antes da coisa piorar. Não é tipo, meu herói, mas agradeço a minha vida à ele. Vai ter que conviver com isso.
 - Não, não, tudo bem, é só que...
 - Tá tudo bem pra você Karen? Quero dizer, a gente é chegado, sabe? Amizade entre soldados, sacas? Não quero...
 - Não é isso Francis... Ela tava na lista do obituário meses atrás. Eu quase morri do coração quando vi a lista no jornal e o teu nome não vinha. Aí você ligou que tava voltando pra casa e...
 - Peraê, eu tou no obituário?!
 - Cê tá morta, maluquinha! Hahahahahahaha!
 - Isso quer dizer que posso praticar crimes hediondos e sair de boas?
 - Começa uma quadrilha. Ou um grupo de mercenários. Tou dentro.
 - Você nada! Sossega que cê acabou de voltar pra mim!
 - Viu, ouve mais tua esposa. Faz bem.

 - Caramba.
 - Arram.
 - Pigarro ainda? Passa 10 anos e você não cuida dessa garganta?
 - Você continua a mesma insolente de sempre...
 - Alguma coisa tinha que continuar a mesma nisso, Madre...
 - Grace.
 - Oi?
 - Eu larguei o hábito, menina. Agora é só Grace...
 - Sua família tem um jeito estranho de dar nome pras mulheres... Grace, Gloria, Prudence...
 - Vem cá... Não tenho mais perna pra levantar daqui.
 - Beleza. É pra quê? Já aviso que tive experiência de enfermeira lá com os alemães e não foi feliz...
 - Abraço?
 - Oh. Okay? Estranho você pedindo abraço, já que...
 - Você fala demais... Minha sobrinha-neta tava certa...
 - Você tem um abraço forte.
 - Você tá tremendo.
 - Faz parte.
 - Vai dar aula?
 - Vou voltar pro quartel. Tem lugar pra mim aqui não.
 - Não seja tola. Há uma vaga só pra você lá.
 - Não quero encarar aquele povo. irmã Clarence ainda tá lá.
 - Nós todas sentimos orgulho de você.
 - Por que tenho essa impressão que...?

 - PRONDE MINHA CAIXA FOI???
 - Oh doida de pedra, nada de gritar com o telefone!
 - Tou só exclamando aqui... Peraê, peraê! Não, eu não botei endereço algum! Se acontecesse algo, era pra ir pro colégio católico de Morgan, não era endereçada pra ninguém! Véi, assim, todas as minhas coisas tão lá! Sim, eu sei! Foi um erro de registro dos marinheiros lá da Alemanha e acredite, eu já gritei lá também, ameacei um com um desentupidor de pia, em almão, mas olha, vocês não podem dar uma olhada no... não, não! Eu não vou apresentar atestado de coisa alguma, tou falando com você no telefone, tou viva. Só quero saber onde que raios vocês enfiaram a minha caixa? Oh vai pedir educação pra tua jurisdição, porque teu atendimento desde o começo dessa conversa foi péssimo... Ah sim, sim, respeito, oh cordialidade, seguinte: quem é teu superior?
 - É o Phelton...
 - Oh ótimo, Anto Phelton! Ele me deve 50 pila desde 2009... Escuta, camarada. faz um favor pra si mesmo e coloca o Sargento Phelton na linha? Ele vai ser mais adorável que você em tentar descobrir onde vocês chutaram a minha caixa...
 - Tá difícil?
 - O marinheiro desdenhou do meu título e disse que eu tava morta.
 - Mas você tá morta.
 - Isso é uma questão existencial? É segunda-feira ainda. Só me preparo pra isso a partir da quinta.
 - Foi naquele jogo de cartas?
 - Esse mesmo.
 - Você trapaceou.
 - E ele não precisa saber disso. E não foi trapaça quando usei matemática pra calcular as probabilidades.
 - Você não existe...
 - Decide: morta ou não existe. Tá dando nó... Oh oi Phelton, beleza? É a Irina. Sim, urrum, foi de boas, como tá a Alice? Caraca mermão! 2 de uma vez só? Eles tiveram gêmeos!
 - Gêmeos? Peraê! Antooooo, seu viado! Parabéns, véi!!!!
 - Devolve o telefone aqui, irlandês maluco... É, é o MacDougal, tá aqui. Tentando acertar o dardo no alvo, mas nem isso... Sério? Cara, isso é tão ótimo de saber... Arram, sim, sim!
 - Você tá fazendo aquela cara...
 - Qual cara?
 - Aquela de quando foi no colégio das freira e viu a CDF dando aula.
 - Cala a boca! Não, não você, Anto! É o chato do Francis aqui... Então, minha caixa... É, foi extraviada. Eu não morri, sacas? Tenho certeza disso!
 - Gloria...
 - Aí o povo do hospital lá disse que veio pra cá em setembro? Tem uma data de envio que não tá batendo com o registro lá em Houston, lá não tá, vasculhei o depósito e tals...
 - Sarah... Gloria?
 - Gloria in te domine... Tá rezando pra quê? Oh sim, tou aqui! Meu número? Peraê que... É...
 - Sarah, desliga o telefone.
 - O que foi?! Ele vai resolver o...
 - Aquela é a tua jaqueta da sorte né? E o rosário?
 - Mas que porra... é essa?
 - Anto, foi mal aê, parça. A gente já sabe o que aconteceu com a caixa da Sarah... Oh sim, beleza... E véi, felicidades com os gêmeos, muita força aí! Semper Fi!

