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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

[conto] breathless

Esse é baseado em um cenário meu e do Oto Guerra sobre alguns apanhados de Drácula de Bram Stoker e História Mundial (E vampiros envolvidos nisso). Com mais calma explico o contexto todo do Colégio Carmim (Ou Rosenrot, yeaaaah Rammstein!). Anyway: eles são caçadores dotados de "superpoderes" (Hunters), a maioria treinado em Rosenrot se especializa em alguma coisinha pra sair debulhando os sanguessugas e é até divertido - se a própria fundação do colégio não fosse amaldiçoada. 

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O eterno jogo de gato e rato. Como uma brincadeira infantil encenada nas noites tempestuosas de Bucareste, a emoção da perseguição, o momento entre uma estocada e outra, aquele golpe bem dado, às vezes o sangue espirrando veloz nas paredes dos casarões tombados, a corrida de sempre nas ruas escorregadias de pedras tão sólidas e tão velhas quanto a própria cidade. A rotina do jogo se tornara vício e o vício trazia mais consequências do que imaginava.

O alvo era sempre o mesmo, a caça (que se fingia muito bem de caça, mas estava longe de ser), espreitava nas sombras, esperando o momento decisivo entre o atacar ferozmente e o provocar sofregamente, seu prazer em tudo aquilo era tirar proveito da "caçadora", pois nenhum outro hunter que conhecera tinha tal obstinação quanto aquela jovenzinha de descendência turca, pele escura pelo sol com um aroma persistente de areia do deserto e olhos tão ferozes. Não necessitava de palavras, insultos ou gestos maiores, era apenas se apresentar onde ela estava, caninos salientes, mandíbula pronta para uma mordida destruidora. A caçadora sempre "mordia" a isca, largando tudo que estava fazendo no momento - até cancelar o assassínio de outro vampiro - e correr atrás dela sem pausas.

Estava acostumada a ter atenção exclusiva de seus súditos e de seu gado, mas nunca recebera devoção tão fervorosa em forma de ódio por alguém. Aquela jovenzinha estrangeira ali a surpreendia pela selvageria, pela ausência de medos e pela urgência de alcançá-la e debater-se em uma frenética luta corporal que durava alguns minutos, até a "caça" cansar de brincar com o rato (Ou quando alguém se machucava de forma preocupante).

Não entendia o porquê do clichê estúpido de querer aparecer bem no final da noite, perto do amanhecer, apenas para atiçar o instinto de sobrevivência e vingança da pobre caçadora tão bem instruída em seus ofícios , os dois lados se apaziguavam, seguiam seus rumos e voltavam a se enfrentar na noite seguinte. Era patético.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Conto - Colégio Carmim/Rosenrot

Quarta-feira antes do feriado religioso.
Ótimo, maravilha, fantástico.

Estamos começando bem uma bela noite nada agradável em algum cemitério dessa cidade suja e fedida. Não que eu não goste de Bucareste, é um bom lugar para se viver. De dia, é claro. De noite as coisas mudam – as coisas SEMPRE mudam de noite. Um tombo ali, um arranhão aqui, um golpe certeiro no meio do peito do desgraçado que queria ter um pouco de você para ele. Puf, virou pó? Não, não é que nem na Tv ou naqueles filmes trash de classe D que te fazem rir tanto, é sangue espirrado do buraco ferrado no corpo morto, são mãos que tentam te sufocar enquanto luta para conseguir uma regeneração sobrenatural, é o final momento em que o cabo da pá do coveiro sai do peito do desgraçado e você não vê alternativa a não ser tacar a outra extremidade no crânio do camarada.

Hey, sem tanta violência, okay? Ele pode ser um sanguessuga, estar morto, mas também era uma pessoa, tenho ciência disso, às vezes piedade, mas quando você acostuma a fazer esse serviço toda santa noite, então nem precisa mais se deixar levar pelas emoções. O barulho dos ossos esmigalhados após o terceiro golpe com a pá é que me deixa pilhada. Como queria uma noite sossegada, só eu, um sofá confortável, uma lareira aconchegante, meu kit, minha seringa, minha felicidade instantânea.

Pra que diabos vim me meter aqui nesse país esquisito?

- Acabou aí? - pergunta a "mentora" que não faz absolutamente nada a não ser observar os meus deslizes e erros. - Não se esqueça de colocar fogo no corpo, lembra? Não queremos deixar rastros... - eu indico a minha jaqueta toda manchada de terra úmida, sangue e possíveis fragmentos de dentes.
- Eu sigo o protocolo, muito obrigada por lembrar... - ela dá de ombros. É o mínimo que pode fazer.
- Ah você sabe... “Ashes to ashes, funk to funk...” – ela continua no mesmo lugar onde estava, já eu levanto do chão com parte de minha cabeça rodando e a outra parte ainda alerta com um possível ataque vindo de alguma outra tumba. Esses malditos acordam sem avisar muito, sabe?
- "E todos nós sabemos que Major Tom era um drogado?" – completo a eterna música de David Bowie para minha eterna aliada, morta, mas pelo menos aliada, Frau Sonnenblume. - E eu sou também...
- Você deveria parar de dizer isso... – ela diz como se fosse a coisa mais normal do mundo quando estamos falando sobre eu e meu vício.
- É o que a maioria diz... – eu me encolho ao tossir além do que meus pulmões aguentam. Frio horrível de Bucareste. Quando não tá frio, tá chovendo. Detesto esse pedaço de terra esquecido por Deus.

Saímos do lugar tão amaldiçoado por ter lápides demais dos Corvinus. Ela aponta para uma e me cutuca na cabeça.
- Olhe... Esta sou eu! – e ri de um jeito que faz minha espinha se retorcer mais ainda que meus pulmões instantes atrás. Odeio quando ela me lembra de sua condição de morta-viva sugadora de sangue alheio.
- Não gostei. – passo pela lápide manchada pelo tempo e sem adornos. – Muito fora de moda essa daqui...
- Oh sim, por que na Espanha é como?
- Não enterramos corpos na Espanha. E eu não morava na Espanha, é País Basco. Diga isso a um cidadão do País Basco e você vai ser pisoteada por uma multidão de patriotas exacerbados.
- Bom saber... - ela dá de ombros, saindo do lugar e verificando o corpo inerte que deixei desfigurado ali perto.
- Nós cremamos os mortos.
- Não gostei. – ela repete o que digo com a ênfase em meu sotaque nada perfeito do inglês defeituoso que aprendi durante minha estada em Londres.
- Eu deveria te bater com essa pá. – eu respondo inocentemente segurando o instrumento que carrego para disfarçar nossa condição naquele lugar. Graças a Deus que o tal do coveiro deixou a gente entrar pelos fundos.
- E eu deveria acabar com o fio de vida que você ainda deve a minha pessoa. – Como odeio quando ela é educada comigo.

Pego meu isqueiro, tento atear fogo em algumas partes do vestuário impecável do vampiro que acabamos (Acabamos, fui eu que fiz o serviço todo?!) de exterminar da face da Terra, a porcaria não segura nem uma chama. Cansada, dolorida e sem perspectiva alguma de poder cozinhar uma bela mistura de heroína para aquela noite, faço o que devo fazer. Desenho a porcaria do símbolo perto do corpo, repito algumas palavras de poder qualquer e chuto o maldito pro círculo. Com um pouco do fluido do isqueiro, deixo a chama viva cair em um traço do desenho e tudo está acertado.

O corpo morto entra em combustão quase espontânea, a decrepitude que ele já tinha se esvai em um segundo e logo nada sobra para contar história. Respiro aliviada e me encaminho para o portão dos fundos do cemitério.

Menos um sanguessuga na cidade.