Pesquisando

quarta-feira, 18 de abril de 2018

[bibliotequices] sobre leituras, pesquisas generalizadas e grandes negócios

Já havia falado um pouco sobre minha indignação sobre incentivo a leitura que a maioria costuma postular junto à meritocracia da sociedade contemporânea (como se fosse algo novo!) e a mea culpa dos bibliotequero nas parada.

A máxima que mais escuto e leio é aquela do "Brasileiro não lê" e aí que sobe o sangue congelado pras ventoinhas. Vamos ser realistas que a vida costuma ser mais fácil de entender assim do que ir pro fatalismo ou pessimismo.

Quando alguém diz que brasileiro não lê podem estar pautados em dados estratégicos de certa pesquisa de certa entidade em que certas editoras brasileiras (um conglomerado editorial por assim dizer) gostam de divulgar. E acham que estão fazendo um belo serviço pra sociedade ao estamparem o quanto somos prejudicados por "não estarmos lendo". Vou resmungar um pouco mais abaixo.

A certa pesquisa serve de parâmetro pra gente da Biblioteconomia, pois caracteriza nosso objeto de trabalho: o livro impresso.

O problema começa aí.
Debaixo do link tem aquele registro fotográfico da ação de ler em território nacional (Sim, isso foi eufemismo).



O livro impresso já deixou de ser nosso objeto de trabalho faz um tempão, a informação sim e o mais relevante: o ser humano leitor que usa o espaço da biblioteca ou unidades de informação para saciar suas dúvidas e necessidades básicas de Educação informal ou formal.

O livro é uma ferramenta, não o produto final. A certa pesquisa NÃO trata de pessoas, mas sim de números coletados pelas certas editoras de quanto livros são publicados e comercializados para o público. Então em outras linhas, a pesquisa tem o viés de saber se Brasil tem poder aquisitivo pra comprar livros. Não tem, óbvio.

Pra que então existem bibliotecas?

Mais outro dilema da nossa classe dispersa, sonolenta e desunida. A gente não entendeu ainda que o consumir informação é diferente de deter informações. A gente das bibliotecas não detém powha nenhuma, a gente dá condições de acesso livre e democrático pra TODO MUNDO.

Anota com canetinha permanente na sua testa: é PARA TODOS, não só pra quem compra.
Porque óia só a lógica: a pessoa não tem dinheiro pra comprar livro, entrar na Internet pra enviar um currículo ou procurar vaga de emprego, saber as notícias do dia nos jornais ou revistas, pronde ela deveria se encaminhar? Biblioteca, porque lá que seria garantido que ela teria acesso a informação que precisa. Pelo menos é o que a gente precisa assegurar, que quando essa pessoa chegar, vai ter coisa pra ela usar.

A certa pesquisa também tem uma tendência de quantificar livros vendidos (embutido no discurso de "brasileiro não lê") junto com a qualidade da educação formal recebida por público X.

Oras!
Oras!
Onde cês acham que vai ter um desenvolvimento melhor da leitura e logo a premissa de que "olha, a gente aqui no Sudeste lê!"?
Precisa desenhar, fazer gráfico? Talvez um meme?

Isso é de certa forma agredir as tentativas de melhoria na Educação brasileira - e hey tivemos um iceberg de 20 anos de atraso nas fuças em 2016, lembram? Os paneleiros devem lembrar bem já que ajudaram a puxar o iceberg - ao generalizar que se brasileiro NÃO COMPRA LIVRO pra ler, logo é menos desenvolvido educacionalmente.

Adivinha quais regiões brasileiras ficam em déficit sempre?
Urrum, essas mesmo. Que reaça adora dizer que não presta pra muita coisa e só sabe votar nos esquerdistas.

Vamos repassar esse discurso então para onde? Professores. Aí eles vão ler isso e se sentirem MAIS inúteis que o sistema faz com que se sintam. Pra quê fazer campanhas de incentivo a leitura se já tem dizendo o óbvio? Meus alunos não leem, eu também não leio. Por que? Porque de acordo com esse estudo aqui de entidade renomada de editoras renomadas brasileiro não lê.

E não lê.
Não lê livros que são comprados na indústria editorial.
Pronto, fechou.

