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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

curativos instrumentais - claire delafontaine

2006 era o ano, final de semestre. 
Portman não suportava mais os ensaios semanais, as cordas constantemente trocadas, as variações de clima. Portman não cabia mais no meu corpo e meus dedos saíam acabados após estar horas ininterruptas nela. 

Whooooooa ppl, Portman era o meu primeiro violão, ganhei de aniversário em 2000 e que aos trancos e barrancos aguentou bem alguém totalmente descuidado e sem muitoooooo preparo para a rotina musical.

Portman na versão clean 2000 - 2004


Portman glitterinado e papel contact 2004 - 2006

Ele tinha um traste pequeno, por ser uma versão iniciante e talz, não tinha muito o que cobrar dela, coitada. Os agudos eram um problema, pois por ser violão para cordas de nylon, eu insistia colocar cordas de metal para a sonoridade ficar melhor. O corpo ajudava um bocado já que tinha um grave até de boas, o ruim mesmo foi descobrir que acústico não é o mesmo que colocar um "cristal" para suprir a falta de instalação para uma versão elétrica.

Aquele cristal era meu pesadelo secreto nos ensaios, sério. Ele fazia um barulho estridente nos agudos que eu me recusava a ouvir e por conta disso até hoje quando tou tocando faço o movimento involuntário de pressionar meus ouvidos para dentro para não ouvir o rangido. Era um rangido? Era, eu sentia às vezes ecoar no braço quando usava a braçadeira (Esse trem que prende as cordas em uma afinação diferente).

Aliás, essa effing braçadeira que salvou muitos dedos ferrados, já que Portman ficava em uma afinação de 1 tom abaixo (em D, G, C, F, A, D) pra braçadeira fazer o trabalho dela na 1ª casa e não a padrão (as cordas estão nessa afinação E A D G B e, é o que eles chamam de afinação em Sol Maior e é fofurice). Por quê?! Porque "amaciava" na hora de apertar as cordas, não era pra ser estiloso. Eu reclamando pra cacete aqui, mas passei umas boas com a chuchuzinha antes de aposentá-la. 

Aí veio a Claire.

Claire é meu violão folk.
Ela é canadense, Quebec, tem cerca de 20 anos e foi feita como edição especial para uma linha de violões folk para iniciantes e intermediários. O ano seguinte saiu de linha.

Consegui essas informações diretamente com a fabricante e com um bocado de recuperação de informação exercitada na outra amada magoada (a arte que casei desde 2013). O atendente deu uma lista bacana de materiais que a versão da Claire tinha sido fabricada e perguntou como eu havia conseguido ela aqui no Brasil. Fui rememorar né?

Debaixo do link algumas coisas que gosto de lembrar sobre os instrumentos musicais que já sofreram na minha mão.



Porque escrevi sobre o dia em que ela apareceu na minha vida de péssima violonista.

Claire de Lafontaine 2006 - ?

O ano era 2006, como disse, a necessidade de melhorar a sonoridade das melodias na banda estava alta, mas Claire, salvadora de ouvidos, dedos e mentes anuviadas foi ao meu encontro. 

Era começo de noite, após uma garimpada em diversas lojas musicais lá da capital de Mines of Generallys, com um orçamento bem baixo, mas exclusivo após anos tocando em shopping, pequenas apresentações, rifas, sacrificando bolsa-auxílio de estágio. Ela tava lá, quietinha num rack com outros japoneses, americanos, brasileiros.

O que me importava era:
1) ter graves acentuados;
2) traste baixo para não acabar mais com meus dedos esquerdos;
3) ser semielétrico;
4) secretamente queria soar como Damião Arroz, mas o dele é um violão tão detonado no tampo que eu não faria isso na Portman (BLASFÊMIA!!)

Minhas exigências eram bem estúpidas praquele tempo em que levava a diversão de tocar violão como o perigo de virar uma obrigação. Afinal, meu coração já estava dividido em manter a fachada e o de me dedicar mesmo a algo que poderia arruinar o meu percurso acadêmico - e nesse país que super valoriza a expressão artística dos cidadãos? Tava sonhando muito alto.

