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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

[conto com angie] tesouros

Título: tesouros (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 3.070 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x
Personagens: Angie, a Fúria, Quentin, Raine, Smithens, Nakitsumoto, a prodígio mais-nova.
Resumo:

Sentou no sofá, desconfortável por estar ali tão exposta. Bege e colcha de retalhos no chão, palco de brinquedos de madeira pintados a mão espalhados, um brinquedo de pelúcia branco encardido de muitos pelos (parecido com uma peruca esquisita que já vira em uma corte do Oeste) estava ali também. Fungou para disfarçar a timidez, a apreensão, a expectativa, tinha muita coisa ali para se registrar. Um breve toque em seu ombro, café quente. Forte, extra.

Olhou para a mão que segurava a caneca e viu uma pista. Lembrava de algo pintado na mão da mesma pessoa.

- Desculpa a demora, fogão está quebrado e fazer café esses dias tem sido um martírio... - disse a anfitriã com um sorriso largo e voz que reconheceria de longe desde sua infância conturbada no Posto 2.
- Obrigada assim mesmo... - já levando a xícara morna aos lábios. Realmente estava muito frio aqueles dias.
 - Abençoado seja o pó venenoso causador de gastrites... - respondeu a mais velha, tão antiga quanto qualquer um que já havia passado pelo seu caminho.
 - Pensei que vocês não tinham essas coisas. - o tom em sua voz deixou de ser sério para o curioso costumeiro. Ao deixar escapar a pergunta/afirmação, se arrependeu de ter dito. O olhar que ultrapassava carne, mente e ego foi para ela, mais um gole do café. Forte, muito. Por suas orelhas, muito!
 - É difícil dizer, vai ver que exagero na dose desde sempre e assim acho que está bom... - a mais velha deu de ombros, levantando bruscamente ao ouvir um apito do microondas. Particularmente não tinha receio dessa invenção dos Mais-Novos, microondas eram legais, sempre saía comida gostosa de dentro deles (Apesar de terem um gosto artificial e de pura máquina). Lembrou-se de bebericar o café forte (Muito!), ser educada, lembrar que seu estômago não vai girar só de estar ali. 

O brinquedo felpudo se mexeu, cutucou um bloco de madeira, voltou a ficar imóvel. 
Tudo isso em meros segundos. Olhando para a xícara de café morna em suas mãos geladas, perguntou-se "Okay, o que esse café tem a mais?!".

Passinhos atrás de si, um corpinho miúdo que se colocou em pé apoiado no braço da poltrona. A menininha nem estava com os olhos abertos direito, bocejando largamente (Um pouco da fisionomia da mãe, creio), um pedaço do curativo abaixo do queixo solto. A timidez inicial infantil ao ver que foi descoberta em seu esconderijo, ou talvez por ter sido pega bocejando (Uma fraqueza! Que fraqueza?).

Leite frio pra pequena.
 - Querida, onde você estava? - perguntou a mãe zelosa, a pequenina tomou cuidado com o copinho de leite em suas mãos quentes.
 - Passeando Momz... - A menininha bebericou o conteúdo também, trocou de olhares com a visitante, olhou para a xícara de café dela e assim que a mãe virou para pegar mais biscoitos para a mesa cheia de comida típica de um café da manhã de reis, colocou um pouco do leite de seu copinho no dela. Sorriu cansada para a visitante esquisita, sorriu como sorria anos antes.

Antes de tudo, antes de decidir como seria o futuro dali por diante. Um sorriso quebrado é devolvido, não conseguiria enganar uma criança nem aqui nem lá em Hibérnia. Não quando a criança era um espelho de si mesma em um outro nó do Destino.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

[conto com angie] as pequenas cismas


Título: as pequenas cismas (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.889 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby, Emilio, Smithens e Prince

Começara a entender as pequenas cismas, novos modos de se passar vergonha e cometer gafes memoráveis por todas suas vidas. Quem costumava entregar elas era a menina que se vestia como um acidente de carro, seja lá o que isso queria dizer para "eles".

