Pesquisando

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Não parece, mas alguém aparece

Aquelas reminiscências de época de licenciatura sempre aparece.
Em uma conversa awesoooooome com a pessoa querida da Fran, resgatei algumas lembranças da época da graduação de Letras, os apertos que todo metido a docente vai passar algum dia e lembrei desse guri que foi uma experiência de alfabetização que deu errado - conforme o que a escola queria e a universidade dos Stormtroopers esperava em seus relatórios e estatísticas. 

O que eu devia fazer na época era ajudar alunos como ele - não regularmente alfabetizados em séries mais altas - a conseguirem no mínimo escrever o nome direito e saber o alfabeto. O carinha tinha 12 anos, tava parado na 2ª série (equivalente ao 3º ano agora, crianças entre a faixa de 8 a 9 anos), depois da bagunça estadual da reforma do ensino feita por certo governador almofadinha, agora senador com péssima reputação por conta de lava-jatos.

Crianças como ele ficavam retidas por um bom tempo até desistirem, haver um milagre docente, ou eram aprovados sem saber fazer uma conta direito pra desencargo de consciência do Estado. 

Era um bairro da periferia do vilarejo brejeiro, eu ia pra lá a pé na ida porque precisava chegar animada, motivada, ativada pra dar aula de reforço pra aquela gurizada ligada no 220v. Foram 8 meses nessa, eu, uma estagiária da biologia super zen, uma da matemática que passava um dobrado por não saber o que fazer e outro da psicologia pra fazer pesquisa de campo. Em geral a gente dava apoio aos professores das séries iniciais, dentro da sala de aula, eu preferia ficar com a galerinha que estava fora de sala de aula (aulas de educação física, horário alternativo pelo ensino integral) aprendendo com eles. E eles me ensinaram muito. 


O lugar onde eu morava tinha um problema sério de preconceito racial e social danado, uma coisa atrelava a outra, esses alunos retidos caíam justamente nessa categoria de minoria ferrada desde o nascimento, sem assistência básica, educação, saúde mínima, estrutura familiar comprometida. O preconceito era velado, pois um estado tradicionalmente católico não pode mostrar que lincha população LGBTQ+ ou negros, porque não pega bem, sabe? 

Eu devia ter uns 19 pra 20, o começo de uma depressão se criando por problemas de negação sobre minha identidade, aquela escola deveria ser a último lugar a ir estagiar sem queimar um fusível do cérebro. Mas bem, feijão não vinha de graça pra minha mesa, então bora lá. 

O feijão que eu conseguia ter todo dia em casa e sair correndo pro estágio 1h antes pra chegar na hora certa (sobe morro, desce morro,yaaaaaa), esse camarada não tinha. A primeira aula que o acompanhei no fundão, livro didático aberto, caderno fechado, lápis comido na ponta, foi essa conversa trocada quando ele não quis fazer os exercícios de matemática básica. Ele falou a mesma coisa que eu ouvia desde pequena na escola estadual onde estudei em 1994: não tinha comida em casa, a merenda da escola era o único lugar onde ele podia comer direito e regularmente. E isso desde sempre me irritava/assustava constantemente.

O recreio era às 15:15, poderia ser que da hora em que ele acordava até aquela hora era a primeira vez que ele tinha ingerido qualquer coisa. A escola depois implementou um lanche extra antes da entrada dos alunos (12:30) pra deixar a galera ligada, a segunda refeição melhorou o humor do carinha do fundão. A gente universitário já fica p*** sem café, esse guri passava fome todos os dias.

Ele não lia, não sabia escrever o nome, não reconhecia números, mas sabia pular corda melhor que todo mundo. Aliás fazia tanta estripulia no recreio que os professores avisavam que se ele quebrasse um osso ou pescoço, não iriam saber o que fazer. Ele sabia dar mortal nas voltas da corda, equilibrar o corpo em uma mão só. Pulava de lá pra cá que nem cabrito. Entrava na sala de aula, fechava a cara, não abria o caderno, mordia o lápis, falava palavrão quando os colegas enchiam o saco dele não saber fazer conta. Numa dessas no recreio, perguntei onde ele aprendeu os movimentos, foi na capoeira com o tio, mas não era pra falar pra ninguém, povo não gostava de capoeirista, tudo malaco, drogado, marginal, coisa de bandido. O acordo comum era entender que a habilidade dele mexer o corpo com tanta destreza era errado e perigoso. Era 2005, gente, não 1805.

A estagiária de biologia disse que o camaradinha fazia a mesma coisa nas aulas com ela. Mas mostrava pra ela como fazer estrela perfeita apenas com as pernas, sem as mãos. Eu achava fascinante. Mas pra escola eu devia era fazer ele ser fascinante na interpretação de texto. Guri nem sabia segurar o lápis comido direito. Fomos lá entender coordenação motora e arranjar uma caixa de giz de cera pra ele se habituar com o básico, de fazer a linha, as curvas em uma ponta mais grossa e depois voltar pro lápis. 

No recreio ele dava lição de moral nos moleques mais velhos (tinha 12) e sabia a letra de todas as cantigas de pular corda. Depois de uns 2 meses com ele todos os dias fui entendendo algumas coisas: família toda ferrada, comida pouca quando chegava em casa com os irmãos (em outra escola, porque certo governador também tinha mexido no número de vagas do ensino fundamental, logo os irmãos estudavam em outro bairro), muita briga, pouca vontade de estudar, muita vontade de comer merenda e ir pro recreio. Furava fila porque a tia da cantina botava mais no prato, mesmo sendo maior que a gurizada da turma dele (era uma sala de 8/9 anos). 

