Pesquisando

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Não é meu lugar pra falar

E depois de uma aula de comunicação incrível, 

Não é meu lugar para falar de algumas pautas.

Eu tenho consciência disso.
Gostaria muito que as pessoas ao meu redor também tivessem essa noção.

Não é meu lugar pra falar.

A gente silencia o Outro (em letra maiúscula, pois é uma entidade que é além de mim como ser humano e vivência. O Outro às vezes me fascina e também me assusta.) com palavras que fazem parte de nosso vocabulário, mas não são realidade para Este.
A gente silencia de tal forma que ao se tentar falar do Outro há estranhamento de mim mesme.

Mesme.
Isso, não mesma ou mesmo.
Aí tenho lugar para falar.
(Acho.
(Tenho? Posso falar?)

E olha só que absurdo!
A fala alocada a um lugar em um espaço-tempo que NÃO me pertence, mas que vivo mesmo assim.

Mesmo.
Como outra pessoa qualquer que não denota a minha condição.
O meu ser.
O meu estar.
O que sou.
O que estou.

Não é meu lugar pra falar.
Pois mesmo tendo o silenciamento como um tiro rápido, estampido em uma silenciadora (um acessório luxuoso para armas, tecnologia de ponta para abafar uma bala direcionada pro meio da testa da vítima), o Outro é feito da mesma matéria que a minha.
E não é meu lugar pra falar.

É minha vez de CALAR A BOCA É ESCUTAR.
Que seja na forma de discurso direto, envergonhamento contraído, palavra lida, ação feita, exagero impertinente, violência aceita.
Não é meu lugar pra falar.

Não é meu lugar pra falar sobre cotistas.
De políticas igualitárias entre pessoas.
A balança ideal de equilíbrio social e fantasia de um projeto de docilidade de corpos. 
Não é meu lugar de fala para falar desse mês, o que significa para muitos mais que eu.
Não é meu lugar discutir violência policial.
Não é meu lugar questionar o status quo. 
Não é meu lugar puxar uma vertente do feminismo e dialogar.
Ou sequer tentar dialogar.
(Posso dialogar?) 

É minha vez de calar a boca e escutar.
Pelo menos uma vez na vida.
Esquecer por um momento que o meu lugar silencia muitos outros.
Rasura o Outro.
Rasga, retalha, atira com silenciadora ou com bala de borracha espetada de alfinete, chumbinho. Baixa cacetete, canetada, conceitos acadêmicos, diminui direitos conquistados, silenciosamente. 
Não é meu lugar pra falar.

Sequer agir.
Por tudo que considero sagrado, minha língua vernácula que me maltrata a cada pronome de tratamento, não é meu lugar.

A Dor do Outro não é minha.
O choro e ranger de dentes não é meu.
Não é meu lugar pra falar disso.

Mas há.
Está ali.
Existe.

Reconhecer os privilégios para abafar a própria culpa.
Retroceder na fala dos privilégios e escutar.
Calar essa minha boca e escutar.
De uma vez por todas: ESCUTA!

No envergonhamento, na censura, na privação, na vigilância, na obediência, na ameaça pairante de uma silenciadora verbal na minha testa. ESCUTA!

Não é meu lugar pra falar certos tópicos.
E não me atrevo mais.
Não comparo mais.
Não associo mais.
Não relaciono com quê.
Apenas não.

Não é meu lugar.
Não é omissão, é entender que não é meu lugar de fala.
Não é meu íntimo, não é meu corpo, não é meu fardo social comunamente programado para ser exterminado pelo Estado, pelos meus privilégios, pela minha língua materna.

Não sou eu. 
Não é você. 
É o Outro. 
Ele quer falar. 
Ela quer falar. 
A pessoa quer falar. 

Então não é meu lugar pra falar.

abandono à favor de algo edificante.


Então.

Assucedeu-se que para valorizar a minha integridade e saúde mental, resolvi abandonar uma famigerada aula.

A medida drástica se deu devido motivos extremamente importantes que deveríamos discutir mais vezes entre os discentes e docentes. Tipo mansplaining, gaslighting, maninterrupting, anacronismo, falta de responsabilidade social.
A famigerada aula tinha um potencial incrível de fazer a geração da Biblio e Ciências da Informação de contribuírem - mesmo que em menor escala - com as questões de acessibilidade e inclusão digital/social dentro do curso. Temos diversos problemas nesse requisito devido a infraestrutura do centro e do campus, mas com uma disciplina dessas seria promissor realizar um trabalho de campo nos diversos órgãos que o campus possui para facilitar e otimizar a vida de quem antes não era nem cogitado em estar ocupando uma carteira no ensino superior.

