Pesquisando

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

quando a violência sempre esteve muito perto

Aquele textão que talvez sirva pra ilustrar bem o que outras pessoas possam estar sentindo nesse exato momento, mas que não consigo mais segurar em não escrever por diversas razões.

Não sei quanto a vocês, amigolhes da timeline, mas nunca fui uma pessoa de saber lidar com conflitos, seja qual fosse a natureza. Sou péssima em debates calorosos em que as emoções estão à tona, não me sinto confortável com pessoas discutindo, odeio ver bate-boca e minha reação para brigas com envolvimento físico é de correr na direção oposta. Não é por falta de tentativa em ser alguém corajoso ou de ter vontade de me impor, é que a violência sempre teve muito perto de acontecer quando você é uma pessoa que pertence a uma dita minoria.

Em algumas vezes a violência é tão intensa e rotineira que vira algo banal aos olhos de quem sofre.
(Já acontecia antes, não é? Agora começou de novo? Ah tá.)

Tem grupos que sofrem mais?
Sim, óbvio! E convivi com eles durante a infância e adolescência e ouvi histórias escabrosas de colegas de turma, vizinh@s, conhecid@s sobre como a violência irracional de um sistema desinteressado no bem estar dos seres humanos pode fazer, ou reforçar o aval pra fazer. Tipo um candidato a prefeitura, governador ou presidente.

Entendam, morei em cidade do interior de certo estado brasileiro em que existe essa instituição tenebrosa chamada "família tradicional mineira" e volta e meia ouvia relatos de gente que era espancado por ser diferente dos demais. Não precisava ir muito nos tabus de vilarejo roça não, torcer pro time adversário e demonstrar aquilo já rendia surras coletivas, ser de um bairro e pisar em outro sem um motivo aparente era pra hospitalização em estado grave, briga de trânsito que resultava em morte? Era notícia quase toda semana. Nessa roça onde vivi e cresci, como pessoa LGBTQI, a única coisa que me interessava (além dos estudos) mais era autopreservação, porque não podia dar bandeira, sacas?

A violência tava muito perto pra dar bandeira.

Se fulane de tal - pessoa suspeita ou demonstrava ser LGBTQI - não ia mais a escola porque a família tradicional mineira surrou a pessoa até não ter condições de completar o bimestre, parecia que estava tudo bem para a cidade. Isso era apavorante, pois ninguém fazia nada sobre, o pretexto do "família é família e família que educa" era algo comum.
(Nem irei tocar na questão de gênero e cor, pois agrava ainda mais com a quantidade de relatos de colegas de turma, jovens que dei aula durante estágios que sofriam de violência de algum tipo em seus bairros só pelo fato de serem de um gênero e de uma cor que não estivesse de acordo com o desejado padrão.)

Se pessoa recebia ofensas diárias pelo jeito que se vestia, ser repreendida por não ser feminina ou masculina demais, ouvir mais de uma vez que o problema era falta de certo órgão que dita o sistema patriarcal ou de surra pra aprender a ser gente, isso era normal de ouvir. Era normal, mas não quer dizer que não doía ouvir.

E se não tivesse apoio familiar? Putz, era o que mais pesava nas decisões, nos mínimos acertos da vida, no esperar se sentir bem quando entrava em casa, como um lugar sagrado e protegido de tudo que lá fora já tacava com força nas nossas costas. Era mais fácil esconder, mais prudente, comprar mais um tempo para "viver" um pouco mais. 

A violência na roça onde eu cresci estava muito perto, era só prestar atenção. E isso antes de completar meus 16 anos, tá? E em ambientes ditos educativos. Às vezes nas piadas e xingamentos entre colegas e amigolhes de sala, de alunos dos estágios, colegas de trabalho, às vezes de desconhecidos.

Se colega de turma comentava em uma voz apática que tinha sofrido estupro corretivo (mas pra gente, ainda novos pra entender o que era realmente isso e como destroçava a vida de alguém), porque a família não aceitava a pessoa sendo LGBTQI, era motivo pra eu literalmente me esconder de tudo e de todos. Eu fiz isso, às vezes me pego querendo fazer isso, o de não me atrever a sair de casa por motivo algum, de ter uma vontade insana de me apressar em tudo para chegar em casa o mais rápido possível e evitar contato com outras pessoas por não conseguir suportar ficar muito tempo entre outras pessoas.

Potenciais pessoas que podem sim recorrer a violência para legitimar suas vontades. E que estão mais aptas a fazer isso em tempos como agora.

