Pesquisando

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[Conto com Angie] O metrô do Arges

[O metrô do Arges] por: @_brmorgan.
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: 16 anos (morte, distorção de convenções morais, violência)
Resumo: Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
Disclaimer: Não terminei esse, mas já postando, porque gostei da levada do enredo.

Aquele lugar continuava insuportável.
Não me leva a mal, mas tem pouca ventilação aqui, goteira pra tudo quanto é canto e o cheiro é desagradável. Parece um cemitério... Bem... é um cemitério... de locomotivas.

Quando eu tava meio fora do ar, evitava de ficar rondando essas quebrada, metal faz mal pra saúde das fadinhas aqui, valeu? Não quero me meter em enrascada, ser obrigada a sair vazada e tropeçar numa coisa dessas e me cortar. Metal frio dá problema, tipo gangrena, arranca pedaço maior, te mata. Eu não tou pronta pra morrer. Não hoje! Hahahahahahahah, okay, certo, parar de rir tão alto, esse lugar dá eco... Eeeeecooooo... 

 - Ai! Não precisa me beliscar! - digo pro lazarento do meu lado, óbvio que ter guia aqui embaixo é tipo, pedir pra ser coisa ruim. Desde que encontramos aquela quimera-busão, as coisas aqui embaixo andam, bem... ahn... como dizer? Peculiares.

E pra completar bruxas. Oh ótimo! Como se não fosse o bastante!
 - Eu posso te ouvir pensando.
 - Grandes coisa, e eu consigo teleportar. Quem ganha nessa? Você? - digo de volta pro guia. Não dá pra saber quem é, nem me importo o que seja, o importante é que firmou os esquemas, desço sem ser ludibriada, na volta damos um jeito. Certo? Belezura.
 - Estamos perto.
 - Cê falou isso há uns 15 minutos atrás.
 - Você pensa demais. Distrai.
 - Uai Zé Povinho, trata de manter a telepatia guardada, oras! Que intrometido.
 - Sua insolência será registrada no... - sério que isso é uma gravação de voz? Onde raios estamos indo?
 - Véi, era alguém nos auto-falantes?
 - O que é auto-falante?
 - Cê é véi, né véi?
 - Hein?
 - Esquece. guia aê que o tempo tá acabando. Preciso chegar antes das 6 pra jantar direito. Muita coisa rolando pra amanhã... - dando desculpinha pra fingir uma vidinha normal, essa sou eu. Essa é a minha vidinha. Sozinha, na escuridão, no meio de um túnel cercada de lodo e goteiras, sendo guiada por uma criatura invisível e lamurienta para o meio do nada. O cheiro de metal é forte. Muito.
 - Lembre-se que quando chegar até lá, não há volta a não ser pelo viajante de aço.
 - Ah tá, arram, senta lá Cláudia.
 - Meu nome não é Claudia, é Liriam.
 - É um bonito nome! - me surpreendo com a interação. - Whoa Liriam! Cê é tipo aquele povo dos espremidos e talz?
 - Nós temos um nome, menina, não precisa ofender. - a voz de gravação de áudio aparece de novo.
 - Okay, da onde vem essa voz?!
 - É um dos nossos.
 - Não é aqueles dentuços não né? - minhas mãos tremem ao lembrar do último encontro com um "deles". Urrum, eles existem, estão no meio de nós. Não deveriam estar, mas hey! Se o Drácula aparecer na minha frente e buzinar três vezes, é óbvio que irei acreditar em vampiros! Nota para a posteridade: vampiros são mortos-vivos e eles machucam pra cacete. Eu e meu cano de ferro que o fale.
 - Somos antigos, raça antes nobre, hoje fadada a solidão.
 - É triste isso véi, ops Liriam... - eu entro na confissão de terapia de debaixo de metrô. Parece apropriado para o momento. - Cês não encontram mais de vocês pra trocar umas ideias, fazer uns debates, sei lá, jogar pingue-pongue?
 - O que é pingue-pongue?
 - É um esp... ah esquece... demora muito ainda?
 - Mais esse corredor.
 - Isso é um corredor? Parece um túnel!
 - Menina, não se esqueça que no escuro, você parece maior do que é. O seu verdadeiro eu.
 - Oh locutor de meia-tigela! Vai se catar! - odeio quando me vêm com essa de "ser maior", tenho só um e sessenta de altura, pô! Tá tirando com a minha... MINHA NOSSA CENOURA DO CACHORRO RUIVO!! Que p**** é essa?!
 - Por favor, não grite. Pode assustar o viajante de aço.
 - Como é que vou assustar um vagão de metrô, oh locutor pirado? - eu indago de volta para o nada, mas o nada toma forma.