Mas aí o que ocorre?
Aquele erro crucial incrível que nós gamers chamamos de #EPICFAIL ao termos um exemplo de o mínimo de didática possível para instigar os estudantes a se aprofundarem nesse assunto. Ou se interessarem. Ou sei lá. Pensar nisso já me causou muitos problemas em anterior experiência. 

Não estou pedindo life changes, apenas fingir.
Sorrir e acenar. 

Desconhecer os órgãos da universidade que promovem Acessibilidade foi o mínimo, o pior foi receber a resposta ao questionar sobre se conhecia os locais (no próprio centro HÁ uma fucking Coordenadoria de Acessibilidade e Inclusão FFS) de que se eu mandasse por email com todas essas informações, ele daria aula sobre elas. 

Detalhe: pros de cinco dígitos na conta todo final do mês, beleza. Legal mesmo é ver a turma de bocós não aprendendo nada edificante pra vida de bibliotequeros. Sim, pessoas, vocês são bocós e estão se prejudicando por não saberem se organizar direito. Por não buscarem seus direitos. Por não levantarem a mão e questionar. Eu sou bocó também. Eu desisti. A bocosidade também me pertence.

Dali já sabia que minha Sanidade não merecia ser minada por incoerência. Dali não apareci mais na aula, e dali minha vida acadêmica foi se tornando bem mais feliz e aceitável. O problema é: com um registro de Frequência Insuficiente não tenho mais direito a estágio na dita universidade no próximo semestre. Se eu pensei bem antes de fazer isso?
Eu sei meus limites.
E os gatilhos.
E igualmente a morosidade das instâncias.
E a desorganização estudantil que meus colegas parecem sádicamente propagar quando algo assim acontece (botar o seu na reta por uma causa de urgência não, arruinar com ensino de qualidade, yep, bora lá!).

Então você que passa por esse aperto em alguma fase do curso de Biblioteconomia da universidade dos Megazords, não se preocupe: proteja a sua saúde mental primeiro.
Pelamoooooor, mantenha sua integridade mental.

[Editando porque olha só final de semestre!]

domingo, 19 de novembro de 2017

a imaginação alimentada - parte 1

A essa fase do jogo da vida (No hardcore) aconteceram 2 coisas emblemáticas para eu me dar conta do que tou fazendo tanto no curso quanto da minha vida de escriba: aulas incríveis com uma pessoa incrível que está me dando ideias mais incríveis ainda (Hellow! Projeto em andamento yoooohooo!), AND estagiar em um laboratório com uma pegada tipo makerspace.

Uma coisa vai ligando na outra, pois me exigem muita, mas muita abstração e sair da caixinha (~le effing caixinha que quase me moldei uns tempos atrás), como por exemplo voltar a montar Lego e jogar games que supostamente EU NÃO DEVERIA voltar a jogar.
(Mas a mente vazia é oficina para ideia errada de Wanderlei, então...)

A mente precisa de estímulos, sério.
Tem gente que encontra isso vendo Tv, fazendo terapia, praticando algum esporte, lendo um bom livro, mas aqui estou, mais de meia noite de uma sexta esperando o server de WoW voltar e catando pecinhas na caixa de Lego que consegui levar da casa de minha mãe (A hipster economista/contábil que adora me zoar...). Por quê? Por quê fazer isso no final do semestre, geeeeeezuis?!

Muito simples: a mente precisa de estímulos, e desde quiança viada em que me entendo, leitura (de todos os tipos, inclusive a musical), games e blocos de montar foram meus principais estímulos para quase tudo, inclusive alfabetização letrada e socialização empática com os outros.

Estávamos a discutir no laboratório awesome sobre como somos alfabetizados e como não lembramos de parte desse processo - o que para surpresa parece virar mecânico no subconsciente e não um processo de aprendizagem. Espero muito que a galera de agora esteja revertendo esse quadro.

Debaixo do link, uma relação entre memórias de alfabetização, blocos de montar, games, imersão e imaginação.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

[bibliotequices] o ser e o estar

Em uma das primeiras páginas do livro Silmarillion [J. R. R. Tolkien], há o relato de quando os elfos surgiram (Loooooonga história até lá! Mas o nome do capítulo é Ainulindalë), eles começaram a dar nome as coisas que viam, porque tudo era novo. E ninguém tinha dado nome pras coisas e informado para eles.

