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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

[bibliotequices] e onde vão nossos sonhos fagocitados?

Tem essa música do Tom Zé que não saiu da minha cabeça o dia todo. O nome é em homenagem a atriz francesa Brigitte Bardot. A letra pode ser interpretada de diversas maneiras, mas quando eu tava pensando sobre o bendito curso que decidi seguir e fazer minha vida, então se mudar o nome dela dali e colocar como "Biblioteconomia", fica perfeito.

Essa música ficou polêmica não só pelo fato de ser do álbum "Todos os Olhos" com a capa mais polêmica que passou pela censura da Ditadura pelo viés ambíguo, mas por Tom Zé mexer no áudio na gravação para suprimir a palavra proibida daquele tempo (E do nosso também) para efeito dramático. Ele ainda faz isso nos shows.



Tem uma parte nessa música que me remete como a nossa profissão graduou uma premissa de todo sonhador, com grandes planos de fazer o mundo melhor, como fracassada:

Biblioteca não salva ninguém.

(Biblioteca não dá dinheiro)

Escola, por exemplo, pode produzir dinheiro e garantir a manutenção do sistema dominante, pode até ser a medida mais ousada de "talvez um ou dois nesses 50" vai ser alguém na vida. Professor sofre esse dilema diariamente, aqueles que colocam o sonho/vontade de mudar acima de seus próprios necessidades.

As crianças são o futuro da nação.

Eu gosto dessa frase, me dava um senso de missão com a minha vida de poucos anos, pois era como se eu e meus coleguinhas de sala pudéssemos realmente efetivamente fazer diferença no mundo. Bem sonhador mesmo, conseguir a paz mundial, igualdade social, ninguém passa frio, fome e sede, aquelas coisas que concursos de miss gostam de perpetuar nas nossos inconscientes. E eu cresci, meus coleguinhas também. E a gente não fez/faz diferença alguma pro sistema. 

Na Educação tem esse Paradoxo quase imediato de você ser o agente de mudança (e ter instrumento para tal), mas também manter os cordeirinhos dentro do cercado. Se dentro de sala de aula existe a autonomia do professor sobre o que fazer, dentro de uma Biblioteca deveria ser da mesma forma, não? Porque bibliotecas são espaços culturais e educacionais, não? Porque é lá que as pessoas vão estudar, certo? Não? É muito louco pensar em bibliotecas dessa forma?

É aí que quero chegar: a nossa área não tem grandes sonhos pra implantar na cabeça dos graduandos. A gente não sai de lá com utopias pra mastigar, mas sim algumas certezas que o sistema adora fazer a gente engolir. Se na área da Educação há aquele senso de igualdade em tudo quanto é canto, a gente na área de Informação quer só fazer algo pra se manter em um emprego precário em um sistema falho pra sobreviver.

Ou produtivismo.
Mas aí nessa cova eu não reviro nem a pau Juvenal.

Debaixo do link tem mais considerações.
E mais sonhos fagocitados.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

[bibliotequices] a relevância de bibliotecári@s em cenários pós-apocalípticos

No episódio inaugural do melhor seriado de todo universo - and com um dos bibliotecários mais incríveis da ficção - o seguinte diálogo aconteceu:




Começando com essa frase e pedindo pelamoooooor pra quem lê esse blog a NÃO DAR corda pros meus headcanons de cenários pós-apocalípticos - sério gente, sou nerd da ficção científica desde os 10 anos, tive 21 anos pra matutar tantos cenários de realidades que tenho vergonha de escrever sobre - mas esse tratado a seguir será aquele momento de vergonha alheia que qualquer bibliotequero vai dar um facepalm por não ter sacado ainda.

O que um headcanon??
Na linguagem marginalizada dos fãs nerds ou como se autointitulam fandom, o headcanon é uma pequena narrativa de uma possibilidade que nunca vai acontecer para se tornar canon (canônico, não a máquina fotográfica) por diversas razões, sejam elas de nível social (desvio da norma padrão patriarcal, heteronormativa, capitalista, neoliberal), seja de impossibilidade racional/física (paradoxos de viagens no tempo, catástrofes muito horrendas, Apocalipse Zumbi?!).

É tipo quando aquela pegadinha do copo meio cheio ou meio vazio? Com as interpretações de otimismo, realismo, fatalismo, achismo, fetichismo (o do Karli Marquis, gente), pessimismo, nihilismo miguxo.

O questionamento foi mazomeno o seguinte: o que aconteceria com a gente, profissional bibliotecário se uma guerra mundial tão devastadora acabasse com as formas de comunicação tecnológica que conhecemos?

Incluímos aí:
  • Fim da Internet e grandes databases do mundo.
  • Fim de energia elétrica como conhecemos em produzi-la.
  • Fim de qualquer tecnologia que se baseie ou sustente por essas duas premissas.
Como sou a pessoa no canto da biblioteca, literalmente sapateando pro assunto distopia pós-apocalíptica aparecer no rolê (mas mantenho isso pra mim, pois hey! Não é todo mundo que se sente a vontade em discutir planos estratégicos de sobrevivência em mundos devastados por hecatombes ou é chegado em discussões sobre as relações de poder na comunidade BDSM - whoa falei isso muito alto?!) lá vai o headcanon.

Para esse cenário aqui acima tenho duas variantes de headcanons:

1) desde a invenção do livro em formato que conhecemos, existia uma época chamada Era Medieval que sim, não tinha luz elétrica, vaso sanitário, sistema de esgotos que prestasse, fecho-éclair e Internet. E um tanto de coisa que parece banal pra gente agora. E os bibliotecários se viraram bem com os esqueminhas de printar em prensas de Gutemberg os famosos catálogos que assustavam nossa quiançada ao entrar em bibliotecas.

Aquela fofura das fichas catalográficas? Voltariam pra rodinha e você, tão concentrado em saber qual gerenciador de acervo é melhor que o outro sobraria como jiló na jantinha. Aprender a catalogar, classificar, indexar seria TUDO NO MUQUE, SEU FOLGADO!!

Boas notícias: há pessoas vivas que SABEM e DOMINAM muito bem essa técnica de organização de informação. Diquinha da Tia Elza da Referência? Converse mais com seus professores e/ou bibliotecários que tenham feito Biblioteconomia antes dos anos 90. A gente aprende mais com eles do que com qualquer um, viu?

Lado bom: esse headcanon era canon até metade do século 19 aqui no Brasil, voltaríamos a uma época em que já vivemos e nascemos como profissão, lições de lá já tiramos e talvez, por que não, parar de ser um bando de frangotes com medo de se arriscar pelo bem comum da sociedade...? Nâo precisa de luz elétrica pra fazer uma biblioteca ser viva :) Plus, aprender a esgrima e portar arco e flecha são sonhos de criança que não consegui realizar. Freud explica. Oh oh bardos!!

Lado ruim: não faríamos tanto ativismo ou reclamar da desvalorização do bibliotecário via Facebook. E Era Medieval não era muito legal, sabe? Não gostaria de ser obrigade a escrever num tomo enorme essas bibliotequices sem poder compartilhar. Ah! E banho frio. Brrrrrrrrrr!!!
Nada mais de informação para todos, esquece disso Josebelde... Informação local e onde as canelas alcançassem.

Mas vamos piorar a situação? Porque ser fatalista me traz mais benefícios em encarar a realidade vigente do que tentar ser otimista...



2) Que tal o headcanon de APOCALIPSE ZUMBI?!
Sim, sem luz, sem Internet, o mundo devastado por uma praga incontrolável de zumbis frenéticos personificações de nossos piores pesadelos de perda de autonomia, criatividade e privacidade como indivíduo? Sim, esse mesmo, meu headcanon favorito! E o mais absurdo também.
(Já escrevi sobre o assunto favorito aqui nesses links [x] [x] [x] [x], tem esse artigo bacana aqui [x])

Então, here is the thing: Se essa possibilidade acontecer há duas opções pra mim como projeto besta de bibliotecário:

1) a mais provável na estatística básica de Apocalipses envolvendo a quase extinção da humanidade - Eu acabaria como um zumbi especializado em fazer emboscadas pra comer (literalmente, zumbis são canibais, lembram?) profissionais, cientistas da Informação e pessoas que não concordam que a CDU é genial. Por algum resquício de memória de um passado recente, teria um prazer enorme em fagocitar certas pessoas. E a lista seria enorme, sério.
(Isso Freud não explica, porque tratar de canibalismo ou antropofagia não era a praia dele, né?)

Então não poderia fazer absolutamente nada a não ser importunar vocês, amigolhes de profissão até alguém finalmente botar fim a minha existência grotesca.

Diquinha pro futuro que não vai acontecer: nada de desperdiçar munição comigo, faça uma armadilha com alguém da Biblioteconomia dizendo as leis de Ranganathan e golpe na cabeça já resolve. Iscas com edições de livros didáticos parcialmente destruídos também me atrairiam como mariposa na luz.