Quando conseguimos "desenhar" as letras do nome dele foi lá pra metade do estágio, eu não sabia o que fazer, pois inexperiente eu era, ele já conseguia sacar o porquê de se fazer adição, ganhou vaga na educação integral, aí comia café da manhã, merenda às 09:30, o almoço das 12:30 e merenda das 15:30 - tava mais disposto a abrir o caderno e seguir o que a fessora falava lá na frente. Perguntava sempre quando eu ia ser professora, respondia que era aluna que nem ele, só que na faculdade. Meu lugar não era lá na frente que nem a fessora dele.

Em uma das reuniões com as autoridades escolares, o nome dele rolou - era um dos alunos problema por dar vermelho na estatística pro MEC de alfabetizado com sucesso antes de chegar a 4ª série. Ele tava na 2ª, mas tudo bem né? Tem 2 anos pra enfiar 4 anos de conhecimento nonsense e formal pra ele engolir e não levar pra vida. Comentei o quanto ele tinha progredido com os esquemas de giz de cera e escrita articulada com o falar cada letra e depois juntando as sílabas pra chegar na palavra, era assim que a escola ensinava, quem era eu pra seguir fora do cronograma?
(eu nem sabia que podia ensinar ele de outra maneira, nem sabia das parada direito de alfabetizar alguém) 

Disse que tinha uma iniciativa no ginásio da cidade pra crianças e jovens da idade dele pra le parkour. Comentei depois no recreio que tinha marmanjo treinando no ginásio a dar pulos como ele e transformar aquilo em um esporte, um exercício físico, sei lá, qualquer coisa que validasse a expertise dele de controle corporal que definitivamente estava sendo desperdiçada ali na escola. Se ele foi ou não, não sei. Mas alguém ouviu. 

Numa das piruetas doidas ele chamou atenção de alguém, não sabia quem na época, mas quando saí daquela escola entre 2005/2006, o camarada já tinha sacado que era melhor prestar atenção nas aulas, não só pela educação dele, entender as lições e tals, mas porque a professora nova morava perto da casa dele. Ela sabia da dificuldade da vida dele. Creio que ele foi mais afetuoso por conhecer ela do que a regente de antes. Na certa aliviado por saber que podia se identificar com alguém. 

Em 2007 tive uma disciplina optativa que eram oficinas que professores tinham de projetos que já realizavam. Dessa fui pra Cultura hip hop, pois de certa forma, me identificava com o discurso ali em algumas manifestações, mesmo sendo branca de classe média baixa, bolsista de universidade particular tradicionalista, eu sabia que seria para entender o que os meus possíveis alunos iriam tagarelar nas aulas era essencial. De jeito nenhum que iria dar interpretação de texto com mais Alencar, Machadão ou aqueles pirados do Parnasianismo, letra de música me ensinara a falar e escrever inglês, então por que não? 

Tivemos contato com um grupo de hip hop articulado que resolveu participar da pesquisa da fessora, eu fui atrás, já com Internet banda larga no laboratório da universidade e saber mais. O que aprendi naquela oficina valeu por 3 anos e meio de curso, sendo que vivenciar de perto o cotidiano do grupo, e como eles organizavam as discussões na comunidade era incrível. Em um dos slides de fotos do grupo se apresentando em uma aula tímida no auditório tava lá, o gurizinho que deixava a supervisora com sérios problemas de controle de estresse. Ele tinha descoberto o grupo por meio de um professor de educação física (que era da quebrada e vinha da federal) e foi dar as piruetas dele no break dance, falaram bem dele, que fulano era o melhor no freestyle, que fulano se descambava do vilarejo brejeiro toda semana pra dançar lá na capital. Fulano tinha 14 anos agora e tava indo bem nos estudos, o professor de educação física não tava mais na escola dele, mas alguém ouviu, viu, agiu. 

Fui comentar pra fessora sobre o camarada ter feito parte do projeto de reforço escolar, mas que a gente não sabia o que acontecia com a criançada depois. Saber que o carinha encontrou um lugar pra se expressar foi bom, uma das poucas lembranças de dever cumprido ali na licenciatura. Pelo menos alguém ouviu, alguém viu, alguém agiu. 

Na Biblioteconomia agora vejo o quanto agir faz TODA DIFERENÇA na vida de alguém, no mínimo que for. Mesmo que os problemas que ocorreram comigo no particular nos anos entre 2005-2007 e não ter tido tato pra saber o que aconteceu com as crianças que eu passava quase 6h por dia foi uma falha de maturidade minha - poderia ter tirado mais lições dali, me preparado pras porradas da Biblio - acho que o menino da corda foi um ensino de alteridade pro resto de meus dias. 

De responsabilidade também. 

Depois desse estágio decidi não ir pra sala de aula, porque não era ali meu lugar de fala ou atuação. Era junto aos alunos, de preferência do lado, no balcão, nas estantes, no pesquisar de um assunto aleatório. E é sempre bom relembrar que minha licenciatura não foi desperdiçada e engolida pelo sistema de emburrecimento da educação formal.