Aquele trem do "ser" e do "estar". No inglês tem a simplificação de "to be" pras duas coisas, logo não dá muito o que pensar/filosofar/dar cricri com isso. O problema é quando no nosso querido português importado/colonizado atribuir o ser ao estar. Ou o estar ao ser.

Dizer que algo é algo é diferente de dizer que algo está algo.
Bibliotecas são bibliotecas é super diferente de bibliotecas estão bibliotecas. O ser (existir) do estar (estado) é um trem tão doido de se matutar que tem gente que perde anos tentando saber separar um do outro ou fazendo teses em cima disso. E não é exagero dessa galera mais filosófica: a palavra que você atribui uma coisa/termo/sentimento/conceito faz TODA diferença.

Em certas estruturas da sociedade o ser e estar estão muito bem colocadinhos em caixinhas tão trancadinhas que insinuar que uma coisa é a mesma coisa que a outra dá problema. Dá troca de tapas. Dá cadeia. Dá confusão de papéis sociais dentro de um contexto.

Fala pra um médico que ele é profissional da saúde e está com título de doutor pra ver o que acontece?! Revoltz geral.

Eu não sou graduandx de Biblioteconomia, eu estou graduando em Biblioteconomia. Essa minha condição, em particular é passageira, temporária, algo que a palavra, o bendito do verbo "estar" me dá vazão para deliberar dele. Eu estou, eu não sou.

Em uma das aulas de grego e tradução que tive anos atrás rolou essa problemática, porque no grego vulgar falado na época do apóstolo João quando fez uma visita aos gregos, o trem de "E no princípio era o Verbo..." a tradução não é literal. O "Verbo" nem existia como palavra naquela época! Então como é que posso atribuir o "verbo" à Deus (Olha o problemão aí!) e no restante dos versículos se o tréco nem existia? A tradução tá errada, então? Não sei, nem pretendo saber, quiriduns, mas o que ficou daquela aula foi: jamais atribua o sentido de uma palavra a uma que necessariamente pode não existir para o contexto da outra.

Tipo, Biblioteca é uma organização.

E palavras tem poder. Muito. A gente da área da Ciência da Informação, da Educação, das Humanas SABE que tem. Se fazemos uso dela ou não, aí são outros quinhentos.

E pra quê vim falar disso aqui?
Porque as discussões que estou lendo/presenciando na graduação então conduzindo a esse viés do "ser" e "estar" que a Biblioteconomia, no caso, as bibliotecas são e estão. E essa confusão entre o ser e estar pode violentar o que é um ideal/conceito/sentimento sobre biblioteca. E abala as convicções de uma pessoa que faz todo um ideal sobre o que É biblioteca e o que isso pode prejudicar ou afastar essa pessoa de ESTAR nessa biblioteca.

(Mas é pra cuidar das pessoas, Morgan! Para de filosofar esses trem e se foca nas pessoas!)

Mas se a gente que ESTÁ estudando quem SERÁ algum dia (Profissional da Informação, gente, não esqueçam), não É importante saber o que raios ESTOU me preparando para SER? Ou onde irei atuar e o que esse conceito/termo/sentimento/ideal É antes de tudo? Saber o que É uma biblioteca não é vivenciar uma biblioteca. Você precisa ESTAR nela, certo? Os dois conceitos se aproximam. Agora me dizer que uma biblioteca É algo que ela não ESTÁ atribuída a SER por inúmeras razões já apresentadas não só pela teoria como por todas as pessoas que a vivenciam não me parece correto. Peraê, corrigindo: não me parece ético.

E quando falamos de Ética é remeter toda a reflexão sobre o que É uma biblioteca - todos os conceitos que a Academia diz, acha que É, acha tá? Nada é estável, tudo está em transformação - e o que o senso comum pensa sobre bibliotecas, chegamos a questão: O que É uma biblioteca?

Se eu não conseguir responder isso em algum momento na minha vida como bibliotecárix, não sei se consigo botar significados de SER e ESTAR em algo que mal entendo como É ou ESTÁ.

