Pesquisando

prest'enção nesse trem aqui! [clica cá]

mudanças do eu-lírico/bibliotequices

Entonces... Resolvi dar uma repaginada nos esquemas do Bibliotequices - uma sessão que eu mantinha aqui desde outubro de 2015 - para or...

quarta-feira, 20 de março de 2019

eu julgo professores silenciosamente

[Essa postagem não serve pro Bibliotequices, mas tem a ver com a graduação]

Eu julgo pessoas silenciosamente.
E tenho uma predileção absurda por pessoas que decidem ser docentes - por acidente, por amor ou por obrigação. Queria muito me livrar dessa intensa opinião forçada goela abaixo por minha educação exemplar na universidade dos stormtroopers, mas infelizmente acontece.

Então.
Eu sei.
Não adianta fingir que não aconteceu.
Eu sei.
Já passei por todos os estágios de pânico, desdém, infelicidade, euforia, enfrentamento, conflito,  o que pode se intitular como enfarto pedagógico quando se trata de docência.
Eu sei.

E sinceramente gostaria de desaprender essa powha, porque não me ajuda em nada quando estou como estudante e subitamente observo a didática de professores. 
E quando elas funcionam.
Ou não.
Usualmente capto quando elas NÃO funcionam e aí reside o problema ético da minha 2ª graduação: falo na cara dura que a pessoa deveria estar pescando, jogando xadrez ou sendo feliz FORA da sala de aula ou fico em silêncio julgando silenciosamente?

Última opção forçada na disciplina.
Parece menos desastrosa.

A figura do docente em uma sala de aula nos parece absoluta quando estamos nos percalços da vida escolar, a palavra do professor é sempre a mais alta em hierarquias que não entendemos ou não querem que entendamos, e sim, há toda uma maquiagem linda cultural que da porta pra dentro a sala é do docente.
Supostamente.
Tou aqui verificando o senso comum, gente.
Estudante passivo tem a obrigação de escutar e assimilar. 
Esse é o senso comum. 
Aí você passa 3 anos e meio em uma licenciatura que te desconstruiu tudo, destruiu conceitos e te fez questionar até a escolha de verbo que docente usa no modo preferencial.

Acontece.
Eu sei.
As marcas linguísticas dizem muito sobre um docente.

Eu era a pessoa que dava aulas de alfabetização pra turmas lotadas de jeans surrado, tênis sujo de lama, camiseta meio amassada e um cotovelo ralado ou cabelos desgrenhados, porque eu fazia questão de passar o recreio com a criançada no pátio pulando corda e fazendo meu trabalho de educadora.
Dali dava pra tirar "n" motivos do porquê criança problema nº 1 era atrasado em saber identificar as letras (ela só se alimentava direito na escola), porque criança introvertida nº 2 tinha explosões de humor quando pressionada (problemas de visão não identificadas pela família), porque criança nº 3 gritava dentro da sala de aula e causava transtorno por brincadeira (porque em casa era maltratada de diversas formas).

Vida de professores não é fácil.
A muralha tá ali pra construir e não ver, mas quando ainda conserva um pouco da infância em você, não tem como virar a cara pra esses silêncios ou esses gritos. Aí vamos para a faculdade, onde supostamente deveríamos ser a nata da sociedade civilizada e um bando de babacas elitistas. Privilegiados do baralho. Gente mesquinha e sem emoções. Somos mais um número. Mais um currículo lattes. Mais uma cabeça vazia pra preencher com teoria falha. Mais outro com canudo que não vai fazer diferença no mercado de trabalho sujo e cruel da vida real.

O que enxergava naquelas crianças, adolescentes e adultos (EJA) vejo nesses seres quase superiores por terem uma cadeira na carteira e na frente do quadro no ensino superior.

Eu sei.
Acontece.
Eu sei quando docente não preparou aula direito.
E sei identificar que isso ocorreu por falta de organização, falta de tempo, irresponsabilidade, por não achar necessário, por achar que somos gado, por achar que somos importantes demais para passar 2 horas aprendendo algo técnico se não tem a prática envolvida em nosso modo de operar o sistema.
Eu sei quando se importam.
Quando não dão a mínima.
Quando só estão passando o tempo.
Também sei quando docente tá ali pra preencher tempo, currículo lattes, estrelinha no Scopus e pouco se lixando em o que vai acontecer com estudantes.
Quando só estão contando os dias pra aposentadoria, pras férias, pra viagem paga pra pós-graduação.
Eu sei quando docente está ali porque se importa de perder a noite maquinando atividades, planos de ensino, avaliações apropriadas, plano A, B, C, que escaneia a turma e vê as pequenas dificuldades de aprendizagem e tenta equilibrar a balança de erros com a de acertos em um piscar de olhos.
A metodologia pode ser uma armadilha quando se trata de humanos.