A música alta e agitada de batuques e tambores, piso grudento de cerveja quente derramada, a meia luz que disfarçava os rostos suados, boêmios e entorpecidos dos foliões Muito contato tátil, pouco auditivo. Não gostava de se sentir sem audição em lugares como aquele. Passar noites na completa escuridão fazia parte de sua rotina, mas ter a privação das nuances auriculares era como retirar metade de sua capacidade de raciocinar. A música estava mais alta, óbvio, fazendo com que aqueles ali presentes se aproximassem e fazer aquela dança esquisita do acasalamento. Como essas criaturas sobreviviam há mais de milênios, nenhum de seus ancestrais conseguira explicar direito.

A batida da música mudou, algo mais primal, introspectivo, sugestivo, a dança humana mudava, o cheiro também. Técnicas de sedução, explicaram uma vez na biblioteca, procriar, reproduzir, nascer, crescer, desenvolver, decair, encolher, morrer.

Apenas entendia a última parte, essa era sua tarefa agora, fazer os outros como eles entenderem. Cada mortal com sua sentença, sua pluma, seu coração, sua balança. Quem vinha coletar não era quem eles tanto gostavam de repudiar, uma criatura deformada, esquelética, manto escuro comprido, foice na mão, olhos sem enxergar, uma lista.
Por que haveria listas?! Séculos de aprendizado e nenhum aproveitamento das lições. Tolos. Egocêntricos. Pedaços de estrelas mortas.

A surdez temporária pela tecnologia barulhenta dos mais novos aguçava sua vontade de voltar a sua forma primitiva e voar para longe dali. Bem, bem longe. O contato mínimo de um braço em seu ombro a fez se recolher alguns passos para trás e preparar algum tipo de insulto ensaiado: fora assim que aprendera da última vez. Era a menina vestida de acidente de carro.

domingo, 11 de dezembro de 2016

[conto com angie] hora do chá


Título: Hora do chá (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.010 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby

Algumas coisas na vida mudavam. 
E outras coisas continuavam as mesmas. 

Angie observava a cena com um leve sorriso no rosto ainda marcado de tinta guache, canetinha hidrocor, a maquiagem meio borrada pelo turno vespertino na creche comunitária onde fazia voluntariado apenas pela merenda e nada mais.

Seus olhos cansados passeavam minuciosamente pela cozinha do hotel, aquele gigante animado de forma grotesca em seu entender, como um construto despedaçado e rebocado em cada pedaço e andar do prédio. Já havia se desentendido com o tal hotel (Ou seja lá o que o mantinha "vivo") e agora, exatamente naquele instante percebeu que tinha um cúmplice de intrigas.

Nesse caso, de sacanear a chefia o máximo possível.

O fogão que nunca pegava na primeira acendida de fósforo estava perfeitamente funcional. Aceitando o fundo da chaleira sem balançar e espalhar a água quente e apagar a chama ou queimar quem estivesse por perto. O segundo bocal enorme para panela grande nem cismara em se acender e causar um pequeno incêndio. O forno é que mais surpreendia, não jorrou nenhum objeto chamuscado, deixou um fedor empesteante de gás e muito menos fazia um barulho horrendo após alguns minutos aquecido.

A cozinha do hotel estava colaborando com a Rainha dos Feéricos, mesmo ela odiando esse título e o evitando como dava.

A observadora não tão distraída na porta da famigerada cozinha mortífera coçou o queixo com uma casquinha de guache seca, o sorriso cresceu ao ver o gesto pequeno de carinho trocado entre as duas ocupantes do pequeno espaço, o simples mover harmonioso de se dividir as tarefas, uma mão que complementava a outra, uma ação ainda não feita, mas pensada já sendo executada, a sincronia entre movimentos, e os fios prateados. Urrum, lá estava os dois, tão entrelaçados um ao outro que mal conseguia distinguir onde um começava e outro terminava.