Muita coisa para pensar né?
Pode apostar as fichas aí, vai ter mais discussões sobre isso aqui no Blog.

sábado, 11 de novembro de 2017

Eu sonho vidas inteiras de vez em quando

Post levemente patrocinado pela playlist da Sofrência da Alma Torturada que é até bonitinha com umas músicas dos anos 80 que dá pra rir.



Há alguns sonhos que me deixam esgotade quando acordo.

Quando há detalhes demais para absorver, lembrar sem querer, conectar pontos, relaxar no sono e curtir o REM. Nope. Esses sonhos geralmente tomam parte de todo um tempo que não consigo medir exatamente em horas reais, mas que lá, no Mundo Onírico me toma quase uma vida toda. Urrum.

Eu sonho vidas inteiras de vez em quando.

Debaixo do link, mais uma daquelas filosofações após ter sonhos estranhos com detalhes.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

a privação predatória

A tradução tá bem por cima, gente, mas a mensagem... Foi realmente lá onde queria chegar quando penso nessa de socialização de gênero e vivência como pessoa não-binárie e sim o que ando lendo sobre experiências das pessoas nisso tudo - se substituir algumas coisinhas ali, encaixa direitinho em como muit@s vivem.

~ Todas as lésbicas com que falei concordam que uma das coisas mais humilhantes e desmoralizantes é ter uma garota hétero pensando que você está (conversando) vindo até elas simplesmente porque você gosta de garotas e isso ... realmente ferra com nossos relacionamentos platônicos e românticos, porque enquanto as outras garotas se sentam nos colos das outras, e dormem nas mesmas camas e pegam na bunda umas das outras por diversão, estamos colocando tantos muros apenas no caso de nossas amigas héteros (não) acharem que estamos atrás delas.
e por nossa concepção de relacionamentos com outras meninas em geral é tão fodido e reprimido que não temos idéia de como navegar em nossas emoções quando realmente nos atraímos por uma garota e queremos chegar perto.
Vocês reblogando com "as meninas hétero / caras gays experimentam isso também" ... .nah, isso não é sobre pessoas que pensam que você as quer, é uma experiência excepcionalmente atrofiante para lésbicas que estão excluídas do desenvolvimento de amizades e se comportando ao redor de outras garotas de formas em que todos somos socializadas para (entender que), porque nos julgamos / os outros nos julgam como "predatórias"




Esse tópico me é particularmente delicado por ter/ser/absorver esse julgamento de "predatório" sem ao menos fazer jus ao título. O que a heteronormatividade compulsória nos obriga a ter papéis bem distintos e quadradinhos na socialização em grupos específicos, entre os potenciais pares do LGBT apenas consigo visualizar esse distanciamento entre forma de expressar seus sentidos/pensamentos e a forma como é o entendimento exterior.

domingo, 5 de novembro de 2017

[conto com angie] a loja de quinquilharias de Madame Fabulária parte 1

Título: a loja de quinquilharias de Madame Fabulária (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feérico.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 5.974 palavras.
Status: Incompleta - PARTE 1 - PARTE 2 - PARTE 3.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feérico que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x] - sim, vai ter três partes e CROSSOVER! (Porque metade dos esquema já tá rascunhado)
Personagens: Angie, Madame Fabulária, Raine, Prince, Smithens, Nakitsumoto, Tobby, Emílio.
Resumo: A lendária Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária finalmente aportou na metrópole onde os caçadores de quimera vivem. Junto com as esplendorosas maravilhas que o loja pode trazer para os habitantes feéricos, há também certa tensão sobre quais intenções da enigmática e antiga dona do lugar. A regra geral da Loja é: somente entra quem Madame Fabulária quer que entre.



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Entrar na Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária era um segredo para poucos.
A Feérica milenar não deixava qualquer um ultrapassar o solado entre o último degrau da escadinha para o porão de um prédio qualquer da Metrópole. E os poucos escolhidos que entravam ali eram afortunados por algo que nenhum outro local na grande cidadela poderia oferecer: glamour dos tempos antigos, produtos exóticos, artefatos lendários de imenso poder ou apenas de enfeite.

Madame Fabulária era uma lenda entre os mais velhos, até entre os mais sábios lembravam em como ela havia chegado ali naquela mesma cidade, sem nenhum plano ou apresentação formal a hierarquia. Encontrou o porão de prédio ocupado por um empório de um turco falido, decidiu casar com o cara e pronto, se instalou como a "Madame que tudo sabia".

