Pesquisando

Mostrando postagens com marcador bibliotecas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador bibliotecas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de março de 2018

[bibliotequices] biblioteca-fígado

Algo que anda martelando na minha cabeça foi a fala de um estudante ontem ao se perguntar sobre biblioteca escolar dentro de sua escola:
"Mas a biblioteca não é a escola também? Tem diferença?"

E eu na hora não peguei o filosofamento e as respostas dos colegas, mas a frase ficou aqui, guardadinha no sótão pra averiguação posterior.

A pergunta ali é pertinente quando a gente vai tentar pensar em ações feitas pela e para a biblioteca dentro do ambiente escolar. Por experiência vivenciei na maioria "bibliotecas anexo" como o almoxarifado ou sei lá, a quadra esportiva. Fazem parte da escola, mas não necessariamente precisam estar contidas ali. Tanto que muitos Projetos Políticos Pedagógicos sequer incluem bibliotecas por acharem que bem, se tá ali dentro é mais outra sala de aula.

O trem não é assim, gente.
Mais bom senso.

Então quando se encontra uma "biblioteca anexo" é sempre importante bater o pé, fixar uma bandeirinha na porta e ir lá conversar com administrativo e pedagógico para incluir a biblioteca como algo que faz parte da escola, das aulas, da comunidade escolar. Não é "biblioteca apêndice" - porque apêndice eu posso arrancar caso tenha problema nele - mas "biblioteca órgão", eu gosto de chamar de "biblioteca fígado", pois é o local que filtra tudo que acontece no ambiente escolar.

Graças que em todos os estágios em que pude estar tinha esse esforço hercúleo dos responsáveis em tornar a biblioteca um lugar de convívio que não resumisse no simples depósito de livros que tanto acostumei por sempre estudar no sistema de ensino público estadual (Não só daqui, mas de MG principalmente).

Quando a "biblioteca anexo" vira "biblioteca órgão", um espaço que a escola não consegue viver sem, aí sim pode ter certeza que estamos no caminho certo. Por isso o trabalho de formiguinha - como a linda da Spudeit falou comigo uns dias desses - por isso não desistir na primeira fechada de porta. Há outras maneiras de se tornar protagonista uma biblioteca anexo, estagiário tem como fazer isso de um modo bem bacana: converse com as pessoas com quem você trabalha.

Todos os dias. Lembre a eles que a biblioteca é legal e que dá para fazer muitas coisas ali durante sua estadia como estagiário temporário. Da galera da limpeza na hora do descanso que precisa de um lugarzinho pra sentar, lembre que a biblioteca tá aberta pra todo mundo, das merendeiras gente boa nos intervalos entre as tarefas, pergunta o que elas gostam de ler ou ver na Tv? Leve uma caixinha de revistas, o jornal do dia, pergunte se elas tem filhos que precisam de livros que talvez a biblioteca tenha. Pergunte se elas precisam de livros para estudar.

Os professores? Vá lá filar um cafézim e biscoito, vai chegando de mansinho e pergunta se alguém precisa de algum material para pesquisa em sala de aula. fale dos serviços disponíveis, tem caixa de recortes? Mesas maiores para desenhar na aula de Artes? Espaço para mostrar mapas para aulas de História e Geografia? Trata de perder a vergonha e gruda em quem dá aulas de Português, eles são a ponte principal para os estudantes e biblioteca. Tem material geométrico lá pegando poeira, chama quem dá aula de Matemática, Física, Química. 

Dá para chegar em todas as disciplinas em alguns momentos de boa conversa e o mais importante: saber que o que cê tá fazendo é para o bem de todo mundo ali naquela escola, a biblioteca é sem dúvida a melhor coisa que uma escola pode ter.

Foi mal, mas é.
Ninguém me convence ao contrário.

E o que pesa mais pra gente que tá na base, da base, da base: os administradores. Como fazer com que eles saibam a importância da biblioteca? Fazendo hora-extra? Sendo todo regradinho e quebrando galhos? Não gente, é sendo participativo com o cotidiano na escola. Reunião de pais e alunos? Vai, dá um jeito, mas vai. Levanta a mão e dá o informe que a biblioteca tá aberta para todos, que é de todos e você tá ali para facilitar o acesso de todo mundo nesse lugar. Reunião pedagógica? Vai também. Dá as ideias de "Hey por que não fazer a reunião aqui na biblioteca?", apertando todo mundo dá. Estar no lugar dá um impacto maior que apenas falar dele. Participe das festividades, mesmo se você for antissocial. Eu sei, é difícil, mas perder a chance de conhecer seu público com mais sutileza? É bom demais para deixar escapar.