As duas pessoas não percebiam nessa ótica, estavam entretidas em fazer o ritual do chá da tarde e terem o momento silencioso de desfrutar a companhia uma da outra sem precisar tratar de negócios do Mercado Proibido ou de Quimeras rebeldes. 
- Abro esse pacote aqui ou...? 
- Abre dois que a menina chega esfomeada, como sempre... - riu Raine para a dificuldade em que Kittie tinha em abrir a embalagem de biscoitos. Angie quis intervir como sempre, dar sua opinião ferina era algo automático de sua índole, mas ali, naquele lugar, ela não iria interromper o que estava acontecendo. 

Os fios prateados sempre diziam o caminho.

A música na vitrola na sala da sinuca mudara para uma balada dos anos 80, algo bem melancólico de letra ambígua, mas que fizera muito sucesso na época (Angie lembrava disso muito bem, viveu intensamente os anos 80 como uma adolescente eshu que se orgulhava). Para Angie, a música era um código universal de alcance ilimitado aos corações, não importava como. O fato da vitrola pertencer a Raine e estar tocando sucessos dos anos 80 era algo a se relevar: a chefia não deixava ninguém tocar em seus pertences, muito menos mudar aquele disco pegajoso de música barroca, de concerto, sem letra alguma e tediosa depois do terceiro minuto. 
- As torradas estão prontas, chá também, faltam as sementes e o querido voltar com a geleia e manteiga... - organizou Kittie em seu modo metódico de viver a vida, sempre se disciplinando para não esquecer nada. Raine riu novamente, se aproximando da pessoa mais alta e tirou uma xícara de seus dedos sempre trêmulas. 
- Relaxa... É só um chá da tarde, estão todos acostumados com a bagunça. - O rosto de Kittie se contorceu em preocupação, mirando bem a xícara retirada de sua mão, os óculos de armação tartaruga escorregaram um pouco do gancho do nariz para serem ajeitados por Raine inconscientemente. As duas trocaram olhares novamente e riram. 
- É só um chá... - repetiu Kittie com certeza, a mão de Raine tocou seu rosto e a preocupação se desfez rapidamente. A troca de olhares foi confusa, Raine para a cicatriz ainda se curando no lábio de Kittie, esta focando sua atenção e miopia no topo da cabeça de Raine. 

Foi quando Angie percebeu no que Kittie também via, soltou um soluço de surpresa pela descoberta e atrapalhou o fluxo de energias que a cena doméstica produzia no ambiente (E pro hotel ter ficado a favor disso era porque as energias eram realmente poderosas). 
- Oh Angie, já chegou? Não pegou até às 18h? - disse Tobby chegando com sacolas de compras no seu andar desequilibrado. O momento ali se dissipou, Kittie foi supervisionar o forno, Raine pegou um pano de prato e o amassou nas mãos com certa violência. A interrupção não era nada perto do incômodo da dona do hotel ser vista em posição tão vulnerável. 
- Gurizada foi pro flúor e escovação de dentes, então... - Angie deu de ombros e refez seu jogo para amenizar a tensão. - Tá fazendo biscoito, é? 
- É bolacha. - provocou Tobby, ela abanou a orelha demonstrando o quanto se importava. 
- É semente de abóbora caramelizada... Receita básica de Dia dos Santos... - explicou Kittie abrindo o forno e tomando cuidado para tirar a travessa com o doce marrom e de aroma característico entre amendoim torrado e açúcar queimado. 
- Dia dos Santos é semana que vem, não? - Angie ajudou Tobby a tirar as compras e separar na bancada de mármore da pequena cozinha, Raine continuava em silêncio, observando bem a tarefa de Kittie com a travessa quente e uma espátula de teflon. - Pode pegar um teco? 
- Espera esfriar que vira torrão, calma. - Kittie avisou mantendo a travessa longe da menina eshu.
- Obrigada Tobby pelas compras... - Raine agradeceu polidamente e pegando com cuidado as bandejas com chá, biscoitos e utensílios.

