Pesquisando

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

[bibliotequices] saindo do armário e parando nas estantes

Saindo do armário (ou das estantes) e o que as bibliotecas escolares têm a ver com isso? 

Bem, por experiência própria e observando a movimentação nas bibliotecas em que frequentei, a tal da neutralidade tem suas vantagens. Pra uma quiança viada como eu transitar livremente na biblioteca escolar onde mais passei tempo foi aliviador. Primeiro que não havia ninguém pra apontar dedo e dizer pra ser feminina ou parar de ser tão masculina e blá-blá-blá, segundo que mesmo com a fessora readaptada sendo Testemunha de Jeová, ela havia sido minha professora de quarta série, o vínculo ali era bondoso pra ela colocar as crenças dela acima de tudo e não me condenar pro Inferno fictício deles.
(Isso era bem assustador pra mim, sabe? Mais do que Silent Hill.)

Para quem tava no armário, dava suporte e mantinha a seguridade do local, volta e meia alguém que era estigmatizado em sala de aula de alguma forma ia pra biblioteca pra se sentir menos intruso, excluído. Em Betim era muito perigoso ser diferente do padrãozinho rural, ser do vale colorido da Força podia causar muito estrago psicológico e também físico.

É mais ou menos isso que era pra ser mesmo, a biblioteca sempre foi meu refúgio quando era necessário e os livros meus colegas de produção literária, então por que não proporcionar isso para essa geração? 


O convívio como estagiárie em bibliotecas também me trouxe algumas ponderações, como adolescentes efervescentes e vindas confusas para se abrigarem da homo-trans-bifobia que o ambiente escolar pode proporcionar em nível supremo. 

Apesar de apenas ver um caso velado de transfobia entre estudantes em uma das bibliotecas onde estagiei - o de chamar nomes que a pessoa não gostava de ser mais tratada - a esmagadora intervenção vinda da minha pessoa era policiar o que a garotada xingava um ao outro com apelidos homofóbicos, é o mais comum e particularmente é o que me tira do sério com mais facilidade. 

Na hora era chamar fulano na cara dura, perguntar qual problema ele tinha com a palavra e que se fosse se dirigir assim com colega novamente deveria estar ciente que eu me importava e me identificava com o termo. Sim, às vezes botando os sapatos dos outros ajuda a dar tino nessa galera que xinga o outro de bicha, maricas, viado, e afins. 

Incrível que sempre crianças e adolescentes do gênero masculino.
Meninas poucas vezes precisei dar um "Opa, peraê e vamos conversar sério, chuchu." - o que é preocupante. A sociedade patriarcal tóxica já enfiando na cabeça dos meninos que ser xingado por algum termo que denote isso é pejorativo. 

Mudar ou virar o paradigma de cabeça pra baixo ajuda pacas.
Numa dessas de parar a conversa nada amigável entre garotos, uns xingando os outros, tive que sentar na roda e abrir o jogo: ali era a biblioteca, um local pra galera se sentir bem e seguro, não admitia que usassem o bicha, maricas, boiola como algo ruim, nem por brincadeira. Perguntei se alguém ali já se identificava com o gênero diferente do marcado nos documentos, se já haviam tido experiências homossexuais de relacionamento e plim, foi batata. Galera mudou o foco da conversa para isso, e de como nas aulas nenhum professor tratava disso, que fazia falta de saber das coisas básicas. 

Um rapazinho que era o encrenca da escola foi me perguntar no balcão depois se eu era sapatona, expliquei da forma mais simples possível que naquela biblioteca eu era estagiárie, logo estudante como ele. Ele entendeu, apertou minha mão, saiu. No terminal no mesmo dia, ele sorriu, disse boa tarde e foi pra casa. Yep, meu gaydar não funciona, mas eis ali alguém LGBTQI firmando quem é aliado ou não. Tem gente que entende sem a gente precisar usar uma estampa.

Sei que compartimentar traços de personalidade não faz bem, mas tem que entender que em ambiente escolar, onde há um tabu horrendo sobre o corpo, chegar a esse assunto é um custo. E é preciso abrir esse diálogo com sinceridade, neutralidade (a tal da neutralidade) e mente aberta. 

Sim, Cerberus também foi filhotinho...

O caso com as crianças separando livros de menino e de menina também me deu vontade de soltar uns cachorros imaginários (tipo um Cerberus) por sacar que quem fazia a binaridade prevalecer na sala era a professora. Foi de sentar no balcão e chorar depois. Resultado dessa experiência péssima? Olhos e ouvidos atentos pra próxima visita e dizer em alto e bom som que livro era livro e quem escolhia pra ler eram as pessoas, independente quem fossem. Falar das cinco leis de Rangs também ajudou, foi tocar em código de Ética com a tal educadora e pronto, amansou de uma forma que jamais irei entender.
(Carteirada com Código de Ética é um porre, sério gente... As pessoas precisam ser intimidadas com códigos e leis para lembrarem dos direitos dos outros? É isso?)

Tem os altos e baixos né? 

O único desentendimento feio que tive enquanto estagiava foi em um momento tenso de xingamento homofóbico que rolou entre crianças de 11 anos, o de parar tudo que tava fazendo no balcão, segurar bem o tom de voz, esperar a criança chegar (visivelmente transtornada por brigar verbalmente com outra criança até o ponto de xinga-lo de tudo quanto é nome) no balcão e informar que ele havia me xingado por tabela e que tratar as pessoas daquele jeito não era nada legal. Que não precisava falar isso ali, pra ser babaca lá fora (é, quebra de protocolo ao usar o adjetivo babaca fez muitas orelhas levantarem pra minha direção), mas que ali na biblioteca não queria ninguém tratando mal pessoas que a criança nem conhecia como vivia. E briga dentro da biblioteca era ultimato pra me tirar do sério. 
(Odeio confrontos, cês não fazem ideia o que sou capaz de fazer pra evitar discussões verbais e físicas.) 

O pequeno projeto de futuro do país mandou o coleguinha ir praquele lugar, me olhou atravessado e foi falar alto, até aquele ponto a coordenação havia sido chamada, logo não gastei mais saliva. Tem hora que não dá mais pra se argumentar. Depois fui responder na direção, claro, mas como a equipe sabia bem que meu profissionalismo vinha antes de tudo mais, pediu pra que quando acontecesse coisas assim, era chamar a coordenação direto.
(Lição aprendida: nunca chame usuários de babaca. Escolha uma palavra difícil pra eles não entenderem na hora. Obtuso, reacionário, bolsominion, essas coisas.)

Fonte: Tumblr da Escondido Public Library

biblioteca pública de Escondido nos estaites - uma das mais criativas que acompanho e de um level de responsabilidade social que dá gosto de ver - faz campanhas bacanas a cada mês para o que os yankees chamam de safe place, com bate papo, troca de experiências e algum tipo de atividade que possa ser deixado na biblioteca como cartilhas de ajuda a outros convidados, mensagens de apoio e troca de serviços e até ajuda comunitária para quem está em situação de risco. 

Vejo que é uma pequena parcela que uma biblioteca estruturada pode fazer em menor escala. No caso de bibliotecas escolares essa demanda quase pula no balcão por motivos óbvios, essa garotada não tem pra onde correr e a escola pode sim acolher de maneira solidária. Adotar esse modelo de aproximação pode ser uma boa também quando se está em um cenário nada feliz e convidativo para mostrar suas cores.

Mas a gente das bibliotecas temos obrigação de manter essa garotada segura das burrices lá dos adultos do mundão afora. Melhor começar agora do que deixar LGBTQIfobia nos matar.