2) a opção menos provável seria a de sobreviver, viver com uma PTSD f*****, MAAAAAAAAS sendo bibliotecári@. Tá aí o destino mais macabro possível para pensar. Então com certeza eu seria a tia da referência mesmo, grumpy as fuck e provavelmente não tendo dó alguma em queimar livros imprestáveis pra aquecer lareiras e cozinhas improvisadas.
(Shakespeare vai primeiroooooooo!!)

Tá vendo a 300 e a 500 até 610 da CDU? Pode pegar tudo e botar fogo. E a estante deixa pra botarmos pra segurar as portas da biblioteca e servir de barricada. É óbvio que os zumbis vão nos encontrar cedo ou tarde.

Vou fazer estudo de usuários com tanta vontade que vou querer saber que tipo de pesadelo você tem durante as horas de cochilo. É provável que eu sirva de psicóloga, mais acertado eu dar a real e pedir pra você aceitar logo que o futuro da humanidade está perdido, você não serve pra nada nesse mundo e que é melhor pensarmos em formas de NÃO nos matarmos antes de sermos mortos pelos mortos-vivos. Serei uma pessoa amarga e contraditória, mas você, sobrevivente de Apocalipse Zumbi, vai precisar muito de minhas habilidades de investigação e memória ótima pra informações inúteis como jamais coma cogumelos dessa lista aqui, jamais beba água do mar sem antes filtrar e o mais importante: você pode viver sem água e comida por um bom tempo, mas ficar sem dormir por mais de 72 horas é sua sentença de morte.

Por isso as bibliotecas serão refúgios perfeitos para sobreviventes de Apocalipse Zumbi. Tem material pra barricada de montão, a estrutura de paredes firmes, portas mais reforçadas e janelas com grade (mania idiota de brasileiro achar que pessoas roubam livros) e todo o conhecimento do mundo ou parte dele ali.


E bibliotecários podem ser chatonildos pra cacete, mas somos necessários no seu grupo. Mais ainda que aquele mané ali que tem mira certeira e sangue frio. O mané não sabe o poder de estrago que um volume da Barsa pode causar na cabeça de um morto-vivo. Ou corte de papel A4!! E por favor, o que é um babaca segurando um machado ou cabo de ferro perto da minha habilidade de dar olé em corpos putrefatos cambaleando em minha direção com uma quantidade absurda de mantimentos?

Já treinei com livros didáticos, você não. E corri de crianças! Se isso não é uma habilidade magnífica, você não sabe de nada inocente.

Mas a vantagem de se ter um bibliotecário com você durante o colapso de toda estrutura histórica do ser humano desde a invenção da roda é que nós somos educadores por natureza, mediadores de informação. Então esse conhecimento todo não ficará comigo e muito menos morrerá no meu cérebro assim que a opção 1 acontecer. Vou fazer o possível pra capacitar todo mundo ao meu redor das idiotices que NÃO DEVEM fazer em um Apocalipse Zumbi. E o que podem fazer de legal.

Perpetuar a espécie é uma opção legal, óbvio sempre com consentimento de ambas as partes. Nada de forçar a barra só porque estamos em um estado anárquico de ausência de civilidade. Não seja babaca, seja consciente de seu papel nesse cenário pitoresco de aniquilação de todas as regras em que você vive socialmente. E sobreviva.

Com um bibliotecário por perto, de preferência.

Pessoas que amam CDD, tou de olho em vocês. Vocês me parecerão suculentas algum dia.

Ps: tem gente nos estaites que compilam livros como esse pra deixar a galera de sobreaviso. E pasmem, a CDC (tipo Controle de Zoonozes) americana dá dicas de como sobreviver a possíveis Apocalipses Zumbi.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

[bibliotequices] signos biblioteconomísticos

Quem me conhece sabe o quanto respeito autoridade alheia de um modo bem peculiar. E que sarcasmo é meu combustível since 1986, logo sacanear com os patronos da Biblioteconomia, livro e afins é default para eu levar essa área a sério.
(PARADOOOOOOOXO!!)


Os malako podem ter feito um ótimo trabalho, mas não quer dizer que tenho que concordar com eles, né non monamu?

E já que a Astrologia é algo que as Ciências não aceitam bem como sendo algo real, palpável e experimentável, bora assuntar sobre? E julgar o livro pela capa é sempre bem vindo aqui nas estantes da vida *wink wink*

Dewey, Melvil. Modafóca irritante Dewey do nosso coração bibliotequêro. Sagitário.

Então, Dewey... (Fonte: Pinterest)
Pra um cara que tem epifania de organizar um manual maquiavélico como a CDD durante um sermão de pastor, o cara tava muito comprometido com seu espiritual na hora. E não vamos esquecer da despensa da mamãe quando criança! O mané já tinha fama de controlador desde pequeno.
(E também de machista, ignorante e cristão extremista, então bora mudar de assunto...)

Vamos ao carinha mais fofo do Zodíaco biblioteconomístico - sacaram, Biblioteconomia e místico? Hein? Hein? - Henrique La Fontaine, taurino. Fofuxo do caramba. Mesmo sendo jurista, aposto que enquanto o index universal tava sendo produzido freneticamente pelo workaholic do Paul Otlet, era ele que serenamente botava música pra tocar, trazia café, bolo, lanche, cobria o Paulinho com cobertor e de vez em quando aumentava o tom de voz e lascava as verdades doloridas pro Zé da CDU parar um pouco e relaxar.

Ou se lembrar que virginiano não precisa consertar o mundo pra ser útil na Ciência Informação.

Paulinho Otlet - que pelo jeito não usava roupas de ponta de estoque por razões óbvias, o cara era advogado, rycoh e famoso - era o modafóca workaholic, estressado, neurado e com princípios pautados em alguma manifestação de TOC.

Eu delibero que era alfabético e índices. Mas posso estar projetando a minha virginianice na dele do século 19. Paulinho era o cara que acordava no meio da noite com uma ideia absurda de que símbolos fariam um trabalho melhor de identificação em estantes na recuperação da informação que as tabelas malditas do antecessor. É provável também que Paulinho tinha um crush pelo Dewey, mas como ele era americano, chato pra baraleo e sagitariano, NOPE, não rolaria clima.

(Mas shippo total combo Virgo + Taurus, é meu perfect match romântico, meloso, sem noção e com dinâmica Dom/sub que é tão fofa nessa vida de controladoria de corpos)

Imagina? Tabela ferrada da 800 sendo feita com as inúmeras combinações, símbolos de marcação, notações de autor depois, aquele número de chamada enorme que universitário estremece só de ver. Paulinho levanta sua papelada da CDU em vitória após trocentas horas movido a bolinhos e chá belga (é chá preto com um pequeno pedaço de chocolate amargo btw), voz rouca de tanto falar consigo mesmo e em uma epifania grita:

"Para tudo, para tudoooooooo!!! E se a gente mandasse essas tabelas auxiliares pros inferno e simplificar com sinalização através de pontuação?! Tipo nóis não tá copiando o Zé Mel, mas tamos fazendo mais graficamente! Olha que lindo esse número aqui? *insira aqui um número enorme para assunto totalmente nada a ver* Super lindão!!"

"Paul, Dewey vai chiar... A gente pegou o Manual dele pra testar, não pra copiar descaradamente... "

*Paulinho ofendido segurando sua papelada com carinho perto dos peitinhos*

"Cê tá falando que meu trabalho árduo é cópia daquele trambolho de 4 volumes e que é horrível de manusear?!" (virginiane trait: autovitimismo)

"Não, não é isso... "

"Tá insinuando que além de cópia, sou incompetente o bastante para não fazer algo digno de reconhecimento universal?!" (virginiane trait: paranoia excessiva)

" Paulinho. Já pra cama, vai!" (Taurine trait: sabe mandar e botar ordem no pardieiro muito bem)

"Sim, senhor."

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

[bibliotequices] quem são/somos nossos leitores?

Cês lembram do Rangs, né? E que ele escreveu umas coisa bem bacaninha pra gente poder usar na nossa vida loka de bibliotequêro/bibliotectomista/biblioteconomista.

"Cada livro seu leitor" e "Cada leitor seu livro" resumem um conceito bem legal do pessoal da Pedagogia e da letras que afirma que a maturidade de um leitor proficiente pode ser mensurada com a quantidade de leitura que faz e o quão criticamente se posiciona sobre o que leu.

Não mexe com esses trem de "qualidade de leitura", porque esse conceito é abstrato pra caramba para se colocar na rodinha.

