Pesquisando

sábado, 24 de junho de 2017

[bibliotequices] teoria e prática drástica

A gente faz uns paralelos na vida para poder ter uma noção do que deve fazer ou não enquanto se atua profissionalmente. Por exemplo: volta e meia questiono o que raios tou aprendendo nas aulas que vá de certa forma contribuir para 3 pilares da minha atuação:
  1. o que tou aprendendo vai ajudar a pessoa que atendo mais rápido, com eficácia e satisfação?
  2. o que tou aprendendo tá facilitando o meu trabalho para o item 1?
  3. o que tou aprendendo é RELEVANTE para aquela situação e não só uma sofisticação besta que será usada 1 vez só e pronto, acabou?
O que pesa mais aí: o que tou aprendendo vou conseguir repassar para outra pessoa - leiga ou não - em um futuro próximo para ela poder aplicar as mesmas teorias na prática?

Porque bibliotecário tem dessas coisas de guardar os pulos dos gatos para si, de não compartilhar informação uns com os outros porque acham que vão puxar o tapete deles (E vão, acreditem), ou sei lá, medo de se tornar obsoleto por inovar em alguma coisa e não ser significativo no final das contas (E acontece). Por isso a gente apela em buscar identidades e funcionalidades em outras áreas, porque a nossa essencialmente não é para se tornar especializada NELA MESMA (Parnasianismo Biblioteconomístico?), mas sim o integrar sempre as áreas em que estamos nos dispondo a trabalhar, atuar e auxiliar.

Então quando saio de um semestre que aprendi cerca de 5 ou 6 ferramentas vindas de áreas diferentes da minha (Administração principalmente), não estou negando a minha fidelidade aos preceitos de Ranganathan (Até porque o patrono da Biblio era matemático), estou aplicando um conhecimento fora da minha esfera para solucionar um problema da minha alçada. Não há vergonha nisso.

O trem começa a ficar confuso quando a gente se esquece do porquê tá fazendo aquilo. O motivo, o objetivo, o que se espera alcançar. vejo muito essas ferramentas serem aplicadas para processos de alguma coisa, e não para "no final é pra ajudar todo mundo e conseguir paz mundial". Aí que começa o parnasianismo biblioteconomístico, uma coisa que ~ahem~ certo outro curso¹ que sempre se infiltra em nossa área gosta de fazer ad nauseam.

Por isso não entendo o que raios eles fazem da vida.
Por isso pergunto sempre o que eles querem no nosso curso, porque não tá explícito.

É pra ganhar dinheiro?
É pra render mais capitalmente?
É para produzir mais e ter estrelinha bunitinha de órgãos de regulamentação científica?
É para ajudar em processos intrínsecos de nossa profissão, mas ao mesmo tempo fazendo ponte com teorias de outros cursos/áreas para melhorias dos meus processos?
Tudo bem, gente, não precisa ser a paz mundial, a democracia do conhecimento científico ou a vontade de mudar o mundo, pode ser dinheiro mesmo, pode ser status, pode ser o que vocês quiserem, só preciso entender o que raios fazem para ficarem num looping eterno no processo e não resolverem nada.

Debaixo do link, mais considerações.

E os bibliotecários e graduandos estão obviamente inseridos nessa forma de fazer suas atuações, o de só se importar com o processo e não com a finalidade. Aliás, o de não se importarem com o final, porque a neutralidade e passividade da profissão/curso não nos permite fazer um julgamento ético daquilo que deveríamos proporcionar para nossos "consumidores".

Pra quê que eu tou usando tal ferramenta de gestão em tal processo no meu local de trabalho? É pra ficar bunito na fita com a CIPA? É pra dar mais dinheiro pro patrão? É pra sei lá, ir pra congresso/simpósio/seminário e causar bafão awesome porque inovou em tal aplicação? Mas a aplicação teve finalidades concretas?

É isso que me incomoda principalmente no curso e na profissão: a gente tem trocentas formas de fazer algo relevante para a sociedade, preferimos manter a manutenção do sistema embromando com a burocracia para não realizar nada. Inércia.

Aí quando admito que a coisa mais emocionante que fiz durante um semestre todo foi realizar a tarefa de outra disciplina FORA do curso de Biblioteconomia, eu me sinto péssime em concordar que sim, beber de outras águas é mil vezes mais rentável do que ficar enfurnado em um currículo que pretende ser inter-multidisciplinar e não consegue nem sequer chegar no começo de ter relação entre as disciplinas em si. Nas medidas drásticas de avaliação imediata: se não consigo aplicar onde estou atuando/estagiando, não me serve pra vida de bibliotecário.

Bem rude e direto. Simples assim.

Porque o mercado de trabalho lá fora vai ser assim também. Não vai ter espaço para aplicação de ferramentas inovadoras em bibliotecas precárias, comandadas por políticas capengas, regurgitadas por discursos políticos de quinta categoria. E ter oportunidade de fala em uma empresa multinacional, com trocentas hierarquias associadas a meritocracia e quem tem o cacife maior também não é lugar para se aplicar essas coisas. O sistema funciona assim, infelizmente. A gente como bibliotecário faz diferença nesse circuito. o ter em mente que o que aprendemos na Universidade é uma ponte para trocentas outras coisas legais que podem ser alcançadas é o começo de uma linha boa de raciocínio lógico para aplicar no próprio curso.

Deve ser por isso também que pessoas que terminam o curso de biblioteconomia se refugiem em concursos públicos e estagnáveis. Porque esse otimismo que deveria ser levantado na graduação: "Oh fulane de tal, cê vai pegar esse canudo aqui, mas você é awesome, você sabe que lá fora é tenso, mas você teve 4 anos para entender que o mundo pode ser radicalmente transformado com a sua contribuição como construtor de cidadania." - isso não rola nos cursos. Poucos são os docentes que tratam a Biblioteconomia com essa perspectiva, poucos são os alunos que compreendem que quando estamos atuando em uma unidade de informação, a gente tá fazendo parte de um sistema que possivelmente iá mudar a vida de algum cidadão. A gente não tem essa dimensão da responsabilidade social.

É bem tenso.

E aí ao escrever um texto de 5 páginas sobre algo que realmente me empolga como pessoa e como bibliotecária, sinto que o curso tá deixando muito a desejar em questão de inspirar a sermos pessoas melhores e sim sermos profissionais competitivos. Não quero competir com ninguém, quero ajudar ao próximo, é muito difícil entender essa idealização de função? E sim, tem como ganhar dinheiro e garantir bem estar à todos com esse pensamento de ajudar ao próximo, é só não se convencer ali na primeira fase que bibliotecário é profissão obsoleta e que vai ser extinguida por conta de n razões.

Começar a se perguntar o que raios tá fazendo dentro de uma sala de aula é o começo para uma reflexão do que exatamente você quer para a sua vida daqui alguns anos. Porque para atrapalhar o fluxo natural de evolução de ideias tem um monte de camarada pra emperrar o processo (Oia o looping aí gente!). Não seja esse camarada. Você é bem mais capaz que isso ao cursar Biblioteconomia. Você é bem mais capaz que isso ao se colocar como cidadão pleno e pessoa humanitária.