A violência tava muito perto de mim naquela época e continuou a um ponto em que me sufocou de uma maneira muito ruim pra mim mesme. O armário em que me mantinha era blindado, com arame farpado e ai de quem se aproximasse! Chamaram uma vez isso de "placa de néon na testa com um imenso NÃO!".

Seria lógico que o psicológico ficou danificado com tanta pressão em caixinhas pra me manter viva até certo ponto, afinal nunca soube lidar com conflitos. Até hoje não sei.

Então quando chega a esse ponto de ter repeteco do vilarejo brejeiro entulhado de pessoas tóxicas, preconceituosas e com mínimo de caráter e civilidade, é natural que eu tenha um reflexo automático do que é viver com a violência muito perto, tão perto que não sei exatamente o que aconteceria se chegasse a me encostar.

Autopreservação é uma reação perigosa quando você se encontra em constante alerta, sem descanso, nutrindo um monstrinho de ansiedade e temor, e não hesitar em carregar uma chave de fenda no bolso pra se sentir não mais segura ou protegida, mas pra ter a chance de revidar se a violência finalmente quebrar aquela película que não é mais tão elástica como antes. Porque além da violência estar perto demais, ela está latente, pulsando como um tambor, só esperando se esticar demais pra arrebentar.

Porque ao vir pra cá, essa cidade que chamam de "LGBTQI friendly", achei que poderia finalmente respirar com menos dificuldade (Nem por diferença de altitude não, por pensar que aqui não precisaria mais me esconder de mim mesme), não precisar me policiar tanto no vestir, no falar, no expressar, isso tudo era vital lá na roça, era sobreviver com essa versão de politicamente e socialmente aceitável. Pensei que poderia constituir família aqui, ter alguém como companheira, andar de mãos dadas, não ter que ficar olhando pros lados ou constantemente pelos meus ombros e me certificar que a violência, aquela tão perto, chegaria de uma maneira abrupta e irracional. Cê acaba esquecendo dessas prioridades da vida quando tá muito perto da violência. Cê começa a funcionar no mesmo padrão de vigilância daquele que tem pretensão de te atacar.

Morar naquele lugar me ensinou que a desconfiança vem antes de tudo quando se bota o pé na rua, se está em lugares com muita gente, e é um fardo ter que reviver isso novamente, com mais intensidade - obrigade anos de experiência - de agora em diante. Porque não sei lidar com conflitos, igualmente não sei me defender, e esse sentimento de desamparo por não saber o que fazer quando acontecer é que tá me matando aos poucos como pessoa.

Porque sei da onde essa violência vem - já compreendi os mecanismos de imposição de ordem e progresso nessa sociedade - sei quem a perpetua, sei bem como ela é difundida, mas infelizmente eu não sei o que fazer com ela.

E não é só eu que está todos os dias, nessa rotina desperta de alerta 24 horas por dia. No trajeto do ônibus dá pra ver nos olhos de quem tá no mesmo balaio de ser alvo da violência espontânea, a gente é quieto, frenético, tá o tempo todo observando tudo, não tem paz na cabeça e sente o coração pesando cada vez mais. A gente não tá mais procurando aliados na multidão, tamos é vigiando a pessoa do lado pra a qualquer momento não ser alvo de algum tipo de agressão, física ou psicológica.



É uma pressão que acaba com muitos de nós, os que resistem são sobreviventes, mas que não são 100% imunes a todo esse turbilhão de agressões.

Na real, tou muito apavorade com esse cenário que está se manifestando.
Não é novas sofrermos correções instrumentalizadas pela desigualdade social, mas há cerca de alguns meses atrás pessoas que não se importam com as consequências de seus atos receberam aval de um picareta fascista-nazista de que não valemos muita coisa vivos. Que somos dispensáveis, inúteis, saco de pancada, corpo pra se corrigir. A falácia dele foi combustível para os piores sentimentos que os outros carregam dentro de si pra descontar no próximo, no anormal, no decadente, no desviado.

Peço pra quem estiver nessa camada de tensão assim como eu que se arme com aquilo que é mais puro no mundo: Amor. Parece piegas né? Mas procurar as redes de pessoas que se importam com você, que gostam de você é o mais importante agora. Manter por perto quem quer teu bem, procurar ajuda psicológica profissional se a coisa ficar muito muito ruim na cuca, é o mínimo que podemos tentar pra viver de forma mais digna nesse mundinho de hoje.