Num resumo bem tosco, o leitor proficiente - aquele que lê e interpreta bem o que lê e faz indagações com o que lê e consegue comparar e/ou associar com outra coisa que lê - é tipo a meta mais importante dos professores desde a alfabetização até Ensino Médio. Encontrar uma criança que passe por todos os estágios de aquisição de leitura (E leitura é tudo tá? O saber identificar os signos/alfabeto, juntar as palavras, formar frases, construir falas coerentes, realizar contas de matemática e tudo mais e coisa e tal) e saber como usar isso socialmente para se posicionar como cidadão no mundo.

Pra chegar a esse estágio tem muito trabalho, muito empenho, muita prática e muita, mas MUITA persistência de quem está querendo ter esse tipo de leitura do mundo.

Aí eu vejo uns comentários sobre como pessoas depreciam a Literatura atual com a quantidade de YouTubers, celebridades globais escrevendo livros e como a garotada vem consumindo esse gênero que nem água. Algumas dessas pessoas estão ou serão internamente ligadas ao processo de aquisição de leitura e escrita da garotada mencionada. Essas mesmas pessoas também não respeitam quadrinhos, graphic novels, coleção Sabrina, auto ajuda como "literatura de verdade".

Seguinte, galeris: sabe os canônicos que enfiam pela nossa goela desde o ensino fundamental para acharmos que aquilo ali é "literatura de qualidade"? Então, esquece. Cada um faz a sua tabelinha de o que é bom o que é ruim pra ler, tem dessa de desmerecer e desestimular a leitura de jovens que procuram justamente nesses tipos de literatura (Os YouTubers por exemplo) pra ter a experiência awesome de se ler um livro, qual seja o que for. Se o conteúdo é fraco, médio, valioso, quem vai julgar é o leitor, não você regulando porque se acha no direito de afirmar que "literatura de qualidade" é Machadão, Alencar, Shakespeare, os canônicos e os dado aguado. Maturidade de leitor proficiente DEMORA pra desenvolver, ajuda mais você incentivar a garotada ler esses YouTubers e ir aos poucos dando outras opções - e vendo como eles desenvolvem a curiosidade de querer mais para ler e mais para pesquisar - do que simplesmente sacanear com o jovem por estar lendo a Kéfera.

Se o objetivo maior aqui é dar oportunidades pra criaturinha chegar ao ponto de leitor proficiente e autônomo, então joga esses preconceitos pra debaixo do tapete e se foca no que o usuário tem vontade e maturidade para ler.

Pessoalmente eu acho literatura brasileira cânone um porre (os antigos, não adianta que não me desce), passei a minha fase escolar toda lendo crônicas de Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Veríssimo e Millôr, rindo a beça com as Revistas MAD, me aventurando em gibis de diversas temáticas, folheando a Ilustrada da Folha de São Paulo só pelos quadrinhos do quarteto fantástico (Angeli, Glauco, Laerte e Adão), tia Agatha Christie na cabeceira e pelo hábito de ler tudo que tinha na frente - e ter pessoas perto de mim que gostavam de me incentivar a ler - cheguei ao ponto de leitor proficiente. Não quer dizer que o processo para por aí, ainda tenho dificuldade em ler textos muito técnicos ou que não estão de acordo com a bagagem sócio-histórica que carrego comigo desde criança.

Não foi lendo Machadão, fazendo análise crítica de Hamlet, ou entendendo as rasuras da tradução da Ilíada ou Odisseia pra saber que tinha chegado ao ponto em que é ideal para isso. Não foi entendendo Camões ou louvando as fases da literatura "brasileira" (vamos colocar em aspas aqui, porque é discutível quando se imita intensamente um estilo de fora para incorporar na nossa cultura e achar que aquilo é lindo, maravilhoso e o certo, wowowowow me deixa ser burra 5 minutinhos #AlineDurel), foi lendo jornaleco de quinta categoria, folheto de supermercado, manual de instruções, lendo placas e cartazes na rua, fazendo essas coisas que seres humanos fazem para sobreviver ao usar a linguagem, sabe?

Então entre recomendar a Kéfera no balcão ou empurrar um Cruz e Sousa pra uma criança ler, eu sei o que fazer: "Cada leitor o seu livro", "Cada livro o seu leitor". Eu sei que algum dia ela vai se interessar pelo Simbolismo e o papel do Broquéis na Literatura Brasileira. Tenho certeza que a fase dela ler essa "literatura fraca" vai passar e ela procurará algo mais adequado a visão de mundo *dela*. Vai que numa dessas lê um Asimov, Leminsky, o ferrado do Joyce? Nunca se sabe, mas não custa tentar incentivar ao invés de apontar dedo na cara e dizer que YouTubers só escrevem porcaria.

Eles escrevem, e a garotada lê, e isso já é meio caminho andado pra eles quererem ler mais seja lá o que for.

domingo, 1 de outubro de 2017

[bibliotequices] os blocos da pergunta que não quer calar

A pergunta que segue a apresentação formal de alunos nos primeiros dias de aula costuma ser: "Por que escolheu esse curso?"

E nas oportunidades que tive nesses quatro anos de cursar disciplina com a primeira fase as respostas se dividiam em três blocos:

1) gosto de ler e de livros, logo... 
2) queria entrar em curso tal, mas vim pra esse pra conseguir transferência semestre que vem. 
3) realmente quero ser bibliotequero, parece legal!

O bloco número 1 me é interessante, pois há 2 destinos previstos pra eles: continuar a gostar de ler e de livros e fazer um trabalho incrível lá fora no mercado de trabalho. Ou descobrir que odeiam livros é não aguentam mais ler coisas da área que não condizem com suas vidas.

A incidência de evasão dessa parcela é meio a meio dependendo do destino pré programado. Tem gente que continua mesmo odiando livros, ler e atender pessoas. O que fazem exatamente após o canudo é desconhecido. Talvez se contentem em outra profissão, menos a que se formou, talvez voltem pro mestrado e doutorado e deem aulas pros pobres iludidos que um dia foram. 

Aqui é uma roleta russa de emoções.
Talvez o parágrafo acima tenha sido escrito em cima de um sarcasmo barato ou seja aquela pegadinha da arte imitar a realidade e vice-versa.

No bloco 2 há o desejo escancarado de que ali não existe um pertencimento ou prospecção de futuro. A pessoa já taca na lata que só queria entrar na federal e pronto.
Talvez consiga pegar a tal transferência, talvez seja fisgado pela profissão através de esforços contínuos dos professores, profissionais, alunos, aqui é o 8 e o 80.

A mea culpa rola, pois se o curso não fisga esses alunos, a transferência, desistência são certas. Às vezes quero abraçar muito essas pessoas e dizer: "Mas não desiste do curso, mizifie... Dá uma chance!" - mas sejamos sinceres aqui: esse trem de 4 anos aprendendo a arrumar livro na estante não é pros de coração fraco. 

No bloquinho 3 tem o máximo de expectativas e inúmeras decepções que vão acumulando conforme o tempo vai passando. A esses, peço paciência e um colete salva-vidas. As lágrimas são constantes, o ranger de dentes também.

E já que é nesse bloco que me encaixo, devo dizer que que assim como a Letras na universidade dos stormtroopers, a Biblioteconomia vem sendo um poço imensurável de situações fail para a Sanidade e de seus amantes. Pois é tanta coisa pequena pra pontuar e tentar dialogar que meu cérebro não é mais capaz de lutar por alguma coisa que seja substancialmente bom. Eu tento, às vezes encontro alento (rimou?) com professores que me inspiram, pessoas que trabalham duro todos os dias po ruma biblioteca melhor e cidadã, mas ninguém é de ferro.

Bom parece impossível. Razoável é o único caminho.
Dentro da universidade, gente. Lá fora o mundo é completamente diferente, tá?

E como niilismo miguxis é aqui mesmo, creio que um pouco de fatalismo seja necessário pra acordar. Nem que seja eu, achando que dá pra salvar o mundo cursando esse curso, com o conteúdo que já absorvi e com certeza a experiência em estágios fez mais diferença que o conteúdo em sala de aula.

Isso é decepcionante.

Porque são poucos os professores que nos inspiram e se importam com o que estão ensinando, poucos os colegas que trabalham em conjunto pra um curso melhor, poucas condições psicológicas sadias de ter uma conversa construtiva com gente engessada. A paciência já foi embora na quinta fase, o colete salva-vidas eu uso de colete a prova de balas, porque é tenso. É mais que o obviamente saudável mentalmente poderia suportar.

O que desgasta mais alguém do bloquinho 3 é ver seu desejo pessoal ser pisado pela inconsciência da massa que forma após semestres tentando encontrar algum tipo de coerência entre currículos e vida real. Se vocês não leram sobre simulacros e performances, melhor começar pra poder entender que o universo paralelo da academia pode e vai acabar com suas esperanças de um mundo melhor.