Atenda alunos esbaforidos fora de hora, vale a pena cada segundo. Use os espaços comuns dos alunos, dê uma voltinha no pátio, use o banheiro deles, dê informações inúteis, mas curiosas "Hey, você tirando foto na frente do espelho, cuidado que podem roubar sua alma." (informe depois o contexto que era uma superstição no começo do uso da fotografia, dê aquele empurrãozinho intelectual para os estudantes irem lá pesquisar sobre isso). Ouça as conversinhas de dentro de biblioteca, sim, faça na cara dura e com atenção. Tem informações tão importantes ali quanto o de preencher questionário de estudo de usuários. No empréstimo pergunte se o estudante gosta desse tipo de livro, indique outra prateleira caso gostar, na devolução pergunta se ele gostou, quer mais um? 

Faça o favor de pelo menos ler os títulos que saem mais, os infantis são mais levinhos, em menos de 15 minutos, pá-pum. Se for infanto-juvenil, dá aquela folheada, pesquise no Google quando der, jornal do dia? Yep, leia. É ruim pra cacete? Leia mais ainda. Revistas que chegam? Dá uma olhada nas matérias, deixa à mostra nas mesas.

A biblioteca não tá bagunçada, está a disposição. Deixa as mesas ocupadas com livros de tudo quanto é jeito, revistas, pelamooooor se tiver jogos em tabuleiro DEIXA À MOSTRA! Chama atenção, criançada gosta quando está assim, informal, nada de pedir permissão para mexer em algo que é para a aprendizagem delas.

Peça gentileza a quem é responsável se você pode atender no recreio. É a melhor hora de fazer na prática o que tanto somos treinados na academia. Justifique que são 15 minutos que os estudantes tem para entregar e pegar livros, verificar as novidades, falar besteira pra você filtrar e usar como forma de cativar a atenção deles na próxima vinda.

USE LIVROS INÚTEIS COMO PESO DE PORTA, livro pesado que não sai mais há um tempão? Enciclopédia com 1cm de poeira? Livro didático maldito? Tem várias opções, árvore de natal, escultura pós-moderna, suporte de estante, banquinho pra quiançada, empilha tudo na frente do balcão e diz que construiu um forte contra *insira aqui o antagonista de desenho animado, filme, série que eles assistem* e só estava esperando a turma chegar para fazer planos de como derrotá-lo. Visite o almoxarifado, pergunte se tem material ali que eles não usam mais. Faça estripulias com TNT, papel crepom, cola, cartolina, clipes e sei lá... esqueletos de laboratório de Ciências. Mesmo se der errado e ficar horrível. Faz mesmo assim. Incentive os estudantes a explorarem suas habilidades artísticas, deixe papel de rascunho e lápis nas mesas. Pergunte se eles querem que você exponha nas paredes da biblioteca, sem medos de ser feliz. Desenhe você também, não tenha medo de incentivar neles algo que é repreendido em sala de aula.

Tr00lle com eles se possível. Lembre de quando você tinha a mesma idade. Vocês são estudantes, estão no mesmo nível de base na hierarquia escolar. A única diferença é que você tem mais responsabilidades (E boletos) que ele. Mas na essência, no jogo do aprendizado e do saber? Somos iguais.

Todo mundo na biblioteca é igual. Bota isso na cabeça.

Tenha seu supervisor de estágio (bibliotecário, oremos) nos seus contatos diretos do celular. A pessoa tá ali pra te dar as instruções, mas também para haver uma troca bacana de conhecimento, de vivências, de convívio. Ela também sofre pra caramba nesse ambiente por falta de incentivo, valorização, autorrealização. Ria com a pessoa, chore às vezes também. Pergunte quando tiver dúvidas, compare o que você faz no estágio com tudo que você aprende em sala de aula, questione tudo que você NÃO VER em sala de aula e que a Realidade te mostra todo dia.

Decore nomes, faces, gostos. Faz diferença. Se envolva, caramba! Não custa nada, ajuda no teu desenvolvimento profissional e pessoal. Não tem nada a perder. Torna até o ambiente de trabalho mais tolerável em tempos tão incertos na Educação Brasileira.