Poucos discordavam com essa versão da história. 
Era difícil ter uma versão verídica de como os Feéricos mais antigos chegavam na Metrópole justamente por não haver registros escritos na principal Casa dos Saberes sobre o assunto. Tirar essa história da pessoa em si era mais extenuante ainda (Se não, perigoso demais.).

A Madame continuava a mesma de quando chegou. 
Baixinha, um pouco curva no lado esquerdo do ombro, olhinhos puxados com aquele resquício de desconfiança da idade, cabelos volumosos de cor vermelho rúbio que jamais saíam do tom. As roupas traziam uma mescla de sua descendência feérica das terras desérticas e os exóticos apetrechos da cultura do oriente dos Filhos-mais-novos. Ela não escondia seu orgulho por pertencer a ambas culturas e por muitas vezes entrou em brigas políticas devido suas opiniões mais fortes nos Conselhos. Por ter esse privilégio adquirido por anos de experiência, Madame Fabulária sempre dava a última palavra em tudo que acontecia dentro de sua loja (Em outros lugares também, mas poucos comentavam). 

E os preços também. 
Devido a esse pequeno detalhe que fez Ângela Filha dos Ventos entrar pela primeira vez na Loja com passos apressados, apontar para algo na vitrine empoeirada e cheia de teias de aranha e exclamar com voz esganiçada:

- Tia, tá maluca de cobrar três mil pila por sementes de girassol flamejante?! - a reação da senhora atrás do balcão, lixando as unhas impecáveis e contando moedas douradas foi de desprezo fingido. Ela nunca havia visto aquela menina na sua longa vida e muito menos dado permissão para ela pisar dentro da loja. Essa era a regra primordial: somente entra quem Madame Fabulária quer que entre. A menina era a exceção. Por que depois de tanto tempo naquele lugar a regra criara uma exceção?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

[bibliotequices] sonhos megalomaníacos para a docência de(s)cente

Essa postagem começa com emblemático vilão dúbio das Meninas Superpoderosas
Quero dar aula.
Pronto.

Já tava decidido faz um tempo.
Fui e voltei na decisão.
As perguntas foram muitas.
Será que tal lugar comporta a linha de raciocínio que gosto de me expressar?
Será que devo me adequar a todo um procedimento encaixotado padrão que vai matar os estudantes de tédio e eu de ansiedade?
Será que devo voltar pra onde me formei e fazer parte desse núcleo exclusivista para uma certa área do conhecimento e que esquece que a gente tá formando gente pra cuidar de gente que possivelmente vai mudar o mundo?
Será que tenho paciência pra aturar a burocracia do ensino superior?

Tudo pode ser respondido com uma música apenas. E foi daí que parti em interligar os aprendizados nas aulas, junto com aquela avaliaçãozinha discreta dos docentes que estão moldando meu serzinho para algo lá no futuro AND como o sistema universitário poderia manter minha Sanidade em cheque (e a conta bancária também, né?). Vale a pena?

Até onde estou vendo sim. Vale MUITO a pena.

Os sonhos megalomaníacos para daqui algumas décadas não é só ser le tiezinhe da referência e do café, mas também aquela pessoa que quando citam em trabalhos acadêmicos, orientadores botam as mãos na testa, sentem espasmos e viram pros seus orientandos e dizem:
" - Cê tem certeza que quer citar MORGAN?" ou " - Te peço, por favor, por tudo que passamos juntos aqui, muda de referencial teórico!" ou ainda mais " - Vai citar MORGAN? DESAFIO ACEITO!"

E aí na apuração final da banca sempre haverá aquele silêncio constrangedor ou pausa dramática antes de: " - Então, vi que você decidiu citar MORGAN (2042)... Por que essa decisão inusitada?" ou "Sabe, o referencial teórico estava ótimo, bem estruturado e coerente, mas aí você citou MORGAN... Você tem certeza disso, não é?"

Quero ser aquela pessoa que quando vão ver o Currículo Lattes perguntem na metade da leitura técnica: "WTF essa pessoa foi fazer na Biblioteconomia?" ou melhor "Véi, essa criatura pesquisou ISSO? E ISSO? Como é que passou em banca de..."

Quero finalizar meu pós-doc fazendo uma dança interpretativa da minha conclusão.
E ninguém entender. Será uma piada interna que poucos entenderão.