Aí entendo a quantidade de gente que se presta a fazer concurso público, passar, sentar numa cadeira, a boca cheia de dentes e esperando a dona Muerte chegar. Por Rangs, como entendo vocês agora!

É pra chorar.
Ou não.

Ultimamente estou sendo extremamente mala com quem não faz nada pra ajudar esse curso melhorar, pra essas cabeças a cada aula terem noção o que fazem é importante pra sociedade. Serem mais protagonistas do que exibicionistas, acionistas, consumistas. E pelo jeito vai continuar, porque já aprendi que infelizmente não dá pra conviver com o peso na consciência e vergonha alheia de ver o barco afundando.

A evasão no curso tá aumentando. As reclamações aumentando. A incompetência na mesma proporção. Autonomia em sala de aula virou emburrecimento e quintal de casa, ou divã de terapeuta. É o barco afundando. A maré levando. Ninguém se importando.

Então bloco 1, continue otimista até onde der.
Bloco 2, muda de curso logo pelamoooooor de Otlet.
Bloco 3, pra quê dar conselhos se eu nem sigo o que digo?!

sábado, 23 de setembro de 2017

[bibliotequices] a ideia que ninguém teve

(Essa postagem é regada de chá de semancol e sarcasmo. Não vistam a carapuça. Sério. Faz mal pro ego e pros cinco dígitos na conta todo final do mês. Nem precisa se importar muito com o futuro profissional de mais de 20 pessoas)

Todo mundo tem aquela ideia que ninguém teve. 

Então se em um mundo hipotético talvez uma disciplina que essencialmente fala sobre acessibilidade e inclusão fosse tratada com mais seriedade fosse ministrada por alguém consciente do papel do bibliotecário na cidadania plena das pessoas com quem convive, tenho certeza que passaria o semestre todo pedindo trabalhos de campo e relatórios em forma de diário dos alunos sobre experiências de alteridade com o Outro. 

 - Passar um dia todo sem falar, apenas utilizando vocalizadores. Apresentar um trabalho com ele. 
 - Passar uma aula inteira com tampões de ouvido, se comunicar por libras ou apenas pelo celular.
 - Usar uma cadeira de rodas durante o intervalo, verificar como os espaços onde habitamos mais tempo estão preparados para receber cadeirantes. 
 - Se não tem cadeira de rodas, muletas. Enfaixar um pé com algo pesado e andar por aí.
 - Fazer trabalho de campo em dupla, um colega vendado durante cinquenta minutos, vão à uma biblioteca. Escrever sobre as percepções de como se conseguir informações dessa forma.
 - Fazer trabalho com amigo míope com mais de cinco graus sem óculos e ler textos com lupa. 
 - Apenas usar sites que tenham opção de acessibilidade por um dia inteiro. Escrever sobre como foi.  
 - Ir ao museu da universidade dos Megazords e acompanhar uma turma com necessidades especiais ou de diferentes faixas de idade. 
 - Visitar ao núcleo de idosos da mesma e passar uma tarde na sala de leitura deles, atendendo a galera.
 - Assistir uma aula com o pessoal que cuida dos graduandos que apresentam algum tipo de necessidade especial ou dificuldade intelectual. Trocar umas ideias com eles, pelo menos. 
 - Ficar uma semana inteira em biblioteca escolar de comunidade em risco social atendendo a garotada.
 - Ir em uma aula de libras e interagir com a galera, se permitido.
 - Chamar o atual professor de libras para participar da aula.
 - Dar a aula em libras com alguém traduzindo ao mesmo tempo. 
 - Usar os recursos visuais como Instagram, Facebook, YouTube para tentar se comunicar apenas através da Internet.
 - Passar um dia inteiro com um bloquinho na mão e escrevendo o que vai falar nas conversas.
 - Se voluntariar em uma biblioteca de penitenciária.
 - Mapear se a comunidade onde você vive tem o mínimo de acessibilidade para os moradores e se os locais de serviços público ofertam inclusão em suas atividades.

Bem isso. 
Mas assim como todo mundo, essa é a ideia que ninguém teve. 
Nem tou dando dica.
Estudante só sabe reclamar mesmo.
E apontar defeito.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

[bibliotequices] as gentes que vão na biblioteca

Vejo uns rolê bem bacana na Biblioteconomia sobre tecnologias inovadoras, coisas awesome conceituais e vislumbres de um futuro próximo de pura magia informativa, mas sabe?
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra ler jornal procurando emprego sem saber ler uma palavra do que tá escrito.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra não ficar na rua pensando em como vai conseguir a próxima dose pra amansar o vício.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca com a esperança que prestem atenção nela e vejam que precisam de ajuda com um digitar de currículo, usar uma rede social, ver a foto da família que tá lá longe, escrever o próprio nome.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra escapar da infelicidade do mundo frio, violento e cruel.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra tentar ser cidadão, nem que seja o mínimo.


É neles quem tou pensando quando tou estudando.
Pros dados, pras datas, pros bytes e rebites deixo pra galera antenada. Cês tem um futuro brilhante.

Pra essa gente que citei ali em cima, nem tanto.
É uma grande parcela da população que nem vai chegar no terceirão, que passou dificuldades por todas as fases da vida, de aprendizado teve as ruas, a Educação precária, a negligência, o pouco da família desestruturada. É gente que sequer tem ideia do que é uma faculdade, de que podem ter chances de entrar em um curso superior, de que o Ensino de Qualidade é pra todos, tá lá na Constituição.

É neles quem penso todos os dias quando formulo alguma coisa.

E eu gosto das novidades tecnológicas, das ousadias biblioteconomistas, das iniciativas pra frentex de mentes brilhantes da nossa área. Mas a gente tá num local privilegiado, sacas?
Eu ouvia amiguinho de turma dizendo que só ia pra escola pra comer, porque em casa não tinha nada. 10 anos depois ouvi a mesma colocação em meu estágio supervisionado na Letras. No estágio em bibliotecas escolares ouvi a mesma coisa.
20 anos de intervalo entre a descoberta de que alguém muito próximo não tinha os mesmos privilégios que eu. Ainda me apavoro quando ouço essa de "vim pra escola pra comer", porque querendo ou não, ouço o mesmo nas filas do RU. 20 fucking anos e nada mudou. Não nesse requisito.

Aí ouço bambambam dando nos dedo de quem quer seguir pro social, pro humanitário, pro "assistencialismo". Porque elitismo higiênico nesse curso já não basta, tem que rasurar quem a gente serve. Pra quê que a gente serve, afinal? 

É isso que me deixa acordade às vezes quando vem a ideia pra um projeto que provavelmente estará escrito dentro da minha caixa craniana, mas não vou conseguir botar no papel. 

Improviso. Tudo no improviso.

Ainda tem gente que vai a biblioteca, porque momentos antes tava pensando se não seria melhor que não estivesse nem vivo, respirando o mesmo ar que a gente. Tem muita gente assim, acreditem. E a gente que tá atrás do balcão, entre as estantes, coberto e seguro por uma tela de computador, não vê. É neles que tenho vontade de sentar e conversar por horas sem dar a mínima para políticas, procedimentos, gestões ou planejamentos. Eles estão vivos ali por algum motivo, eu realmente espero do fundo do meu coração que a biblioteca, a presença dessa quimera que não conseguimos decifrar, seja uma razão boa para eles ficarem, permanecerem, serem.

Porque não vai ser a primeira e última vez que vou ter que lidar com leitores assim. Não vai ser a primeira nem a última biblioteca sem o mínimo de organização para existir. Não vai ser a primeira nem última vez que não haverá recursos, pouca mão-de-obra qualificada, omissão hierárquica, apatia, submissão.

Ainda tem gente que vai a biblioteca, porque é ali que se encontra como ser humano. 
Sem muita firula. 

É pra essas pessoas que tenho que pensar quando pegar meu canudo, fazer o juramento. E é estúpido, é antiquado, é ingênuo, sem graça, nada rentável, eu sei disso tudo, mas é neles quem penso quando pego um maldito manual acadêmico que só serve para eu interpretar e não quer dizer nada pro meu leitor. Muita coisa teórica a gente pode (E deve) deixar pra trás quando não traz benefício para o cidadão, o Amor não deixa pra trás não. 

Essa bagagem bacana, a empatia, a alteridade, a Ética acima de tudo, não deixa pra trás não.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

[bibliotequices] e por que não?!

Esse questionamento vem sendo meu mote desde agosto de 2013 em que assinei a papelada para retorno de graduação na digníssima universidade que não posso nomear. Já havia escrito sobre como os nãos podem atrapalhar a vida de estágio aqui nesse link.

Por que não deixar esse emprego sério, chatonildo, dentro de um cubículo de empresa de iniciativa privada com carinha de moderninha, mas concreto puro de exploração em sua execução? Por que não passar dificuldades, sair de casa, encarar vida solitária, ter um problema no miocárdio por conta de vírus invisível (paixonite agudis) e se livrar de uma crise ferrada de depressão? Por que não ser feliz?

Teve dia em que planejei meu funeral, mas sempre o por que não? me perseguia mais do que os pensamentos ruins.

Então fui lá fazer o por que não em outra graduação, porque sim, eu sabia que o ambiente acadêmico era meu lugar de pertencimento. O por que não me deu muitos presentes e me extraiu pedaços quando pipocavam. Aprendi mais com os por que não do que com as permissões silenciosas, as oportunidades de mudar as coisas aparecem bem no meio do caos, esse tumulto maravilhoso, meu favorito em todos os sentidos.

Loki abençoa bem quem segue o Caos. Firmão, hermanes!

O por que não inicial foi o de aliar e relacionar minha experiência na universidade particular dos Stormtroopers com essa inteiramente gratuita em que estou. O começo foi no modo mais intrusivo possível, falando mais nas aulas, inquirindo melhor meus professores, cobrando de quem era responsável por aquilo tudo ali funcionar, questionando Ranganathan e o mundo. O por que não me levou ao centro acadêmico.

O por que não me fez bater de frente com quem não queria que meus colegas se desenvolvessem como cidadãos plenos e críticos em um curso que forma gente assim quando tá lá no mercado de trabalho. O por que não me rendeu conversas de corredor, ali no cantinho e "vamos baixar a bola e aceitar as coisas como são" - o por que não me fez ficar 1 ano e meio em bibliotecas escolares, linha de frente, tendo a experiência do todo, e foi esse por que não que me moldou até agora.

Atuar como estagiário em escola pública não me era estranho, já havia feito estágio docência, projeto de extensão e dado aulas pingadas em diversas séries há anos atrás. Diferente da minha sede com a Biblioteconomia, na Letras eu fui com aquela sensação de culpado antes de ir pra guilhotina. Em cada sala que atendia ou aluno que lecionava, sentia que o por que não não era para ser usado tão assim na cara.

Pessoas não estão acostumadas em levar um e por que não? na cara. Ainda mais quando são pessoas que estão ali há anos fazendo o porque sim e não questiona. A dificuldade maior de se fazer essa pergunta é a consequência/Paradoxo de ter o porque sim e não questiona, mais o nutrir de emoções negativas no processo. Vai ter gente pra puxar nosso tapete, vai ter gente que vai descreditar e desvalorizar, vai ter erros, backlash, noites mal dormidas pela culpa também, por não ter feito o suficiente. Mas vai ter uma coisa muito legal que só quem é diretamente beneficiado pela pergunta (e a ousadia) vai saber: vai levar pra vida inteira.

Post grande, TL;DR como sempre, porque precisava escrever algo que consegui processar depois do evento sobre Empreendedorismo na UDEXQUI essa semana.

E POR QUE NÃO?!

sábado, 19 de agosto de 2017

[bibliotequices] sejemos frangos maix otra veiz

Sejemos frangos: biblioteconomista não é mágico, muito menos onipotente. Então quando houver dúvidas, consulte um profissional da área.

Estava a se discutir sobre o ambiente sistêmico de pluralidade em que um bibliotecário pode atuar e o martírio de entender que não somos obrigados a saber de tudo um pouco (Hello?! Neurociência explica?! Freud não? Para de recalque que você não é enciclopédia humana.), mas somos obrigados a saber quem sabe.

Ou ter um uma pista sobre como conseguir tal informação.
É pra isso que a gente serve socialmente.

Então se eu viro a chefia imediata de uma unidade de informação, é provável que seja obrigada a entender que as decisões são de minha alçada e com o meu aval, mas não tenho obrigação alguma em executá-las eu mesma. É isso que a galera não tá sacando e acaba que é isso que tanto bibliotecário quase dá piripaco de tanta função acumulada.


No sentido prático da carreira, se eu não sei fazer um planejamento estratégico que valha a pena gastar meu tempo e dinheiro da organização, vou pelo menos indicar alguém que saiba. Colaborarei com o indivíduo, aprenderei algumas coisas se isso for relevante e essencial pro meu trabalho, mas não preciso ganhar título de mestre Jedi na coisa.

Assim como vocês não precisam saber WTF são aqueles números de chamada nas etiquetas, ou que operadores booleanos são coisa linda de Ranganathan e muito menos decorarem relação estante/prateleira/livro. Amiguinho, você não é obrigado a nada, muito menos eu.

Pra entender o universo é preciso doutorado em Física Quântica?! Pra saber que estou amando alguém, preciso ser cardiologista pra entender como o bombeamento de sangue no meu corpo está diferente do normal? 

A cisma que tenho com gerenciadores de acervo é por conta disso. Não preciso entender programação, engenharia reversa (apesar de ser um awesome assunto), as teorias mais profundas e escabrosas da área da tecnologia da informação, eu sei quem pode fazer isso por mim, não preciso tirar o emprego dele, o mínimo é entender a linguagem que ele usa para se comunicar com e ver se aquilo que ele tá produzindo é bom o suficiente para minha demanda.

Se por acaso eu tiver talentos extras em outras áreas (goddess bless), ótimo!!! Vai na boa, usa e abusa das mad skills, mas pelamoooooor não se mete em compreender que bibliotecário pode e deve ser tal coisa quando não é.

Nóis não semu.
Num mexe com quem tá quieto, sô.

Essa confusão de identidades fragmentadas é que arruína muito em nossa atuação, é preciso ser muito para se conseguir resultados razoáveis. Não precisa ser assim, até porque se você se cobrar demais, sua cabeça explode. A minha já foi com a fucking Letras ao entender como a organização da linguagem pode ferrar com toda a construção/destruição de realidade de um indivíduo.

Então não fucking cisma com essas coisas.
Tem gente pra isso.
Tem povo pra te ajudar nessa.
Nossa tarefa é construir/constituir a rede, criar elos, integrar saberes, ensinar as pessoas a não entrarem em pânico.
Eu não tou em pânico.
Tá todo mundo calmo aqui.

Interdisciplinaridade.
Transdisciplinaridade.
Multidisciplinaridade.
Essas palavras tem mais sentido na prática do que colocadas à toa em artigos científicos, planos de ensino, aulas expositivas.
(A gente sabe quando essas palavrinhas mágicas tão ali só pra enganar, ok?)

Bibliotecário não é educador?
Todo mundo é culpado até se provar o contrário?
Até onde sei não sou contador.
Não sou psicólogo.
Não sou administrador.
Não sou cientista da informação.
Não sou técnico de alguma coisa.

Já viu médico operando com pá de pedreiro? Engenheiro botando prédio de pé com palito de sorvete? Advogado citando livro de culinária em processo criminal? Não?
Pois então, não vou organizar a sua informação fingindo que o Outro não existe. Isso se chama Parnasianismo Acadêmico e deixamos de lado nas carteiras da faculdade por uma razão: a gente tá servindo ao Outro, é ele nosso norte.

E acredite: tem uma porção de gente que pode fazer aquele maldito gerenciador de acervo funcionar do modo que seja mais fácil de mexer. Mais rápido pra atender o público. Dá sim. Existe open source pra quê? Existe os chuchus da TI pra quê?! É com eles que precisamos conversar, não nos apropriar de seu universo.

Assim como não precisamos ser encharcados até os ossos pelas outras áreas como se a nossa fosse insuficiente. Aqui nóis colabora, não explora, não rasura, não rasga, não apaga com corretivo da supremacia mercadológica pra satisfazer uma parcela de poucos. Nóis é paz e amor e compartilhamento de vivências pra um bem maior e comum.

Sejemos frangos.
Admitemos nossas franguesas e fraquezas. Reconhecemos nossas falhas, e perdoai-nos de nossos pecados, livrai-nos do mal, amém?

Chuchu beleza?
Ah, mais outra coisinha pra não esquecer da problematização: Bibliotecário não é educador, tá?

Pó-pará com o pó-pó-pó...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

[bibliotequices] se é amarelo...

Algo me pegou de surpresa esses dias na biblioteca.
Um pequeno leitor se aproximou com almofada nas mãos, perguntando: isso aqui é amarelo?

Olhei para a criança e tive aqueles insights-flashback quando eu tinha idade dele, amarelo era amarelo mesmo? Quem botou o nome dessa cor afinal?

Eu, no desarme, perguntei de volta:
"Pra você é amarelo?" - ele concordou com aquela certeza infantil que nós é roubada ao crescermos.
"É amarelo sim."

Então que seja amarelo, uai.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

[bibliotequices] sobrevivência em estágios


Situações que já me ocorreram e estágios que podem contar para experiência em um Apocalipse zumbi próximo (ou quando for trabalhar for realzies):

  • Burocracia departamentalizada em forma de papelada e assinaturas. 
  • Estante rolante de mais de 1 toneladas com trava de segurança com defeito. 
  • Aranha colaboradora do tamanho do meu punho. 
  • Acidente pedestrial.
  • Infestação de pulgas. 
  • 2 crises de identidade e 1 crise de desistência do curso (Várias de choro, pânico e em silêncio) 
  • Biblioteca em reforma completa. 
  • Corporativo matador de criatividade. 
  • Um princípio de quase hérnia em vias de. 
Para cada uma das citadas, até que me recuperei bem - tirando a aranha colaboradora que ainda tenho pesadelos e quase-hérnia que precisa ser resolvida antes de outubro - sem muitas perdas de pontos de Sanidade, tudo conforme a tabelinha imaginária de "até quando você aguenta sem surtar por não estar fazendo algo que ama". 

Porque eu tou fazendo algo que amo, tenho plena certeza disso, o problema é chegar nesse estado de apatia atualizada que evoca um feeling que por muito tempo não entendia - e até sentiria vergonha e revolta - que alguns colegas de profissão tem. 

Depois da bagunça ferrada feita por impossibilidade de se mexer direito por dias por conta de dor aguda, refletindo pra perna esquerda - coisa linda ver que o ciático deu sinal de vida - as decisões ficaram cada vez mais centradas no "Que Mandos me leve, Barqueiro me dê carona, mas nunca mais quero sentir dor assim". Nada substitui a nossa saúde mental e física quando se está em risco de um colapso. Então ser fdp está sendo um fator importante para manter certo controle da situação dolorida. Me dói por não estar mais fazendo as estripulias de antes (e me negando a fazer), e me dói por deixar alguém tão gente boa na mão. 


Mas ao invés de me afundar nos feels sobre sentir culpa por não estar atendendo as expectativas esperadas - essa expressão me persegue em tantas esferas - a apatia 3.0 me ensinou algumas coisinhas bem básicas pra viver por mais tempo e de forma saudável. 

Entrar em paz consigo mesme é uma tarefa quase impossível pra mim quando começo a fazer a lista de coisas que são necessárias pra sobreviver: manter a calma e a saúde mental estão no topo. Estímulo externo com planos de pequeno e médio prazo também, outubro tenho que estar 100% para realizar um sonho que é prioritário em todas as listas que já fiz nessa vida, em todos os campos da minha vida de escriba. E não dar a mínima para isso até o momento está surtindo efeito, não preciso recorrer a ansiedade pra colocar ordem no caos. 

Porque o caos gente, o caos somos nozes

O que isso tem a ver com estágios? 

Trabalho é meu nome do meio (Reis é uma ironia bem legal de nascer em família tradicional mineira) e desconstruir essa premissa na vida tá sendo interessante no ponto de vista científico. Porque o tempo todo tou avaliando se o que tou fazendo da vida é relevante pro meu bem-estar ou para encher o bolso de alguém ou dando status pra outrem. Se esses três pontos estivessem gerando ideias e formas de se trabalhar com certo senso de dever cumprido, estaria mais feliz, ou fingindo que estava tudo bem. 

Dividir a sala com a aranha colaboradora e o perigo da estante com a trava quebrada foi uma lição de como corporações não dão a mínima para seus manentedores do status quo (se você bibliotequero não vestiu a carapuça, amigolhe deixa eu te contar uma coisa...), mas foi edificante para não me meter mais com lugares assim. 

As crises me ensinaram que jamais devo envolver a minha vida pessoal com a vida profissional. Por mais cutch-cutch que seja as relações de trabalho ou emocionais: atrás do balcão, entre as estantes sou uma pessoa totalmente diferente do que vão me encontrar sábado de manhã em casa. Esse afastamento é necessário pra termos a noção entre ética profissional e valores pessoais. 

E se a powha da ética profissional de determinado local tá distorcida e não batendo com os valores pessoais, paciência. Paciência e perseverança. E reza pros orixás, deuses, santos e outros relacionados pra não misturar os dois. 

A apatia entra justamente nessa hora, e favor não confundir com indiferença, pois são conceitos opostos em vivência: indiferença é aquele trem do video meliora, proboque. Deteriora sequor já a apatia é um não-movimento para autopreservação automática. 

Aquela porcariada de "neutralidade biblioteconomística" entra nessas duas situações, e a confusão pode ser esplêndida. Porque tem gente que vê a ética profissional sendo massacrada e resolve fazer vista grossa, e tem gente que vê o trem indo pro brejo e não reage por puro medo. 

Aí sim voltamos ao assunto principal de ser estagiário. 

Burocracia e corporativismo são venenos de rápido efeito. Pras pessoas que tem como lema viver no improvisation e demanda imediata, estar contido em lugares como esses é pedir pra dar um tiro certeiro no chacra do terceiro olho. Porque iluminação alguma vai vir disso e evolução estagna em ambientes que tem prioridade maior em puxar o tapete alheio do que beneficiar a comunidade. A ética profissional entra nisso também, pois se o alinhamento do local for totalmente contrário ao que postula o bendito documento instrucional, vai ter que readequar toda a atuação e adivinha qual o que vale mais? 
(Não, não é a resolução de número cabalístico do CFB) 

Dizer nãos e nãos tá travando minha vida. 
Na Biblioteconomia há a possibilidade de estar sempre a dizer sim, sim, sim, o não vem inesperado na medida em que alguma conduta imoral (I não a) é praticada e prejudica o bem estar da comunidade. Dizer não demais enfraquece o que acredito como sendo o único lugar que encontrei entre muitos outros como libertador. 

Aviso aos navegantes, antes que o estágio te mate realmente - de corpo, de alma, de crenças - mate ele de você. Não deixa nenhum lugar, por mais rentável que seja ou referência de sei lá o que naquilo que você algum dia vai representar, tirar sua vontade de levantar da cama, muito menos sua criatividade. Você não é o lugar onde trabalha, você que faz o lugar onde trabalha. 

terça-feira, 25 de julho de 2017

[bibliotequices] canção de escárnio


Fiz uma canção de escárnio pra quem mais amo.

E para momento literário fofuxo, deixo a definição de canção de escárnio, ok?
(Sim, vai ler na Wikipedia, tou aqui pra repassar a informação, não pra dr aula de Literatura.)

A gente vive numa caixinha, povo.
Não vamos negar.
O mundo lá fora é tão vasto e cru que é óbvio que irei ficar confortável em um lugar só e não cuidar de selvagens dentro das escolas,
Selvagens atrás das grades
Selvagens enfiados no mato nos confins do Brasil.

Não sou assistente social.
Não sou explorador aventureiro
Não sou babá de ninguém
Não sou como esse povinho aí

Nasci da elite mais refinada da erudição europeia,
Vim fugido pra essa terrinha abençoada em que tudo nos dá
A falta de culhão de monarquia atrasada culturalmente
Filho de herdeiro, de fubá, de sinhá
Achando que ser doutor é o topo da cadeia alimentar

Claro que na cadeia alimentar, toda espécie tem sua evolução.

Se ontem eu digeria burocracia pra escovar os dentes com os dicionários,
Hoje sou obrigado a virar jurássico,
Empoeirado com essa moçada que adora desconstruir paradigma com bisturi tecnológico.
Mas meu amigo, paradigma é temporário,
Sempre se eu fui paradoxo
Até que prove ao contrário
Ou "seje menas" nessa canção de escárnio

Faço parte de uma "profissão em extinção"
Computadores chegaram revolucionando a forma de obter informação?
Continuo aqui.
No mundo a Internet mudou a configuração?
Continuo aqui.
Inventaram outra nomenclatura pra designar o que faço (só que com mais bytes, mais outros termos científicos que você quiser adotar).
Continuo aqui.

Sobrevivo.
Tenho lei e tudo.
Escolas de louros espalhadas no país,
Escola que limpa mouros, esses não entram aqui
Escolas que higienizam ensinando algo que dizem que ninguém mais precisa
(tem a Wikipedia e Doutor Google agora)

Formo uma minoria de elite, branca, especialista em qualquer coisa que sirva no momento.
Conhecimento de tudo para servir de nada
Gratuito? É de graça, com a minha salvaguarda
Educo neutralidade em cada passo que ajudo o pupilo dar.
A lei me garante.
Os decretos também.
Minha imparcialidade se confunde com apatia que é só um reflexo do meu comodismo.
E ainda assim, continuo.

Desde Alexandria.
Desde a primeira dinastia.
Desde a primeira vez em que a escrita esteve presente na sua vida.
Continuo.

Sabe por que não faço mais que deveria?
Por que alguém vai fazer por mim,
Essa molecada com as fuças grudadas em tecnologia.
Esse é o desejo deles, não meu.
E eu continuo.