Saiu graciosamente pela porta da cozinha e encaminhou-se para a sala da sinuca. Kittie brigava com a espátula, Tobby ajeitava as compras nos armários e Angie percebia que o fio prateado de Kittie e Raine lentamente se afinava para finalmente se separarem, cada um de seu lado.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

[os escorregadios] apegos e afetos

Título: Apegos e afetos (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.985 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Raine (aqui chamada de Myrna Reyners), Kristevá Todd



O afeto não era de agora, o conforto de ter um corpo tão perto do seu era familiar, como se aquele momento ali já houvesse disso escrito em algum lugar. Acariciou de leve os cabelos revoltos da pessoa a sua frente, esparramada no sofá maior, ressonando a respiração calma e pausada de sempre. Se acostumara a ouvir esse ritmo desde muito tempo, quando a vira pela primeira vez, dormindo como pedra dentro do vagão de metrô do Arges. O rosto havia mudado muito, a aura tão caótica e confusa também, uma criança domesticada com remédios, tratamentos psiquiátricos, rasurada e esquecida em algum quarto daquele maldito lugar que sugava os sonhos de quem entrava.

Como deixara isso acontecer?

Ela, ou ele, não sabia como denominar mais com quem lidava ali a sua frente, não parecia ser daquela época, alguém deslocado do tempo-espaço, colocado em um corpo que às vezes mostrava que não encaixava na normalidade. Muito confuso para a lógica tradicional de Raine.

Em seus lindos anos em Hibernia, Raine achava que sua vida fútil e cheia de caprichos na Corte a deixariam anestesiada quanto as frivolidades emotivas das donzelas medievais. Acostumada a fugir de qualquer aspecto romântico de sua vida - coisa essa inventada por malvados deuses desordeiros para atrapalhar a vida dos seres vivos - se refugiava solitária nas florestas densas de sua terra Natal ou em incursões nas cavernas de gelo abaixo da grande costa congelada no litoral das terras afastadas do Clã do Profundo Inverno. Estar sozinha era a opção mais acertada em sua vida milenar, e também a mais divertida. Trocar essa sensação de liberdade - o espírito livre de uma folha que se solta da árvore mais frondosa e segue um rumo sem destino - era uma heresia em sua conduta pessoal de viver no mundo dos humanos. Não trocaria isso por nada e nem ninguém.

Até ver que não era necessário trocar sua ética a favor de algo ou alguém. Era apenas se deixar sentir.

Os companheiros de caçada entendiam seu lado aventureiro, sua veia estratégica, sua liderança nata, mas não compreendiam que debaixo das camadas que acobertara pra si residia aquela menininha feérica que adorava ouvir música dos menestréis e apreciar o nascer do sol. O de respirar fundo a atmosfera em uma lua cheia, corpo aquecido por uma fogueira tímida e um jarro de vinho. O dançar sozinha debaixo da torrencial que assolava as divisões entre os reinos sei e o deles.

Kittie sorriu rápido em seu sonho pesado, isso distraiu seu pensamento dos tempos de outrora. Às vezes isso acontecia quando Raine estava por perto, mesmo quando acordada. Prince havia advertido como Kittie a observava quando ninguém prestava atenção, como isso era corriqueiro, pois ninguém se importava com pessoa esquisita que acordava todos os dias em um banco dos fundos do hotel sem saber como chegara ali. Depois foi Angie, explicando que a vida era uma imensa balança de pesos diferentes. E que a paz no sono de Kittie era o pior dos pesadelos no mundo real. Óbvio que entender o que a menina eshu falava era perda de tempo: Angie nunca entregava informações sem haver uma negociação de valores (No caso dela: comida).

Seus dedos caminharam cautelosos pelos cabelos revoltosos, impregnados com grãos de areia da última aventura, rosto não mais transparecendo a dor interna. Kittie parecia ser mais feliz dormindo e sonhando. E isso deixava Raine particularmente infeliz.

Pois se era nos sonhos que Kittie encontrava paz, era exatamente lá que Raine não queria mais habitar. Estar no Sonhar era se sujeitar as regras esquisitas da Corte, das ordens dos elderes, de ter que fazer seu papel odioso de futura monarca mais importante de todo mundo feérico. De ser quem as pessoas queriam que ela fosse, não quem ela realmente era.

Mas Kittie era feliz dormindo. Único lugar de paz e segurança. Com o que ela sonhava, Raine já sabia de cor, mas viver uma ilusão permanente é mais doloroso que acordar para uma vida de sofrimento.

- Eu gostaria de te livrar dessa dor...

terça-feira, 30 de agosto de 2016

[feéricos - contos para sonhar] certas leis se repetem



A história se repete. 

Se repete. 
Repete. 


Vira boato, anedota, fábula, esquecida em algum canto, mas se repete e repete e repete.

O toque breve entre mãos, dedos trêmulos em outros rígidos pelos anos. Um sorriso trocado, automático como uma desculpa pela intrusão do gesto. Papelada espalhada pela mesa de sinuca, meia-luz, mais livros no chão e pastas de arquivos no sofá maior. O sorriso tímido de uma pessoa traz a certeza de uma teoria para a outra.

A história se repetindo.

- Descansa um pouco, vou preparar um chá pra gente. 
- Eu quero chá e bolinhos! - exclama alguém fora da cena, do outro lado da janela enorme da sala de estar do Hotel. A menina eshu brinca na chuva, dançando com um cão exageradamente grande para sua raça (um vira-latas com o dobro de tamanho), os dois ensopados pela torrencial da tarde, o cão caçando o próprio rabo e raspando suas garras no concreto sem produzir nenhum arranhão aparente. 
- Angie, você acabou de detonar com o pacote de biscoitos que o Smithers deixou na cozinha... - admoestou a líder do grupo, mas já sabendo a resposta. Seus olhos podem estar na menina animada perto da janela para o pátio dos fundos do hotel, mas seu corpo reagindo lentamente as pequenas mudanças na atmosfera ali dentro da sala de estar. O quanto a temperatura aumentou após o toque na mão da pesquisadora recém chegada ao grupo, como qualquer movimento é cuidadoso e silencioso, a respiração acelerada com alguns suspiros mais profundos para manter tudo em perfeito estado. 


A história se repetia novamente.

Para testar a superfície das águas, aproximou-se da pessoa e mansamente acariciou suas costas começando por um ombro, até a nuca exposta pelo corte desregulado de cabelo. A sensação foi imediata, um pulo de surpresa, a respiração cessada, o coração... Bem, o bater do coração era algo que intrigava Raine sobre Kristevá. 

- Volto já. 
- Beleza... - respondeu ela em um fio de voz. 
- Quer comer algo? Acho que tem alguma coisa ainda na despensa que a pestinha não tenha devorado. 
- Pestinha é o seu traseirinho real, oh Regina!! - gritou a menina lá fora correndo para lá e para cá, cabelos negros longos soltos ao sabor do vento e sendo perseguida pelo cão enorme em uma brincadeira confusa de pique-pega. 
- Regina? - perguntou a pessoa surpresa. Raine sorriu para o chão como se não fosse um assunto muito bom para se abordar a essa hora. A meia-luz não estava ajudando, os olhos escuros da pessoa a encaravam com aquele tão conhecido pecado que os feéricos eram suscetíveis quando deixavam as emoções aflorarem. 
- Um de meus nomes... 
- Oh sim... É um bonito nome... - a pessoa disfarçou seu interesse repentino com um suspiro baixo e foi até o sofá pegar uma das pastas de arquivo. Raine a observava quase clinicamente, ombros tensos, lábios ressequidos entreabertos como se alguma palavra fosse escapar dali (mas não iria, o autocontrole era algo que a pessoa prezava mais que tudo), as mãos trêmulas procurando o que fazer, tateando mais folhas antigas, despregando clipes de amontoados deles, recolocando outros clipes em pilhas novas feitas sistematicamente. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

[Projeto Feérico] Conversas ao amanhecer

Título: Conversas ao amanhecer (por BRMorgan)

Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG.
Tamanho: 1808 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Após uma noite de comemoração, Raine e Angie discutem sobre o que é o Amor.
Personagens: Angela, Raine.

A comemoração da noite anterior fora um sucesso-desastre. Sucesso, pois a caçada ao monstro do Lago (Que nem era tão monstro assim) havia sido finalizada, com grandes expectativas para o próximo contrato e uma recompensa muito boa para os Caçadores de Quimeras. Desastre, pois boa parte da recompensa agora estava depositada em grandes barris de cerveja envelhecida que abarrotavam a sala de jogos e Hall do Hotel.

Do chão perto do sofá na janela, uma figura meio torta tentava pegar uma caneca com mais líquido fermentado de cor escura e aroma achocolatado, uma mão esguia de longos dedos estapeou a mão pequena e com um grunhido depositou um copo d'água e comprimidos contra ressaca. Outro grunhido foi a resposta, o próximo grunhido foi abafado por um corpo maior se sentando no sofá confortável e se deixando deitar com a cabeça no braço de madeira antiga.

 - Bom dia, raio de sol... - rasgou a voz sonolenta de Angela, Filha dos Ventos, para a líder do grupo Raine. Pela tonalidade nada harmoniosa da menina Eshu, a Sidhe percebeu de imediato que alguém ali estava pior do que ela na questão da bebedeira.
 - Dia, querida Angela...
 - Quem colocou esse efeito legal no teto?
 - Que efeito?
 - Ele tá girando...
 - São apenas seus olhos, querida... - respondeu Raine com um leve sorriso no rosto pálido, olhos verdes ainda lânguidos pela quantidade de álcool circulando em seu corpo.
 - Cadê todo mundo?
 - Cansados e embriagados...
 - E o Tobbinho?
 - Debaixo da escada em sua forma mais branda...
 - Como é que ele consegue beber tanto e virar cachorrinho de madame depois? - perguntou a menina levantando a cabeça.
 - Segredos da natureza dos lupinos, menina...
 - Cara, o que que tinha nessa stout...? - a mão de Angela foi automaticamente para a caneca com a bebida, mas Raine a tirou de perto com um olhar fulminante, mesmo ainda anuviado.
 - Chega de levedo por hoje.
 - É malte! - disse Angela com certa aspereza.
 - Não discuta, sou sua Rainha. - Raine colocou o ponto final na conversa com um pouco de sarcasmo, a menina Eshu fez uma cara fechada, mas logo sorriu bobamente.
 - Oh sim Majestade... - tentando reverenciar Raine, mas falhando miseravelmente por sentir o corpo pesado demais para isso. Deixou sua cabeça quicar ao chão e boca amarga do sono induzido pela quantidade de cerveja que tomara.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Projeto Feérico - Raine, a exilada.

[processando rascunhos da fila]

Como já sabem, estou formulando um Projeto de um possível livro ou talvez quadrinhos - ou sei lá, o que vier primeiro - sobre fadas, meio-fadas, coisas com glitter, pózinho de pirimpimpim e contos infantis. O Projeto Feérico está firme e forte e conforme o tempo vai passando vai tomando mais forma que o idealizado cerca de 2 anos atrás.

Parte desse Projeto foi influenciado por uma sessão de RPG de Changeling the Dreaming e contos espalhados sobre os personagens. Anteriormente eu havia apresentado o perfil da Angela (agora com nome) aqui no Blog e pretendo continuar colocando alguns destrinchamentos de personagens conforme a inspiração vem.

A escolhida de hoje é Raine, a sidhe de sangue Real e líder do grupo de Caçadores de Quimeras.