Claire estava no rack do lado do japonês que todo mundo acha que é o melhor. E realmente, técnicamente deve ser, mas não é a Claire. Canadense, feita de cedro, bojo mais aberto pros graves, cabe direitinho no meu corpo (sim, já dormi com ela muitas vezes) e o mais importante: toca a música do meu coração rude.

Foi nela que fui, testei por alguns minutos, senti o cheiro de madeira do tampo, chequei se havia bateria para aguentar os ensaios/apresentações, dei a notícia para os amigos de banda, o vendedor olhou meio torto because o japonês era o melhor e o americano do lado era mais barato que o japonês e também era ótimo. A Claire, canadense que cabia no meu colo e tinha o traste perfeito do tamanho do meu braço não tão versado, não não, a estrutura dela na parte de dentro não era boa, yadayadayada.

Mas o que fazer quando a gente se apaixona na primeira deslizar de dedos nas cordas?!

Fui lá, preenchi a garantia, agarrei ela bem firme ao meu corpo e voltei pra casa em uma viagem de quase duas horas fazendo planos internos e externos - já que a banda agora tinha um violão mazomeno profissional e que era musicalmente compatível com o que tocávamos - pop/rock celta com uma pontinha meio dark.

Ao chegar em casa eu chorei mesmo.
Foi a primeira vez que consegui tirar uma pestana sem machucar o indicador, de trocar de acorde sem atropelar outra nota, de soar mais parecido com a minha banda favorita em seu último álbum. O objeto inanimado feito de um ser vivo há anos atrás me deu ânimo pra continuar a melhorar no violão, me concentrar mais na cantoria, ter mais disciplina, ser salva-vidas em crises existenciais de algo que achava que não iria acontecer comigo.

Com a Claire eu me declarei e com ela é possível que eu vá ficar até perecer.

O nome foi por conta de um conto (?!) que escrevia - e perdido por aí nas interwebs, mas virou duas músicas - e uma das personagens se chama a Claire, de família francesa, delicada, nada gentil e extremamente disciplinada com sua conduta moral e social. Para questões de eu-lírico, e essa baboseira de arte musical, Claire era a Musa, se não Calíope disfarçada para me mandar a levar sua irmã Euterpe, a Música a sério e fazer por onde. 

Se expressar através da Música me salvou de muitas coisas, ter uma entidade mitológica entrando em seus sonhos quase todas as noites dando dicas de como tocar melhor e incentivos nada a ver também ajudaram a me sentir bem comigo mesme naquela época. 

Entendam, não presto pra muita coisa, a não ser escrever - e sem modéstia alguma, faço muito bem e reviro minhas entranhas até sair algo satisfatório - mas Música não é meu forte. O de se dedicar profundamente, de querer descobrir cada detalhe, o de pesquisar. Com Música sou espectador, voyeur curioso pela próxima surpresa. Sou mais ouvinte que produtor. Aliás essa noção de produção me faz estremecer nas bases, Música, tão sagrada quanto a Escrita, não me apetece como produto, como algo mastigável. 

Alguns anos difíceis vieram pra complicar o meu entender do mundo, poucas vezes toquei nela ou voltei a me dedicar mais de 2h por dia para tirar algo de ouvido, vejo a diferença que faz ao tentar o mesmo com a Perry, mas as notas, as posições, o dedilhar é tudo pensando em como repetir no violão mais lindo da galáxia.

E Essa é a Lola Perry, ukulele everything is normal!! - 2012 - ?

Com a Claire aprendi que fazer paródia pode ser um ótimo modo de trollar as pessoas sem elas perceberem. E quando indagada por uma pessoinha especial que passou em minha vida qual era a mágica que fazia pra poder tocar, respondi com muuuuuuuita vergonha que para mim não parecia mágica quando se tinha literalmente sangrado para aprender trocar os acordes, modular a voz pra combinar com o tom, ouvir muito muito antes de executar.