E a recomendação que me deram no começo do estágio e que repasso para todos colegas que estiverem em bibliotecas escolares: é aqui que a gente muda o mundo. 

Todas as ferramentas estão ali, todas as competências que podemos usar também. É talvez a 1ª e última experiência de ambiente acadêmico que essa criançada pode ter na vida inteira, faça valer a pena pra eles, pra ti que não teve a mesma atenção quando mais novo.

A recompensa (se é que devo colocar assim) é fazer essa criançada voltar no dia seguinte, ávida por conhecimento, leitura ou só para falar bobagem.

Ps: ao carregar livros didáticos ou qualquer trambolho pesado, use os joelhos, não as costas como apoio para levantar. A coluna agradece! :)

Ps²: a todas as supervisoras de estágio que já tive, muito obrigade. Vocês me deram mais oportunidades de crescer como ser humano do que eu esperava <3

sábado, 10 de fevereiro de 2018

[estrada para o éden] projeto novo de escrivinhação


Estrada para o Éden (6843 words) by brmorgan
Chapters: 3/?
Fandom: Original Work
Rating: Teen And Up Audiences
Characters: Jordana "Marga" Margaret, Original Characters, Timothy, Gloria, Reginaldo "Regis"
Additional Tags: sobrenatural, biblioteca, bibliotecária, Past Lives
Summary:
Uma bibliotecária senhorinha, Jordana "Marga" Raelsin - com seus tiques e afazeres infinitos na biblioteca infanto-juvenil do bairro onde nasceu e morou desde sempre - é atingida na cabeça com um sapato enfeitado de um dos desfiles do Mardi Gras em Nova Orleans e acorda no meio da multidão como uma criança de 10 anos.
Muitos mistérios, achados e perdidos, piadinhas de bibliotecários, serviços de referência e processamento técnico, além daquele plot sobrenatural que todo residente em Nova Orleans deve ter para contar nos dias de Carnaval.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

[bibliotequices] o ser e o estar

Em uma das primeiras páginas do livro Silmarillion [J. R. R. Tolkien], há o relato de quando os elfos surgiram (Loooooonga história até lá! Mas o nome do capítulo é Ainulindalë), eles começaram a dar nome as coisas que viam, porque tudo era novo. E ninguém tinha dado nome pras coisas e informado para eles.

Aquele trem do "ser" e do "estar". No inglês tem a simplificação de "to be" pras duas coisas, logo não dá muito o que pensar/filosofar/dar cricri com isso. O problema é quando no nosso querido português importado/colonizado atribuir o ser ao estar. Ou o estar ao ser.

Dizer que algo é algo é diferente de dizer que algo está algo.
Bibliotecas são bibliotecas é super diferente de bibliotecas estão bibliotecas. O ser (existir) do estar (estado) é um trem tão doido de se matutar que tem gente que perde anos tentando saber separar um do outro ou fazendo teses em cima disso. E não é exagero dessa galera mais filosófica: a palavra que você atribui uma coisa/termo/sentimento/conceito faz TODA diferença.

Em certas estruturas da sociedade o ser e estar estão muito bem colocadinhos em caixinhas tão trancadinhas que insinuar que uma coisa é a mesma coisa que a outra dá problema. Dá troca de tapas. Dá cadeia. Dá confusão de papéis sociais dentro de um contexto.

Fala pra um médico que ele é profissional da saúde e está com título de doutor pra ver o que acontece?! Revoltz geral.

Eu não sou graduandx de Biblioteconomia, eu estou graduando em Biblioteconomia. Essa minha condição, em particular é passageira, temporária, algo que a palavra, o bendito do verbo "estar" me dá vazão para deliberar dele. Eu estou, eu não sou.

Em uma das aulas de grego e tradução que tive anos atrás rolou essa problemática, porque no grego vulgar falado na época do apóstolo João quando fez uma visita aos gregos, o trem de "E no princípio era o Verbo..." a tradução não é literal. O "Verbo" nem existia como palavra naquela época! Então como é que posso atribuir o "verbo" à Deus (Olha o problemão aí!) e no restante dos versículos se o tréco nem existia? A tradução tá errada, então? Não sei, nem pretendo saber, quiriduns, mas o que ficou daquela aula foi: jamais atribua o sentido de uma palavra a uma que necessariamente pode não existir para o contexto da outra.

Tipo, Biblioteca é uma organização.