A quem sirvo não é pra todo mundo,
Não é pra ser,
Que meus teóricos preconceituosos, sexistas, machistas,
Crias de um sistema de manutenção permanente do patriarcado,
Estejam mais certos que qualquer outro de outra área.
Perpetuo os manuais sem averiguar as pistas
De uma violência muda, surda e cega

Conhecimento é poder.
Informação é a única realidade.
Eu tenho a chave.
E eu continuo.

Mude os termos, as nomenclaturas, as ementas, as leis, os decretos, os códigos, os anseios, os afetos, o chão a lamber, mude, se mude, faça upgrade.
Eu continuo.

Um monumento em homenagem a inércia.
Eu continuo
Te encarando como esfinge, dando a charada e penalizando seu mínimo erro.
Eu continuo
Devorando seu fígado, e você acorrentado
Eu continuo
Sendo a pedra que se precipita no alto do penhasco infinitas vezes
Eu continuo
Um diploma, um canudo, um juramento me habilita
Eu continuo mesmo assim.

Você, você faz reformulações, reedições, renovações.
Como todo organismo deve ser reinventado para se legitimar nessa sociedade desigual.
Eu continuo, não permaneço, óbvio!
Mas aqui, continuo.

Eu continuo! (tá me vendo aqui?)
A profissão que será "extinta" daqui alguns anos
O profissional que "não serve pra nada"
O "trabalhador encostado" que reclama demais
Ninguém pediu sua opinião, eu existo
(você também, caro amigo, você também)
Eu existo desde que homo sapiens começou a fazer conexão com as sinapses do sistema nervoso
Talha, cunha , argila e arconte
Pergaminho, papiro, hierofante
Continuo, tou aqui, tá me vendo?

Tudo na ordem? Tudo no progresso ?
Identidade, CPF, comprovante de residência e 2 contatos por favor?


sábado, 24 de junho de 2017

[bibliotequices] teoria e prática drástica

A gente faz uns paralelos na vida para poder ter uma noção do que deve fazer ou não enquanto se atua profissionalmente. Por exemplo: volta e meia questiono o que raios tou aprendendo nas aulas que vá de certa forma contribuir para 3 pilares da minha atuação:
  1. o que tou aprendendo vai ajudar a pessoa que atendo mais rápido, com eficácia e satisfação?
  2. o que tou aprendendo tá facilitando o meu trabalho para o item 1?
  3. o que tou aprendendo é RELEVANTE para aquela situação e não só uma sofisticação besta que será usada 1 vez só e pronto, acabou?
O que pesa mais aí: o que tou aprendendo vou conseguir repassar para outra pessoa - leiga ou não - em um futuro próximo para ela poder aplicar as mesmas teorias na prática?

Porque bibliotecário tem dessas coisas de guardar os pulos dos gatos para si, de não compartilhar informação uns com os outros porque acham que vão puxar o tapete deles (E vão, acreditem), ou sei lá, medo de se tornar obsoleto por inovar em alguma coisa e não ser significativo no final das contas (E acontece). Por isso a gente apela em buscar identidades e funcionalidades em outras áreas, porque a nossa essencialmente não é para se tornar especializada NELA MESMA (Parnasianismo Biblioteconomístico?), mas sim o integrar sempre as áreas em que estamos nos dispondo a trabalhar, atuar e auxiliar.

Então quando saio de um semestre que aprendi cerca de 5 ou 6 ferramentas vindas de áreas diferentes da minha (Administração principalmente), não estou negando a minha fidelidade aos preceitos de Ranganathan (Até porque o patrono da Biblio era matemático), estou aplicando um conhecimento fora da minha esfera para solucionar um problema da minha alçada. Não há vergonha nisso.

O trem começa a ficar confuso quando a gente se esquece do porquê tá fazendo aquilo. O motivo, o objetivo, o que se espera alcançar. vejo muito essas ferramentas serem aplicadas para processos de alguma coisa, e não para "no final é pra ajudar todo mundo e conseguir paz mundial". Aí que começa o parnasianismo biblioteconomístico, uma coisa que ~ahem~ certo outro curso¹ que sempre se infiltra em nossa área gosta de fazer ad nauseam.

Por isso não entendo o que raios eles fazem da vida.
Por isso pergunto sempre o que eles querem no nosso curso, porque não tá explícito.

É pra ganhar dinheiro?
É pra render mais capitalmente?
É para produzir mais e ter estrelinha bunitinha de órgãos de regulamentação científica?
É para ajudar em processos intrínsecos de nossa profissão, mas ao mesmo tempo fazendo ponte com teorias de outros cursos/áreas para melhorias dos meus processos?
Tudo bem, gente, não precisa ser a paz mundial, a democracia do conhecimento científico ou a vontade de mudar o mundo, pode ser dinheiro mesmo, pode ser status, pode ser o que vocês quiserem, só preciso entender o que raios fazem para ficarem num looping eterno no processo e não resolverem nada.

Debaixo do link, mais considerações.

[bibliotequices] óticas sobre ética profissional

As aulas de História levantam alguns momentos épicos de verificar a estabilidade ética d@s graduand@s desse curso tão aclamado. Já avisando que são deliberações sem qualquer objetivo de estabelecer opiniões e todo o jazz de discurso já feito. Essa postagem é feita justamente para levantar questionamentos, favorecer reflexões, essas coisa chata de gente que filosofa.

Afinal de contas, onde vamos buscar os ditames éticos de nossa profissão? Temos nosso Código lá do CFB - entidade maior de representação de nossa categoria - com as seguintes palavras.

SEÇÃO II – DOS DEVERES E OBRIGAÇÕES
Art.2º - Os deveres do profissional de Biblioteconomia compreendem, além do exercício de suas atividades:
e) contribuir, como cidadão e como profissional, para o incessante desenvolvimento da sociedade e dos princípios legais que regem o país 
Art.7º - O Bibliotecário deve, em relação aos usuários e clientes, observar as seguintes condutas:
a) aplicar todo zelo e recursos ao seu alcance no atendimento ao público, não se recusando a prestar assistência profissional, salvo por relevante motivo;
b) tratar os usuários e clientes com respeito e urbanidade
Art.8º - O Bibliotecário deve interessar-se pelo bem público e, com tal finalidade, contribuir com seus conhecimentos, capacidade e experiência para melhor servir a coletividade
SEÇÃO III - DOS DIREITOS
Art. 11 - São direitos do profissional Bibliotecário:
a) exercer a profissão independentemente de questões referentes a religião, raça, sexo, cor e idade;
Nota para essa citação: Publicado no Diário Oficial da União de 14.01.02, seção I. p. 64

Para o Ensino de Ética nos cursos de Biblioteconomia, temos:
 - Considerando que a educação do bibliotecário deve ter como uma de suas finalidades o colocar-se a serviço da sociedade;
 - Considerando que é responsabilidade das Escolas de Biblioteconomia a formação de profissionais conscientes de responsabilidades para com a comunidade;
 - Considerando, ainda, que só assim os estudantes de Biblioteconomia poderão interpretar e ter consciência dos princípios éticos inerentes à profissão a que se dedicarão;
Nota para ambas as citações acima: negrito são grifos meus pra gente não perder o fio da meada.
Aí quando falamos de pessoas em situação de risco como os sem-teto ou situação de rua, como o eufemismo gosta de quantificar nas pesquisas, temos essas nuances passando entre moralidade, valores pessoais e ética profissional.

Quando você apela para uma dessas na tríade, vai haver consequências a se responsabilizar e arcar. O Código Ético da profissão diz isso aí, cumprir é imprescindível de acordo com a Lei e da teórica ufanista romântica noção de que se respeitando as leis, o mundo se torna lindo e maravilhoso. Então se eu colocar o Código de Ética ACIMA de qualquer outra instância que codifica e formaliza a minha vida particular e sim a minha vida pública e profissional, haverá treta.

E NÃO TEM COMO FUGIR!
Então você, bibliotecári@, estagiári@ em uma unidade de informação, que se depara com pessoas em situação de rua e vai fazer o seu trabalho conforme seus preceitos morais ou valores pessoais, automaticamente estará saindo do Código Ético Profissional, lei promulgada por uma categoria em que você pertence, outorgada por autoridades da sua área, logo o que isso cheira?

Subversivo né?
Infringindo lei é?
Marginal?
Desrespeitando todo um conjunto de leis explícitas que todo mundo tem acesso e pode julgar como irregular passível de punição profissional e por que não criminal?