Somos todos humanos afinal.
Em suas particularidades.
Até na docência.

Mas eu julgo docentes silenciosamente sem querer e isso causa desconforto, pra mim, pra eles quando informo que faço isso sem querer, que infelizmente a disciplina forçada dentro do sistema educativo de uma graduação anterior abriu meus olhos pra exatamente isso e apenas isso.
(Não ligo se tem ideias hegemônicas absurdas ou se há um complexo de superioridade ou megalomania, se a didática é péssima e transpareceu que tá só ali por ser pau mandado, não vou ir com sua cara. Porque eu sei.)

Eu sei quando você tá fazendo um péssimo trabalho.
Quando tá se esforçando pra fazer algo relevante e falhando miseravelmente.
Quando tá se esgoelando para passar o conteúdo e abrir os horizontes daquela turma promissora e só encontrar silêncio.
Eu compactuo com ele, porque afinal: heteronomia, pensamento de rebanho. 
Eu não irei dizer em alto e bom som que meus colegas de sala estão desperdiçando a oportunidade única de aprender e refletir com tudo que você docente quer, deseja dizer e dialogar.
Porque nesse momento eu sou estudante como todo mundo aqui.
Você, docente, na cadeia alimentar, você é o tubarão que devora peixinhos como eu.
Então mantenho minha distância.
Meu silêncio.
Minha indiferença ignorante.
Às vezes a aspereza sutil de não prestar atenção no que você fala. 
Não é desafiando autoridade do professor, é porque não sou você, não sou docente.

Já tentei ser.
Já fui.
Já vi que meu lugar não é nesse pedestal péssimo sócio-histórico que colocaram quando você ganhou o título de "professor" (de fessor, de tia, etc).
E por não ser meu lugar de fala - o seu que é mais valorizado que o meu em uma sala de aula do ensino superior, e aumenta a cada titulação que conquista (É, eu sei, isso pesa também, não é?) - irei te julgar silenciosamente.

Não queria, mas julgo.
Não importa se são poucos ou longos anos na área e de experiência.
Há ideais a serem atingidos.
Ideais de ser professor "chique no último" na ótica dos estudantes, mas não consigo te enxergar como estudante - aqui na carteira, você aí na frente da sala - infelizmente a chave de ignição da disciplina forçada da licenciatura vai alertar o andar pedagógico do que está acontecendo.
Brinco que tenho um caderninho de anotações com todas as didáticas que já presenciei nesses longos 19 anos na área da Educação, como estudante de licenciatura, como quase professor, como educador, como estagiário, como espectador desta profissão tão maltratada.
O caderninho deve existir (São muitas anotações!).
Eu sei, você também deve ter um em suas particularidades.
E graças ao discernimento de ter uma licenciatura que me obrigou a questionar cada aspecto de ser docente, desde a formação, a preparação, a avaliação, a ação, a reação, isso grudou em mim como algo pegajoso que não se dissolve mesmo quando quero apenas voltar a ser aquele estudante de 17 anos inocente, bobão, saindo do ensino médio e tendo a impressão de que é você que tem noção de comando dessa powha toda.
Eu quero muito acreditar que você comanda isso tudo. 
Que o "controle da situação" está nas suas mãos.

Eu sei.
Acontece.
Eu sei quando não está.
Quando esse controle realmente não existe, mas você finge que tá lá (estudante nem precisa saber disso, controle de sala? Que controle? Todo mundo aqui é livre para se expressar!). Afinal, fomos ensinados a fazer isso ostensivamente no tal do "domínio de sala-de-aula". 
Eu sei. 

Fui covarde o suficiente para lidar com isso da simples maneira que me servia na hora: deixar a hierarquia de lado, não ficar em pé lá na frente do quadro de giz (sou desse tempo), sentar junto aos estudantes, compartilhar conhecimentos ao invés de repassar informação. Não sirvo pra ficar lá na frente. Meu serviço é entre eles.

Ali aprendi com os estudantes - as crianças em fase de alfabetização sem apoio social de avançar mais que alguns anos em um ensino lixo, os adolescentes resmungões na fase mais conflituosa de um ser humano em produção e sem perspectiva alguma de uma vida adulta saudável e feliz, com os adultos cansados e infelizes com seu passado e pensando seriamente se vale a pena voltar a estudar para melhorar algo - que parte do esforço de estarem ali é sim deles mesmos, que a força pra continuar a ser educado adequadamente, ser cidadão, tem que vir deles.