E palavras tem poder. Muito. A gente da área da Ciência da Informação, da Educação, das Humanas SABE que tem. Se fazemos uso dela ou não, aí são outros quinhentos.

E pra quê vim falar disso aqui?
Porque as discussões que estou lendo/presenciando na graduação então conduzindo a esse viés do "ser" e "estar" que a Biblioteconomia, no caso, as bibliotecas são e estão. E essa confusão entre o ser e estar pode violentar o que é um ideal/conceito/sentimento sobre biblioteca. E abala as convicções de uma pessoa que faz todo um ideal sobre o que É biblioteca e o que isso pode prejudicar ou afastar essa pessoa de ESTAR nessa biblioteca.

(Mas é pra cuidar das pessoas, Morgan! Para de filosofar esses trem e se foca nas pessoas!)

Mas se a gente que ESTÁ estudando quem SERÁ algum dia (Profissional da Informação, gente, não esqueçam), não É importante saber o que raios ESTOU me preparando para SER? Ou onde irei atuar e o que esse conceito/termo/sentimento/ideal É antes de tudo? Saber o que É uma biblioteca não é vivenciar uma biblioteca. Você precisa ESTAR nela, certo? Os dois conceitos se aproximam. Agora me dizer que uma biblioteca É algo que ela não ESTÁ atribuída a SER por inúmeras razões já apresentadas não só pela teoria como por todas as pessoas que a vivenciam não me parece correto. Peraê, corrigindo: não me parece ético.

E quando falamos de Ética é remeter toda a reflexão sobre o que É uma biblioteca - todos os conceitos que a Academia diz, acha que É, acha tá? Nada é estável, tudo está em transformação - e o que o senso comum pensa sobre bibliotecas, chegamos a questão: O que É uma biblioteca?

Se eu não conseguir responder isso em algum momento na minha vida como bibliotecárix, não sei se consigo botar significados de SER e ESTAR em algo que mal entendo como É ou ESTÁ.

Muita coisa para pensar né?
Pode apostar as fichas aí, vai ter mais discussões sobre isso aqui no Blog.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

[contos] menina das estantes

Título: menina da estante (por BRMorgan)
Cenário:  Original/Cotidiano.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 352 palavras.
Status: Completa.

Percebo tímida no trato
Curiosa no olhar
Observa cada milímetro de poeira
Pregada na lombada do livro mais velho
No cheirinho novo do papel não usado
Livros são seu carinho diário
Provavelmente seu conforto

Material de estudos nas mãos
Lápis meio comido na ponta
Borracha riscada de tentativas
No fundo do estojo giz de cera
Lápis de cores incertas
Tem mais roxo que verde ou
Vermelho e um preto que confunde com lápis de verdade
Apaga apaga apaga com vontade
Outro problema do livro bendito
Cartilha de bons modos, impresso especialmente
Pra não dar voz aos seus

Apaga apaga apaga
Borra de borracha espalhando na mesa cheia de coisinhas
Tantos livros como aquele
Um caderno estufado de tanta escrivinhança
O apagar da borracha faz com que o papel engrosse
Página testemunha de um erro ínfimo do problema do bendito livro
Ou confundiu o lápis de cor com lápis de novo

Entre as estantes, caminha, observando atenta
Quem vem e quem vai
Livro qualquer na mão mesmo que não tenha idade pra tanta letra
Entre uma prateleira e outra descobre
Uma pequena miragem do que é ser gente grande 
Apaga apaga apaga no caderno estufado
Nervosismo
O problema não é tão fácil assim

Vem ao balcão, tímida no trato, curiosa no olhar
Pede atenção, uma ajudinha,
Não liga pra minha letra não
Não olha meus desenho não
Não percebe nas páginas fofas de tanto esfrega borracha não
Nunca acerto de primeira
Nunca resolvo de primeira
Nunca consigo saber o que é coisa com coisa
O que você faz tanto lendo número nos livros?
Posso ajudar?

E o exercício esquecido com meia página já rabiscada de cálculos que são tão esquecidos quando se cresce
Na biblioteca ela vem todo dia estudar
Pra estudar a gente e mais gente
Observar cada milímetro de poeira, de grafite, de clipe solto, de bilhetinhos de lembretes, de canetas sem tampa, aqui ela fica
Percebo tímida no trato
Curiosa no olhar
Observa cada milímetro de poeira
Pregada na lombada do livro mais velho
No cheirinho novo do papel não usado
Livros são seu carinho diário
Provavelmente seu único conforto