A concepção de Raine veio de uma velha fórmula que gosto de repetir até para poder dar peso aos outros personagens: alguém que quer se livrar do Passado, mas as pessoas ao seu redor sempre a lembram de seu status político. Partindo daquela de "Quem foi Rainha, nunca deixa o trono", é essa situação em que Raine se encontra. Como um estereótipo de sidhe básico, ela é obrigada a ser a detentora de responsabilidades que estão além dela, às vezes de forma inusitada e absurda.

A maioria das pessoas que a conhece sentem essa liderança exalando dela e sem perceberem se apoiam nas atitudes e ideias que ela tem durante as caçadas. Querendo ou não, Raine se torna uma líder mesmo quando tenta não mostrar que é - #aragornfeelings.

domingo, 2 de março de 2014

[conto com Angie] a amazona de prata - parte 1

[cenário: trailer debaixo do viaduto, grupo de caçadores de quimeras estão em seu disfarce habitual, comendo cachorro quente e papeando sobre o que farão em seguida no próximo contrato. Uma jovenzinha de 20 e poucos anos chega esbaforida, passos desacertados em seus saltos altos plataforma chamando atenção de todos.]

 - Galera, galeraaaaaaaaa!! - e quando os trabalhadores noturnos na pausa olharam para ela. - Não vocês, galera! Acertamos o bingo amanhã, Zé Ferreira? - um dos trabalhadores levantou o copo de plástico de refrigerante e falou algo com a boca cheia. E chegando nos companheiros de caçada, ela firmou-se bem no lugar e pediu atenção com gestos dramáticos. - Parem tudo que estiverem fazendo! A-G-O-R-A! - os companheiros olharam para ela com cara desconfiada. - É, todo mundo, até você aí que não aparece muito... Prestenção, óia só que barato!

"Tava lá eu dentro do buzão certo? Aquela galera de madrugada, tudo meio sonolento, meio pra lá, meio pra cá, belezoca, eu tinha tirado meu cochilim, tava meio grogue por conta da festa... Não, naõ me perguntem que festa, sou uma dama e tenho uam reputação a zelar... Aí do nada, assim DO NADA!! olho pela janela esse buzão enorme pegando fogo! Piração na soda!!

O motorista acelerou mesmo com gente tendo que soltar ali perto, mas parecia ser tumulto de manifestação, mó doidera! Uns manés lá na frente começaram a gravar, como se desse, gente gritando, batendo pedaço de pau nas lixeiras, muita confusão, nada a ver com nada e aí BAM!! o buzão em chamas soltou essa rajada de sei lá do quê e putisgrila um dragão enorme!!"

 - Dragão ou dragonete? Há diferença... - perguntou Smithens, o baixinho carrancudo palitando os dentes.
 - Deixa eu explicar, por favor? Tou empolgada na narrativa aqui...

"Um imenso dragão flamejante wtf sei lá das contas!! Claro que ninguém viu, né? Só feérico pode ver esses trem, muuuuuita piração na soda, tou falando... Aí a coisa começou a bafejar ar quente na galera já alterada, tava chamando rebuliço pros camarada, pode?! Os metralha foram descendo né? Com fuzil, colete a prova de tudo e já descendo o couro nos que tavam na frente...."

 - Peraê, isso aí não é por causa daquelas manifestações bobas que os Filhos-mais-Novos estão fazendo por aí não? - foi a vez do Pomposo perguntar com incredulidade, o olhar que Raine deu a ele o fez se aprumar no lugar. Ela era a favor desse tipo de reação popular, pois trazia novos sonhos e expectativas para aquele mundo tão cinzento, apenas não concordava com o oportunismo de uns que se aproveitavam da violência para chegarem aos seus objetivos.
 - Era não, sô... Era coisa mais grave. Esses trem de policial entrar no morro e sair atirando a esmo? Pois é...

"Mas a bagunça tava feita e feia! O dragão baforando o povo, jogando aquela carga negativa ruim que essas quimera maluca faz na gente quando não sabemos o que fazer... Acredite, já enfrentei mais do que devia..."