Mas aí eu sei também que professor faz diferença na vida de um cidadão.
O que uma fala certa ou errada de docente pode causar na vida de uma única pessoa.
O inspirar, o maltratar.
O revelar, o anular.
O empoderar, o invisibilizar.
Eu sei do peso da responsabilidade (que não é e nunca foi de vocês, minha, ou de qualquer outro professor! Quem deu esse trambolho pra carregar?!) que é conferido a alguém que carrega o título de "professor".

Preparando aula ou não.
Amando o que tá fazendo ou não.
Dando dignidade ao seu trabalho ou não.
Eu sei.
Eu tava lá na frente também.
Até perceber que tem coisas nessa vida que precisam ser questionadas e reinstaladas para que a gente viva feliz.
A minha felicidade não residiu estar lá na frente.
A sua parece que sim, ou não.
Pelo menos é isso que percebo quando estou julgando silenciosamente sua aula.

Eu sei quando você está sendo brilhante.
Quando você está em uma empolgação na fala e nas ações e tendo aquele momento em que apelidei como "brilhinhu nuzoio" - porque é isso que acontece quando desvio os olhos de você (e não deveria, você me inspira a ser um ser humano melhor com os outros, mesmo quando não quero ser) e observo meus colegas estudantes.
Esse bando de babacas, massa amorfa, não pensante.
Eles estão acostumados a serem nada a vida inteira nessas salas de aula, mais outro número. Mais um dígito no teu salário.
E você, ali naquele momento único, faz a diferença.
Com aquele peso da responsabilidade mais leve de carregar.
Com ou sem didática teórica.
Com ou sem avaliação processual.
Com ou sem burocracias institucionais para se cumprir.
Com ou sem ideia do que tá fazendo.

Eu sei bem quando você não faz a mínima ideia do que tá fazendo e hey! Tá funcionando! A aula corre com tanta naturalidade e ótimos feedbacks, e aquela sensação prazerosa de "Yep, era pra isso mesmo que resolvi me enfiar nesse meio de dar aula", de sorrir abobado pra si mesmo e saber que pelo menos um dia valeu a pena todos os dias de silêncio, de cara de paisagem, de desinteresse, de forçada disciplina que você agora está pensando se não é exatamente isso que chamam de docência.

Eu julgo silenciosamente, porque não sei se seus dias estão mais tensos que esses pequenos deslumbres de que realmente a vida tá dando certo (obrigada por estar aqui, aliás, sendo bom ou ruim, obrigada, o caderninho, lembra?).
Eu julgo, porque aprendi na docência que às vezes voltar a ser estudante é o passo mais acertado que fazemos para que a nossa missão seja cumprida.
Eu sei também quando você não tem missão alguma.
Eu sei principalmente quando você acha que ninguém acha que percebe que a sua missão não é ali, perdendo seu tempo em sala de aula.

Para isso temos opções, pessoinhas.
Vai pescar.
Vai abrir um boteco.
Vai encontrar alguma entidade divina e professar a Palavra dela.
Vai ser feliz.
Mas não faça outros infelizes.
Amai o próximo assim como a ti mesmo.
Para de se torturar em um lugar que não te traz prazer em viver.
Encontrou a felicidade aqui na docência?
Ótimo!! Meus bons pensamentos serão seus para sempre.
Vai
Ser
Feliz 

Enquanto isso, te julgo silenciosamente.
Do fundo da sala.
Observando cada impressão breve.
Cada reconhecimento em você o que já tentei ser.
(e aviso novamente: não tive estômago como você para sobreviver nesse meio. Segui o meu conselho ali acima, não fui pescar, nem encontrei alguma nova divindade, escolhi ser feliz, escolhi viver, escolhi não fazer os outros miseráveis)

Eu sei.
Acontece.
E para aqueles que já me atrevi a dizer abertamente que sim, eu te julgo criticamente toda vez que está dando aula, é porque você mudou a minha trajetória acadêmica e profissional em algum ponto.
Em algum ponto que não encontrei como docente, como professor, como a "tia".

Mas como bibliotecária.

Você me forma na mesma proporção que se forma como docente.
Posso até dizer que os mesmos passos desajeitados que você dá nos corredores antes e depois de cada aula, esses passos também podem ser meus algum dia. E eu os respeito, assim como tento fazer vista grossa e não vê-los.

O peso da responsabilidade pode ou não ser fácil de você carregar.
Eu sei.
Acontece.
Eu vejo o peso ali sem você perceber.
O caderninho de anotações existe.
Ele está sempre rabiscado.
Eu julgo professores silenciosamente e de forma crítica/analítica (existe até check-list de análise, daria um bom TCC).
Eu não deveria fazer isso, afinal, não sou mais um de vocês.

Mas faço.
Eu sei.
Acontece.
Vai ser feliz.
Se ser feliz é dando aula, obrigada por continuar aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário