Pesquisando

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

[interlúdio] e é por isso que não se pode ter coisas legais

E é por isso que não se pode ter coisas legais.

Tenso pensar assim né?
Que em um momento bem finito a gente tem certeza que agora sim, agoooora sim tá na hora de ser feliz, mas tem algo dentro do mecanismo bizarro chamado cérebro que pisca uma luz vermelha e dispara um alarme sonoro tão alto que dá pra ouvir por todo corpo e se dissolve antes de ser expurgado por algum orifício do corpo.

Fica ali, grudado entre os órgãos, só esperando o próximo alarme e se junta a nova massa de ansiedade pungente.

Explicar o que acontece na cabeça de quem tem depressão é como detalhar cada grãozinho de areia existente no cosmos. É impossível. Os sintomas são parecidos, mas como a coisa se aloja nas entranhas? Dificilmente.

Às vezes essa sensação de que tudo vai dar certo e que a invencibilidade pode ser uma opção bem legal de se seguir na vida (eita autoestima nas alturas!), mas quando tem uma dose de fatalismo/realismo na ficha de personagem - e somos todos máscaras a se trocar a cada ato desse teatro universal da vida - e um gosto peculiar por analisar fisiologicamente o que se está sentindo, se chega a esse ponto. 

Debaixo do link algo estranho que se escreve durante a madrugada. "Se escreve" mesmo, porque ao acordar não lembro de metade do que estava escrito e como chegou a isso tudo.

Estar em repouso no sossego de seu lugar de conforto, meio da madrugada, ouvindo todo o mecanismo ali à funcionar. 

Alguém já fez isso? 
Alguém se atreve a fazer isso? 
Será que é saudável ter tanto conhecimento ou noção de como seu corpo está funcionando, no meio da noite, no silêncio do quarto escuro, em um momento de puro autodescobrimento por acidente? 

É seguro ouvir o fluxo de sangue passar pelos ouvidos em palpitações regulares para algo acelerado ao se perceber que sim, há vida correndo naquelas veias e sim, de manhã a máquina vai ter que despertar para mais outro dia cansado?!

É são (de sanidade) ter o ruído da respiração que é expandida nos pulmões que sinceramente estão funcionando bem, mas não suprindo o cérebro com oxigênio direito? Será que o problema afinal é saber respirar direito pra não pirar/piorar? 

Fazer exercícios, dieta balanceada, visitar um especialista, tomar certas drogas, ser correto? 

Como é que é ter certeza que esse não é o normal (já que vivi tanto tempo assim, mais do que lembro de viver o padrão normal que vivem especulando) e o que é canônico está em uma convenção ou frequência diferente do normal? Será que alguém presta atenção mesmo quando a epiderme sente os arredores nos mínimos detalhes? Será que alguém se interessa em refletir sobre isso no meio da madrugada? Será que alguém quer passar por isso ou estar com alguém que passa isso? 

Será que alguém entenderia, deitado ao meu lado, dividindo a mesma cama, puxando as cobertas por alguma razão, que essa sensação de impregnação de algo que não pertence a esse corpo contido aqui não deveria estar ali? 

Será que mereço isso que estou passando? Por 19 anos em intervalos desiguais de aparição, em 7 anos consecutivos, em intervalos agora curtos por não poder mais filtrar nada de tudo que já passei? Que mecanismos de enfrentamento não funcionam mais como antes? Que negligenciar por tanto tempo só piorou a quantidade de detalhes no quadro, o concerto incessante? Será que é possível piorar mais do que já está? 

(Yep) 

Será que mereço pelo que fiz ou deixei de fazer? Será que mais alguém passa por isso, na mesma intensidade, ou mesma frequência, ou mesma imersão como eu? Será que é saudável querer dividir com alguém isso? 

De acordar a pessoa no meio da noite e informar: tá acontecendo de novo, o de sentir o sangue correndo pelos ouvidos, as palpitações irem de calmas pra aceleradas, os pulmões não saberem fixar um ritmo pra oxigenar direito o restante. Que a cabeça para de filtrar as sensações de fora e se estagna em um loop eterno de "deuruimdeuruimdeuruimvaificarpiortapiorandonaovaimelhorarnuncanaovaimelhorarnaovai".

A culpa é minha afinal? 
Se não consigo controlar esse espetáculo fadado ao fracasso dentro de mim e deixar transparecer aí fora, nas horas de vigília (alerta, sempre alerta, luz vermelha, aviso sonoro sufocado pelos fones no último volume) que tem alguma coisa muito muito muito quebrada aqui dentro que não tá dando pra consertar a tempo. Será que a culpa é minha mesmo? 

Será que mereço dividir isso com alguém, no meio da noite, entre as cobertas, travesseiro amassado contra a barriga, dedos fechados segurando o tecido, mandíbula cerrada com tanta força e os olhos, os olhos abertos no escuro, porque de alguma forma não se enxerga um palmo na frente, mas se vê uma imensa pintura renascentista de muitos detalhes absurdos se encaixando, como um... 

Sim, é como ter um deslumbre dos círculos do Inferno de Dante em alta resolução, nitidez, e detalhes. E por tudo que é sagrado nessa hora maldita da madrugada: o som é terrivelmente alto. 

Como uma cacofonia incessante de sons, ruídos, barulhos, gritos e sussurros, tudo se aproximando e afastando em repetições que não vão embora. Chegam como vieram, rasteiros, embolados, forçados dentro de um espaço mínimo de convivência. Uma jaula. 

Todos os erros, os não feitos, as dúvidas, as mágoas, os rancores, todos os pequenos demônios e gênios ilustrados em incrível fidelidade nessa pintura de escala inacreditável. Todos presos em uma jaula dentro de um cérebro que não sente dor ou faz barulho. Os pensamentos sim.
"E é por isso que não podemos ter coisas legais." 
Até essa barulheira cessar. 
Até essa pintura grotesca de erros passados e medos futuros não desbotarem da tela. 
Até a Razão triunfar sob toda essa bagunça fenomenal. 

Mais outra noite mal dormida, sobrevivendo a mais outro dia.
Um dia de cada vez. Um passo atrás do outro. 
E é por isso que não posso ter coisas boas. 
Ainda. 

(Algum dia essa barulheira infernal para. Foi o que me disseram. Mas não me disseram como.)