Pesquisando

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

As mesmas razões


Há coisas que me pergunto volta e meia, como saber se o mesmo motivo de alguém entornar uma garrafa de vodka barata ao meio dia no meio da semana é o mesmo que sufocar todas as emoções em ser um autômato em uma sociedade que não vai te aceitar mais. 

O bêbado do Pequeno Príncipe sabia o que tava falando

Talvez seja pra comemorar, talvez seja pra esquecer , talvez pra se esquentar, mas era meia garrafa de vodka barata ao meio dia de uma segunda-feira. Então, moradores de rua, ou pessoas em situação de rua.


Sempre lembro dessa velhinha andarilha errante que apareceu no albergue do vilarejo-brejeiro um dia, ela com mais de 70 anos, eu só com 19 e a pergunta: "Por que saiu de casa?

Porque ela não aguentava mais viver encarcerada em casa, servindo de empregada pros filhos desempregados, foi viúva cedo, morava lá pra cima. Norte de Minas? Não, nordeste, norte de lá. Veio andando, porque gostava de andar. Explicação simples.

Me foi permitido apertar a mão ossuda dela, desejar boa estadia na casa de passagem, ela foi ver o terço na TV católica local. Eu voltei pra casa me perguntando o que fazia uma senhora daquela idade andar sozinha por tanto tempo sem parecer que sofrera tanto. Por que alguém faria isso?! Minha mãe deu a notícia que o as depois ela aceitara a passagem de volta pra casa. Ninguém viu se pegou mesmo o ônibus ou chegou lá mesmo. Uma página virada, outro número no estatístico. 

11 anos depois de sentar ao lado da velhinha pra almoçar no albergue onde minha mãe trabalhava, noto que eles se amontoam  ao redor de prédios públicos como Assembleia Legislativa, monumentos históricos. Por que alie não em outros lugares? 

(FYI já ouvi de um morador de rua lendário da cidade onde morava que engravatado sente culpa e dá dinheiro pro café. Ele particularmente só pedia pingado e um pãozinho mole pra comer debaixo da ponte onde morava e não queria sair de jeito algum)

Não há crianças de rua no trajeto onde passo com a concentração de sem teto. Há poucas mulheres. Na Praça XV eles passam o dia, a noite é nas marquises do prédio fodão da Previdência Social. Há pedintes nas escadarias da Catedral? No que consigo perceber, não. 

Mochilas abarrotadas de coisas e utensílios, vejo graduandos caminhando pelo campus, alguns moradores de rua declarados, outros fazendo couch surfing pra garantir um lugar seguro pra dormir. Muitos são de fora da capital, interior, passaram no vestibular com a ideia de que ir pra capital iria tudo ser mais tranquilo. O custo de vida é alto, a cobrança social é alta, a repressão policial é tensa, o olhar de asco do Outro é perfurante. Viver nas ruas porque não tem condições de se manter conforme a sociedade diz que é o mais adequado. Viver nas ruas porque não aguentava mais seguir conforme a sociedade diz que é o mais adequado. 

Talvez seja por isso que assistir um deles, os invisíveis, botando meia garrafa de vodka barata pra dentro em plena segunda-feira faça sentido nessa lógica de percepção.