Minha mãe disse algo parecido na semana em que levei a Claire para o Luthier e isso deu o ânimo de sim, voltar a praticar alguma coisinha ali, pegar algumas partituras de preguiçoso (era como o incrível Paulinho - o único fessor de violão que tive na vida e foram só 2 aulas - dizia sobre tabladuras e cifras) e ir de ouvido. Gosto de tocar coisas de ouvido, parece algo meio hackear o cérebro para entrar na frequência dos instrumentos.

É que para tirar música de ouvido tem que pelo menos saber o som direito de algumas notas e a escala que elas costumam ficar (Escala de Lá maior coisa mais linda dos deuses, srsly!), aí botar os miolos e a paciência para funfar até soar parecido com aquilo que você ouve. E notas musicais, apesar de serem regidas pela inexorável Matemática, podem ser incrivelmente subjetivas.


É bom decorar o nome de tudo.

A Claire já me machucou uma vez - e espero que seja a última, pelamooooor! - quando fiz a besteira de afinar sem prestar atenção e puxar a corda de Si (A 2ª de baixo pra cima) muito e estourar na minha mão direita. E vocês não queiram ter cordas de violão tensionadas estourando em vossas mãozinhas, dói. Muito. Só não cortou porque do tempo para desprender dos engates e pegar nos dedos a corda vai molengando aos poucos. A partir desse momento nunca mais afinei sem estar de olho em tudo.

A surpresinha que recebi há 2 anos atrás ao voltar da aula foi uma Bete Balanço sentadinha em cima do case da Claire (Ele é confortável para buzanfas felinas) com uma carinha de anjinho inacreditável. Fui verificar, né? Porque ao sair o violão estava encostado no sofá, e não jogado no chão. Ao abrir o case lá estava a prova do crime, o traste havia descolado do braço e todas as cordas pulando uma atrás da outra antes que eu pudesse fazer alguma coisa.

No desespero catei a chave de fenda e saí desatarraxando tudo com aquela impressão de que iria perder a mão se fizesse algo brusco. Tava com medo do braço quebrar na base também, então fui lá com a braçadeira segurar o restante das cordas e forçar o traste deslocado a ficar no lugar. Demorou 2 anos para consertar, a falta de moneys e aqueles probleminhas ali em cima citados (Acho que tava com medo de voltar a tocar e não ter a Claire disponível trouxe mais insegurança), mas com um esforcinho em conjunto com mãe deu pra levar a mocinha no Zeca Luthier aqui de Flonóplix e dar um jeito nela de forma carinhosa.

Ultimamente estou apenas dedilhando umas coisas velhas nela e treinando um pouco do álbum novo do The Corrs, não com tanto afinco, maaaaaaas indo. O repertório costuma ser um bando de irlandês alma torturada, as classiconas do Patrono, umas da Anna Nalick (cismei com Catalyst) e Scalene eu passo longe (#powhaTomas que só faz música em tom ferrado pra gente tocar no violão?!). Quando há certa tensão no ar, me pego tocando aquela famosa música com letra nada suspeita.

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Andei postando alguns trechos de covers lá no Instagram, e como o tempo é limitado é no máximo 30 segundos. Não queiram ouvir a música toda.

Um daqueles sonhos malucos que tive (E voltei a ter) é de pegar ela e sair pra tocar em lugares abertos, sei lá, na praça do bairro, mas a timidez que me acomete quando estou tocando algo que gosto para alguém desconhecido é bem tensa. Demoro pra caramba para desencanar e deixar os medos de lado para tocar umas notinhas por aí, então enquanto isso não acontece - o de ser buskeer? Talvez quando for pra Irlanda? - fico aqui no reduto domiciliar, tocando apenas para espectadores felinos e vizinhos que não irão reclamar, porque tento ser bem bem bem discreta.