Então voltando a pessoa em situação de rua que frequenta a unidade de informação em que você atua. Ela está ali, ela existe, ela cheira diferente do que você está acostumado em sua posição de privilégio e normatividade, ela se comporta de forma fora do seu entendimento discursivo, ela utiliza aquele espaço pretenciosamente democrático para ações que estão fora da sua ideia de percepção em uma biblioteca (tipo realizar higiene pessoal no banheiro da biblioteca, porque guess what? Ela não tem onde tomar banho, lavar o rosto, ficar água potável - usa drogas naquele espaço íntimo e privativo por X razões que NÃO ESTÃO na sua alçada de compreensão da psique humana e vivência na realidade em que você habita), o mundo lindo e maravilhoso da ética profissional rui em um segundo.

O que fazer? Opções mais óbvias?
  1. chama a Polícia
  2. chama a segurança da instituição (que com certeza vai pro item 1)
  3. se apavora e deixa seja lá que o cara tá fazendo e reza pra todos os santos/deuses pra ele não voltar mais
  4. chama a Polícia
  5. respira fundo e vai encarar a pessoa e saber o que raios ela tá fazendo ali
  6. entende que sua função como bibliotecário não é pra ser babá de morador de rua
  7. já disse sobre chamar a Polícia?
  8. revê seu papel no mundo naquela situação, calça (???) as calças da alteridade e vai ajudar o camarada a entender que há lugares e lugares. Tomar banho no lavabo do banheiro de uma Biblioteca ou usar drogas ali não é adequado. dar essa informação, por mais idiota e óbvia que seja pode causar alguma aproximação ou hostilidade.

A treta vai sendo ampliada com as definições mais generalizadas sobre essas 3 coisinhas ali que vou citar daqui a pouco - isso dá uma briga ferrada no campo das Ciências que você não faz ideia. As reações da lista acima são possíveis em cenários diversos, mas o que pega é o embate entre:
  1. valores pessoais (essa porcariada toda de bagagem que você construiu durante sua vida como caráter e personalidade)
  2. preceitos morais (outro bagulho entulhado na sua mente, corpo e coração que a sociedade e cultura em que você está inserido enfiou por goela abaixo)
  3. ética (o conjunto de 1 e 2, MAIS a ruminação do que é o mais acertado a se fazer na hora)

E acertado é garantir que o indivíduo citado esteja resguardado de seus direitos de cidadão AND amparado por um Código de Ética Profissional que fucking assegura os direitos dele e os seus de agir conforme uma normativa blá-blá-blá chancelada pelas autoridades e blá-blá-blá.

Essa violação de conduta profissional por não entendermos onde 1 e 2 estão sendo usados ACIMA de 3, já que por teoria 3 deveria ser a prioridade. 3 é a regra geral, 3 por mais falha e nonsense que possa parecer em situações como essas descritas ali em cima (do sujeito fazendo coisa que não deve em lugares que não correspondem aquele tipo de comportamento), prevalece. Por quê?

Porque ter um Código Ético Profissional é um norte de qualquer  dúvida que você tenha sobre sua atuação profissional. Ética, nesse caso, traz a noção de interpretação e reconhecimento que você, como bibliotecário ou estagiário ESTÁ ENQUADRADO a assumir que vai se comprometer a obedecer o que o Código diz. A pessoa em situação de rua fumando crack no banheiro ou outro lugar da biblioteca está ali por uma razão, uma razão que não está sob seu controle ou ter o poder transformador de fazer um milagre.

Esse não é o ponto.
Você não vai salvar a vida do camarada, não é essa a intenção, não é a garantia que o Código dá para você atuar sobre o problema. É como você vai usar esse problema para conscientizar a pessoa que ali, naquela biblioteca, tem opções de uso de seus serviços para ficar informada que o que ela tá fazendo não condiz com a função real de uma biblioteca.

Você tem opções de como fazer isso de forma adequada ou de não.
Chamar a Polícia ou qualquer outro órgão com essência repreensiva não será a solução mais legal do mundo, acredite. Ter o telefone de um albergue de passagem, órgãos de defesa aos direitos de pessoas em risco (CRAS, CREA, SEMAS do seu município) é uma opção ambígua - pois não há garantia se o milagre pro camarada vai acontecer assim lindo e maravilhoso como a gente quer.

A opção que o Código nos dá é respeitar e informar. E apenas isso. Fazer com sensibilidade ou não vai dos preceitos morais e valores pessoais de cada um. Ou não. Posso ser uma babaca há 200 metros fora do meu local de trabalho, mas continuar o meu trabalho eticamente perfeito de acordo com uma legislação que me prediz a fazer isso.

Exemplo pessoal: o meu valor pessoal é questionar até o cansaço qualquer pessoa que vier falar de religião no balcão. Essa é a minha ótica de encarar o assunto religião. Cristão, budista, umbandista, wiccan, maçom, eu vou questionar, está intrínseco a minha pessoa, a curiosidade e a petulância de querer fazer a pessoa pensar duas vezes antes de querer dar lição de moral através do uso do discurso religioso me é tentador, querer saber mais sobre essas opiniões tão diferentes da minha também terrivelmente tentador. Mas essa curiosidade mórbida pode não ser uma boa coisa para o sucesso de atendimento com acesso a informação imparcial e condizer com meu dever como bibliotecári@ ou estagiári@ ali naquele momento.

Meu preceito moral é respeitar qualquer um que professe sua crença no balcão ao querer pesquisar sobre algo nesse assunto. Isso não só está no meu valor pessoal, mas também de visão da religião como o religare, a conexão de pessoas e um sentido plausível e aceitável pra pessoa viver em harmonia com o universo. Mesmo que você acredite que um alien chamado Xenu forçou milhares de almas a serem jogados em um vulcão e essas "almas" foram transmigradas para corpos dos primeiros ancestrais dos homo sapiens¹.

Minha ética profissional é esquecer as duas coisas ali e dar informações pra pessoa sem distinguir sexo, gênero, religião, cor da pele, se ele é fã de gatos ou cachorros ou se ele é capelão militar questionando severamente o porquê haver só 2 bíblias na unidade de informação. A Ética Profissional que eu JUREI ao pegar aquele canudo roxo simbólico de tudo que estudei e prometi em proteger, preservar e tudo mais, isso eu DEVO cumprir. Lembram do Juramento da Profissão?

"Prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de Bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana"

E serei bem honesta: a 200 metros da biblioteca eu sou e estou na minha visão de mundo dos 2 itens de valores pessoais e preceitos morais. E a minha ética no reinterpretar esses dois itens em outro espaço de convivência é outra. Dentro da biblioteca, essa instituição fluída e subjetiva, não construto cheio de estantes e livros, sou eticamente responsável por um tipo de reação/ação sobre situações como essa. Lá fora, na rua, em minha casa, entre amigos, dançando ula-ula dentro do busão 221 de Canas, a ética muda. A forma de se enxergar a Ética Profissional muda.
Eu encheria o capelão de perguntas ou ficaria em silêncio?
(Militar, com carteirada do Exército, porte intimidador e já largando que não viu Bíblias suficientes na biblioteca? Óbvio que seria silêncio, isso se chama autopreservação, algo que a Ética Profissional não vai conseguir ter condições de me dar instruções sobre o que fazer quando sinto que estou sendo repreendide por algo que está fora do meu alcance)

Diferenciar o público do privado. Estabelecer limites, linhas imaginárias, por mais aproximadas que estejam, traçar fronteiras do quem eu sou e o que estou fazendo.

Aí chega numa parte do artigo sobre Ética na Wikipedia e essa passagem quebra os raio da bicicreta:
A ética também não deve ser confundida com a lei, embora com certa frequência a lei tenha como base princípios éticos.
Será que tou conseguindo ser coerente no que estou escrevendo?

Se a Ética Profissional é a lei maior em uma categoria profissional, por que ainda insistimos a ir primeiro pelos valores pessoais e preceitos morais?

Será que o Código de Ética está mesmo abraçando todo entendimento de Humanidade que devo conservar ao atuar como bibliotecário em situações como essas?

Vou mais além, será que a atuação profissional deve ser pautada em valores pessoais (e a linha tênue entre confundir cada item com outro é tão perigosa, gente) e preceitos morais para DEPOIS haver uma construção coletiva sobre a Ética Profissional do bibliotecário?

Será que a gente risca isso tudo é só obedece o Código de Ética?

Não risca nada e continua a atuar conforme a própria consciência?
(Ou essa noção ilusiva do que é a própria consciência)

Para mais informações, pelamoooooor parem de ser passivones da vida e leiam:
RESOLUÇÃO No 153, DE 06 DE MARÇO DE 1976 - Dispõe sobre o ensino de ética bibliotecária

~Le Legislação Básica de nosso trabalho - Conselho Federal de Biblioteconomia.

~Le juramento da Profissão - RESOLUÇÃO Nº 6, DE 13 DE JULHO DE 1966

RESOLUÇÃO CFB N.º 42 DE 11 DE JANEIRO DE 2002 - Dispõe sobre Código do Ética do Conselho Federal de Biblioteconomia.