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domingo, 17 de junho de 2018

[bibliotequices] reflexivando docência indocente

Esse texto vai ser rememoramento de 2 situações acadêmicas que passei nessa vida de escriba.
Uma foi cerca de 10 anos atrás, auxiliando colaborativamente docente a terminar o doutorado e ganhando muito conhecimento sobre ensino da língua e elaboração textual, a segunda é agora em que nem consigo expressar o quanto invadida estou me sentindo pela falta de tato ética de outro docente ao fazer isso, principalmente com um assunto delicado como a minha identificação de gênero.

Lembro vivamente de participar ativamente (?!) da vida acadêmica de professores enquanto estava na Letras. Afinal, o que eles aprendiam lá na Federal serviam muito para as práticas de ensino e aprendizagem que a gente algum dia teria que botar as mãozinhas ao ir pra sala de aula.

Lembro de ter aulas mais focadas no indivíduo e na cidadania dessas pessoas que iríamos nos responsabilizar, fosse alfabetização, mediação de conhecimento ou a profissionalização de um estudante. Isso fazia com que, mesmo sendo teorias de dissertações ou teses que esses professores estavam trabalhando ainda e aprimorando com as nossas percepções de Educação, Ensino e Mundo, essas aulas fossem tão aproveitáveis e inesquecíveis para quem levou à sério pro resto da graduação.

Lembro particularmente de uma docente, que quase pirando na soda por conta da complexidade do seu tema, decidiu fazer um teste conosco sobre como montávamos mentalmente a escrita de nossos textos. Ela passou um bom tempo nos explicando como aquilo poderia nos ajudar com nossos futuros alunos, principalmente para aqueles que tinham bloqueio de escrita ou não conseguiam se expressar bem em redações. Lembro dela sentar conosco e explicar como funcionava os passos de conselho de ética em estudos com seres humanos. Foi a primeira vez que ouvi a palavra Ética relacionada com práticas de aulas universitárias. Então tudo aquilo que estávamos fazendo na aula havia sido aprovado por um comitê primeiro e ela estava pedindo a permissão da turma se a gente gostaria de participar anonimamente do estudo da coisa complicada que ela tava estudando.

O pessoal ficou animado, entendemos o lado dela quanto ao nos usar como cobaia para isso e também conseguimos aproveitar ao máximo o conhecimento que ela tinha para nos ajudar nas práticas de ensino e também em outros assuntos acadêmicos. 

Tudo estava entrelaçado, tipo parceria mesmo. 
Uma mão lavando a outra e consentimento sendo tratado com respeito. 

O teste dela foi bacana, porque nós estudantes nos sentimos úteis para o que ela iria produzir posteriormente (O doutorado dela) e por incorporarmos em nossa prática de ensino alguns métodos bacanas que ela trabalhava conosco. Particularmente isso me ajudou tanto, mas tanto com a construção de textos e entender como um texto opera para ser entendido por outra pessoa que fui pra monitoria de produção textual para poder compreender melhor o que fazer e como poder ajudar quem precisava. 

O que ela ensinou em sala de aula tá me ajudando até hoje com tudo na vida, inclusive em botar ordem nos pensamentos e construir essa postagem aqui, de ler outras postagens e ter interpretação básica para compreender várias coisas. Me preparou para Análise do Discurso na 6ª fase e me apaixonar pela única disciplina da Linguística que presta (minha opinião).

Lembro muito bem dela pedir nossa permissão em cada aspecto em que tratava a sua tese dentro de sala de aula e avisava de antemão quando iria aplicar algum tipo de diagnóstico ou fazer alguma pergunta que acabasse caindo lá na escrita dela. 

Ela pedia permissão. 

Ela mostrou o catatau de folhas do comitê de ética e pediu para a gente ler e verificar se tava tudo bem com todo mundo. E isso era lindo. Uma docente pedindo permissão para realizar uma aula sobre sua tese pra alunos de graduação que nem imaginavam que chegariam lá onde ela estava.

Não lembro dela coletando dados exaustivamente com a gente, transformando a aula em algo mecânico e disforme do que seria a proposta de entender o texto para auxiliar o aluno a entender como entender o texto. 

Não lembro de me sentir invadida pela proposta ou não ter vontade alguma de participar porque era complexo pra caramba (E era! Fui ler o produto final depois e minha cabeça explodiu.), não me senti burra ou apenas mais uma cobaia bucha de canhão para minerar dados para professor coletar e botar lá no artigo dele e ser feliz, enquanto eu aqui não sei absolutamente nada do que está acontecendo. Se estou crescendo como profissional, se estou fazendo bem pra outras pessoas.

Não lembro de ouvir sequer em nenhuma aula sobre estrelinha da Scopus. Autocitação. Quantas vezes foi em congresso, seminário, simpósio, o escambau falar sobre sua pesquisa e o quanto isso era a último biscoito do pacote. Aumentar o status da pós-graduação onde ela participava ativamente por conta daquilo. Ela falou uma vez que seria talvez o primeiro estudo brasileiro sobre aquilo, mas como era mais importante a gente sair daquela aula sabendo alguma coisa de como atuar como professor (Assim como ela), o pessoal entendia, a gente não se sentia invadido. 

E quando nos sentíamos inseguros sobre algo durante a aula, ela sacava na hora, sentava conosco e lá vamos nós prosear o que pode ser ajeitado. 