Quero ser aquele-que-não-deve-ser-nomeade em reuniões acadêmicas, mas que é sempre bom lembrar que existe. Não porque toca o terror, é autoritário, faz a caveira dos outros, mas porque não parece polido mencionar que estou ali. 
Tipo, porque quando rolar pesquisa com coisa que já produzi nesse meio tempo, espero causar estrago nas bases tradicionalistas engessadas acadêmicas, aqueles estragos que dão certo pra comunidade, pras pessoas que não tem acesso a universidade, aquele estrago que não produz dinheiro ou status. O estrago que a universidade e os catedráticos não gostam sequer de pensar que docentes podem fazer lá fora.

Quero ser docente que chega na sala de aula e deixa um misto de "Powha vou ter aula com aquela criatura hoje..." junto com "Caraca, tenho aula com aquele-que-não-deve-ser-nomeado... Que sortudo de uma figa que sou!" - Quero as aulas de segunda. E que os estudantes fiquem até o final por gostarem de estar ali na aula, por acharem relevantes as maluquices que irei tratar e relacionar com o curso, a profissão, o fazer algo que preste pra sociedade.

Aliás, não quero alunos, quero pessoas parceiras que pensem comigo, abertamente, sem fronteiras, sem exclusivismo, sem mania de grandeza produtiva. Quero formar bibliotecári@s desde a primeira fase até a última, pra entenderem que sim, o curso pode sim te dar ferramentas, modos e visões de enxergar o mundo das bibliotecas e afins com algo a mais. Quero giz de cera e papéis A4. Avaliação? Que tal autorreflexão sobre o que aprendemos ou não? Redação de livre associação?

Por que não usar o exercício da Ágora de defesa de argumentos?

Não quero ser o motivo de gente perder o sono pra estudar madrugada afora.
Não quero gabar meus títulos e honorários, e louros e floreios e borrões.
Não quero ser chamada de doutora professora, quero que me chamem pelo nome.
Não quero ficar subindo em tabelinha de ranking de produção.
Aliás, não quero produzir nada substancial pra área a não ser a prática que farei dentro das bibliotecas junto com outras pessoas maravilhosas.
Não quero estrelinha da Scopus.
Não quero citação na Web of Science.
Não quero que façam pesquisa bibliométrica sobre o que escrevo.
Não desejarei a aposentadoria tão cedo.
E vão sempre me perguntar quando é que vou aposentar.
" - Chuchuzim, demorei mais de 6 anos pra me formar na graduação... Cê tá pedindo demais né?"

E aí quando forem ler meu Currículo Lattes de novo vão ver que em outras produções ou participação em bancas, eventos e projetos de extensão tem mais coisa que não bate com a área. Que fiz trabalho até em lugar que não devia, com gente que nem deveria ter acesso à informação. Que peguem minhas referências ou não usem, pois é muita covardia ou muita coragem. Quase um Gregório de Matos.

aquele momento de supercorp trash na vida de fã

Oi,


Apenas passando aqui pra dizer que o último episódio de Supergirl me distraiu tanto com a questão "workshipping" Kara e innuendos sobre Personal Jesus pra Lena que nem prestei atenção no restante do contexto. Até esqueci que Sanvers vai acabar no próximo episódio, pois a Floriana Lima resolveu sair do seriado.

Just FYI: uma aba aberta aqui com cerca de Supercorp fanfics (4.547 até então), sendo temática BDSM (80), parece que Dom!Lena (21) e Sub!Kara (36) é mais elevado que Dom!Kara (13) e Sub!Lena (7).


Nem preciso dizer o quanto os roteiristas são PÉSSIMOS em entender que tudo pode virar regra 34 e se o episódio lastimável da Comic-con em julho serviu de aviso pra gente que acompanha a série a não servir de queerbait pra esse povo, então apenas parem de colocar hints de que algo vai acontecer.

É que nem Once Upon a Time entre SwanQueen. Tá lá, tá na cara, tem pausas dramáticas, olhares fulminantes trocados, mas não acontece nada devido a hetenormatividade compulsória impregnada nos enredos. Nem vou entrar em detalhes quanto a Bering&Wells: foi a minha primeira lição de que a Tv NÃO ESTÁ preparada para lidar seriamente com casais homoafetivos e as implicações desses no cotidiano de um seriado. 

Tá difícil de ser nerd assim.

[EDITANDO: Aí Lena Luthor Trash fez a recap do episódio e BOOM! Headcanon comprovado só ali - porque a CW NÃO VAI fazer isso]