Ah! E quem faz isso é uma fatia da população que está alojada na classe média dominante com nível de Educação Superior (de qualidade e tempo) que o resto. E por coincidência essa parcela é que ingressa no ensino superior com mais facilidade que o resto. E oh! Oh! Mais outra coincidência! Essa parcela NÃO TEM vontade alguma em compartilhar o que aprenderam durante os anos de educação formal ótima com o resto. Os poucos que fazem isso estão nas licenciaturas e graduações voltadas para Educação nas mesmas faculdades que formam poucos professores praticantes por ano.
(Tá dando pra acompanhar? Não consegui fazer o meme a tempo pra ilustrar)

Brasileiro lê o tempo todo, qualquer pessoa lê o tempo todo. O ato de leitura vai além da leitura formal canonizada pela essa herança europeia mutiladora que aguentamos até hoje. Há atos de leitura que envolvem mais que segurar um pedaço de árvore morta empilhada e processada nas mãos e forçar os globos oculares, fazer a síntese de palavras na cabeça e reelaborar em conhecimento.

Véi tem tanta coisa envolvida nesse processo todo!
(Psicolinguística que nos fala)

Mas tá lá carimbado, "brasileiro não lê", porque não compra livros. Daí pode inferir um tanto de coisa, inclusive que porque não ter o hábito de leitura formal (aka livros impressos) brasileiros vão votar em certo candidato neofascista consagrado pela elite excludente. Ou porque é por isso que o Nordeste - por ser a região mais carente de investimentos em tudo neste país - dá preferência à candidato tal populista.

Onde entram a classe bibliotecária nisso?
Somos cães da manutenção do sistema, certo. Não adianta chiar, somos formados pra desenvolver técnicas de acesso à informação que apenas poucos irão aproveitar 50%, olha pro nosso currículo e disciplinas e conte nos dedos quantas são direcionadas pra mexer com gente de baixa renda, analfabeta, em situação real de risco e é constantemente assassinada ideologicamente e literalmente pelo sistema.

O meu teve 3 disciplinas direcionadas, 1 consegui fazer com muita felicidade e a outra não encaixou nos horários já bagunçados do sistema burocrático, a outra foi o meu motivo de desistir de vez de tentar compreender com olhos gentis como meu curso maneja essa problematização de acesso à informação Acessibilidade e Inclusão. Adivinha o que ocupou a grade? Urrum, disciplinas voltadas para gestão administrativa de processos. Os mesmos processos que excluem, afundam qualquer sonho mínimo de mudança social, diretas ao ponto de "mantenha tudo como está que é melhor para seu bem estar social" OU o melhor aproveitamento de "aprenda a ser extremamente eficiente em organizar coisas para não contribuir com nada para a sociedade".

A nossa classe não tá acordando pro óbvio ou tá tímida demais pra gritar mais alto que o estrelismo acadêmico. Ao reforçar essa falácia tão incisiva da tal pesquisa é ferrar mais ainda com uma chance mínima de fazer algo substancial pra comunidade. Ao embutir terminantemente que nossa comunidade não lê, logo não vai usar a biblioteca ou qualquer centro de informação onde eu esteja atuando, tou dando mais razões pra minarem qualquer incentivo a leitura que desperte o lado cidadão das pessoas.

Sendo fatalista?
Eu como bibliotecário tou só esperando o público dar um passo a frente, e tou ajeitando o nó da forca que o sistema adora armar pra espetáculo ou pra higienizacao da população. Não sou o carrasco, mas tenho cadeira VIP na execução.

É isso que me faz querer cometer homicídio acadêmico quando vejo alguém da minha área dizer quase que batendo no peito de orgulho/desgosto ao repetir essa do "brasileiro não lê".

Quem não lê o mundo é você, calhorda!
Tão estudando pra saber ignorar é?

Por que as iniciativas envolvendo leitura, cultura e cidadania incríveis em lugares hostis são encabeçadas por gente fora de nossa área?! - essa foi uma pergunta constante que incomodou uma pessoa querida que admiro demais o trabalho em bibliotecas e sala de aula. E ao estar aqui, 4 anos, percorrendo os corredores do curso ou estagiando e me inteirando com a classe, a pergunta vem na forma de "Por que líderes de bibliotecas improvisadas e comunitárias se sobressaem em seu trabalho, melhor que esses almofadinhas com diploma em Biblioteconomia e resmungando ao pagar CRB?".

Tem que haver uma razão por conta disso e a gente não tá sabendo escancarar.
A gente é cão do sistema mesmo e vamos deixar que a Educação do país vá pro ralo e ameaçar nossa profissão de se tornar uma especialidade que apenas empresas e universidades podem comportar?!

Então assim, brasileiro lê sim tá.
Não como as grandes editoras adorariam estar lucrando em cima do salário de miséria da grande parcela da população, mas brasileiro lê sim. E a gente que estamos à frente desse processo de ajudá-los a ter acesso deveríamos parar de repetir a falácia e se autossabotar.