Nunca a vi se vangloriar de estar conduzindo testes subjetivos conosco para outros professores, ou em congressos, seminários, blablabla, e ganhar os louros pra sempre no hall da fama do povo doido que estuda esses tréco de como um texto funciona dentro da nossa cabeça (Ou vice-versa, já disse que o trem ERA complicado!). Eu não lembro de me sentir inferior e incomodada por ser alguém ajudando uma pesquisa científica a avançar. Não lembro de voltar pra casa, andando pela rua onde atravessava galinha e vaquinha que paravam o trânsito por vários minutos me sentindo como um porquinho-da-índia.

Não lembro de ter meu intelecto individual e do coletivo ser menosprezado e rebaixado como apenas provedores de dados, nunca os participantes da construção do conhecimento.

Lembro de agradecer ela no final do semestre pelas teoria WTF e parte do conteúdo tão fora da nossa cacholinha graduanda. Lembro de na formatura de abraçá-la e agradecer de novo por tudo que tinha me ensinado, aquelas aulas me firmaram como pessoa, como profissional, como cidadão.

Não lembro de ser um semestre a contragosto e com bile amarga no canto da boca. Foi um processo educativo tão inusitado e devo dizer humilde nos padrões acadêmicos (Que tipo de pesquisador se atreve compartilhar, dividir suas ideias e descobertas com graduandos e deixar eles bicarem à vontade nos dados que eles tão pesquisando?!), ela pediu consentimento e esperou a turma opinar sobre os prós e contras. E aceitava quando alguém não se sentia bem para responder coisas, fazer parte da pesquisa, consentimento acadêmico.

Aí 10 anos depois, eis eu aqui, escrevendo textão, usando uma das fórmulinhas mágicas que essa docente me ensinou para escrever um texto coerente, objetivo e coeso para ser entendida em uma rede social. 

É esse tipo de coisa que a gente precisa refletir dentro da universidade: até que ponto nossos docentes estão realmente se importando com o tipo de profissional que estão formando (E se pelamoooor de Ranganathan, a criatura quando pegar o diploma vai poder dizer com seguridade: "Óia, não era Brastemp, mas aprendi muita coisa bacana lá! Vai que é firmeza!"). Existe perfil de egresso e Projeto Pedagógico de Curso por alguma razão, são as diretrizes né?

Tá tenso, gente...

(Reflexivando = refletindo, mas ao mesmo tempo filosofando ou sacaneando ou satirizando ou qualquer outro verbo no gerúndio que termine com "ando")

terça-feira, 21 de novembro de 2017

abandono à favor de algo edificante.


Então.

Assucedeu-se que para valorizar a minha integridade e saúde mental, resolvi abandonar uma famigerada aula.

A medida drástica se deu devido motivos extremamente importantes que deveríamos discutir mais vezes entre os discentes e docentes. Tipo mansplaining, gaslighting, maninterrupting, anacronismo, falta de responsabilidade social.
A famigerada aula tinha um potencial incrível de fazer a geração da Biblio e Ciências da Informação de contribuírem - mesmo que em menor escala - com as questões de acessibilidade e inclusão digital/social dentro do curso. Temos diversos problemas nesse requisito devido a infraestrutura do centro e do campus, mas com uma disciplina dessas seria promissor realizar um trabalho de campo nos diversos órgãos que o campus possui para facilitar e otimizar a vida de quem antes não era nem cogitado em estar ocupando uma carteira no ensino superior.

Mas aí o que ocorre?
Aquele erro crucial incrível que nós gamers chamamos de #EPICFAIL ao termos um exemplo de o mínimo de didática possível para instigar os estudantes a se aprofundarem nesse assunto. Ou se interessarem. Ou sei lá. Pensar nisso já me causou muitos problemas em anterior experiência. 

Não estou pedindo life changes, apenas fingir.
Sorrir e acenar. 

Desconhecer os órgãos da universidade que promovem Acessibilidade foi o mínimo, o pior foi receber a resposta ao questionar sobre se conhecia os locais (no próprio centro HÁ uma fucking Coordenadoria de Acessibilidade e Inclusão FFS) de que se eu mandasse por email com todas essas informações, ele daria aula sobre elas. 

Detalhe: pros de cinco dígitos na conta todo final do mês, beleza. Legal mesmo é ver a turma de bocós não aprendendo nada edificante pra vida de bibliotequeros. Sim, pessoas, vocês são bocós e estão se prejudicando por não saberem se organizar direito. Por não buscarem seus direitos. Por não levantarem a mão e questionar. Eu sou bocó também. Eu desisti. A bocosidade também me pertence.

Dali já sabia que minha Sanidade não merecia ser minada por incoerência. Dali não apareci mais na aula, e dali minha vida acadêmica foi se tornando bem mais feliz e aceitável. O problema é: com um registro de Frequência Insuficiente não tenho mais direito a estágio na dita universidade no próximo semestre. Se eu pensei bem antes de fazer isso?
Eu sei meus limites.
E os gatilhos.
E igualmente a morosidade das instâncias.
E a desorganização estudantil que meus colegas parecem sádicamente propagar quando algo assim acontece (botar o seu na reta por uma causa de urgência não, arruinar com ensino de qualidade, yep, bora lá!).

Então você que passa por esse aperto em alguma fase do curso de Biblioteconomia da universidade dos Megazords, não se preocupe: proteja a sua saúde mental primeiro.
Pelamoooooor, mantenha sua integridade mental.

[Editando porque olha só final de semestre!]