 - Essa juventude tá perdida...
 - Falou a velha idosa da terceira idade anciã...
 - Que merda é essa que tá tocando? Esse lugar costumava ter música de qualidade!
 - Na verdade era música tosca dos anos 80. E que eu continuo amar mesmo assim.
 - Seu gosto musical é suspeito com Bonnie Tyler no repeat.
 - Como cê sabe que...?
 - Tenho ouvidos biônicos. E teus fones de ouvido são uma merda, vaza o som todo.
 - Carinho e atenção, a gente vê por aqui...
 - Como tá indo?
 - O de sempre. Voltei pro grupo. Bem engraçado, na verdade. Tem uns dois ali que era do grupo de antes? Agora o povo me olha diferente, sabe? Sorri e abraça, pergunta se tá tudo certo. Antes eu era a doida de pedra da Mercy, a avó carola mais louca do distrito... Agora...
 - É, mas isso chama atenção. Tu cresceu, sabe?
 - Como isso? Tenho o mesmo tamanho, uai...
 - Redneck, cê tem outro porte agora. Cara tá queimada com calor do deserto, os ombros mais pra trás, tu parou de ser a criatura soturna e desajeitada.
 - Nossa, você me descreveu como se me conhecesse mesmo antes.
 - Sou observador. Não virei policial à toa.
 - Que merda, hein? Tá gostando?
 - O salário é bom, o plano de saúde também. Ruim é saber que a qualquer momento algum delinquente pode meter bala nas minhas fuças sem motivo algum.
 - Oh eu sei como é... E então...?
 - Cê perdeu aquele olhar...
 - Qual olhar?
 - De sonsa. De sonhadora. De música.
 - Ah... Isso... Tou tentando recuperar... Whoa! Não a parte do... ahn... o que me fazia ficar alta. Não posso mais. Cargo não deixa, sabe?
 - Tu deve ter visto muita coisa fodida lá...
 - Não diferente de você com 2 furacões e um porco chauvinista como presidente.
 - Vamos nos foder bonito agora.
 - Cê mais ainda, policial. Não tem lugar na supremacia confederada branca pra ti...
 - Nem me lembra... Cerveja?
 - Nope, só no refrigerante. Hey, se você tiver leite com cookies, eu super agradeço!!
 - Cê tá num pub, percebeu?
 - É, mas você era tão gentil há 10 anos atrás que acho que se eu pedir com carinho, rola um clima... Pro cookies e tals...
 - É bom ter você de volta, Irina... Não vá fazer bagunça na jukebox. Restaurei ela depois que você foi!
 - Alguém tem que salvar esse antro e botar uma música que preste...
 - Isso aí é o que a gurizada tá ouvindo agora!
 - Cê é dono daqui e não tá honrando as calças verdes!!
 - Sarah, para de gritar...
 - Ninguém te chamou na conversa, ermitão! Porra, olha só isso? Cadê Flogging Molly? E Dubliners? Cara, você é uma vergonha para a preservação do nosso legado cultural! Nem Thin Lizzy! Thin Lizzy é canônico pra lembrarem que a gente existe nessa...
 - Ela sempre reclamava desse jeito...
 - Só quando tava muito alta. Mas acho que o problema agora não é isso.
 - Pelo menos tem David Bowie! Obrigada Senhor! Este homem não perdeu o caminho para os céus. Tá perdoado, Riggs. Tua jukebox tem Bowie, U2 e o enjoado do Sheeran.
 - É esse aí que a gurizada gosta de ouvir...
 - Essa juventude tá perdida...
 - Oh velha coroca do exército, vem cá pro balcão! A gente marcou de se conversar e você aí...
 - Ahn, Issac... Gloria.
 - Oh. Caramba. Tá, age naturalmente.
 - Fale isso pra si mesmo.
 - É só apertar o botão?! Não tem mais ficha? Cara, tecnologia é uma porcaria às vezes...
 - Com licença? Deixa que eu faço isso.
 - Ahn, okay?
 - Algo em especial?
 - O cara nem se deu o trabalho de colocar os canônicos... Vai qualquer coisa aí que não seja o que tava tocando antes.

 - Meus advogados estão cuidando do processo todo. Peço desculpas antecipadamente por não responder na hora...
 - Tudo bem... Você tem suas razões.
 - Administrar o colégio está sendo desafiador em tempos como esse...
 - Passo 10 anos fora e os rednecks me surpreendem com essa...
 - O partido não tem muita força aqui...
 - O comunista? Foi uma piada. E você entendeu, mas não quis rir.
 - Não acho engraçado zombar da instabilidade política atual.
 - Bem... Vocês votaram num cara que arruinou com metade do Oriente Médio por ganância, então...
 - Vai ficar aonde?
 - Tava na casa de um amigo. Amanhã tou indo pra Houston pra papelada...
 - Não poderia estender a estada para mais 1 semana?
 - Cê vai devolver tudo da minha caixa nesse meio tempo? E ela fica em silêncio constrangido. Hey, tá tudo bem, ok? Foi erro de registro lá na Alemanha, e essas coisas acontecem...
 - Oh sim, bem habitual...
 - Tirando o fato de eu aparecer em um obituário... Mas até que gostei! Dava pra continuar incógnita e fazer maldade, tipo... fraudar a previdência ou mentir a minha idade...
 - Quanta ambição...
 - Oh oi Srta. Rutherford. O habitual?
 - Sim por favor... Vai querer alguma coisa?
 - Já pedi antes, ele não tem. Aí veio com a jukebox com música ruim.
 - E o que seria que ele não tem?
 - Comida de criança.
 - Respeita o dever sagrado do conforto de um copo de leite e cookies, véi! E você não pode falar NADA se não tem Thin Lizzy na tua coleção de mp3! É uma vergonha nacional!