[Créditos da Imagem]
É imenso. É confinado. É tudo ao mesmo tempo.
Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
 - Aqui é o local. Não posso mais que isso. - diz meu guia com nome bonito, viro-me para o túnel escuro e apenas vejo uma figura alta, esbelta, espremida em uma das paredes do túnel de acesso a essa estação. Não vejo seu rosto direito, há uma cortina grande de cabelos escorridos cobrindo o que parece ser uma face humanóide. Gente boa, Liriam.
 - E pra sair?
 - Apenas pelo viajante de aço. - disse apenas, sendo engolida pela escuridão.
 - Obrigadão Liriam! Cê é jóinha! Passa lá na Raine pra gente tomar um chá... - e vendo que a criatura não iria me ouvir mesmo, eu continuo disfarçando o meu pavor de estar ali. A missão não era nada feliz. - Comer uns biscoitinhos, fazer um tricô, talvez umas miçangas e vender a Arte na praia... Essas coisas... - enquanto caminho percebo nos detalhes dos ladrilhos, tão bem colocados em um imenso mosaico colorido nas paredes, teto e além. O vitral azul acima de minha cabeça mostra as estrelas pálidas. Ufa, pelo menos aqui estou sendo assistida, não dá para me perder.



 - Favor querida visitante, passar no guichê 02 para mais informações sobre o próximo horário.
 - Só me faltava essa... - obedeço a voz sem corpo vinda de algum lugar. Não há caixas de som visíveis por ali, apenas a fiação solta e comida de diversos lustres caríssimos empoleirados pela plataforma. - Guichê 2, guichê 2... - eu procuro em vão pela plataforma toda, até chegar no final dela, uma parede de concreto com uma pichação horrenda de um ogro raivoso. Blergh, povo sem senso de estética.
 - Você não deveria estar aqui! - grita uma outra voz sei lá da onde. O meu susto foi imediato, saltando em meus calcanhares e virando já preparada para luta.
 - Fala mais alto que pelo jeito cê me deixou surda! - eu grito de volta com o máximo de sarcasmo que posso juntar em uma situação dessas. Maldito senso de honra destemido. Bem que os meus deveriam ser menos audaciosos, viveríamos mais para contar histórias...
 - Esse é um território perigoso para feéricos. Fique longe do Guichê!!
 - Escuta aqui seu... maluco metido a doido! Primeiro o locutor sexy me fala pra pedir mais informações no 2, agora cê tá me...
 - Droga, Angie, WTF você tá fazendo aqui?! - sinto os pelos da minha nuca subirem imediatamente quando ouço a voz. Urrum, aquela que saca das coisas de tecnologia. A mina vai direto do DDK do Largo e dança até o sol raiar, adoro o jeitão dela, e a voz. Poxa vida, a voz...
 - Tia, que cê tá fazendo aqui? Quero dizer, você tá aqui, não tá?
 - Tou interferindo no sinal, porque tem um maluco manco aqui do meu lado dizendo que você pegou o túnel da 42!
 - Aaaaaaaaaw, Tobinho tá aí contigo?
 - Claro que não! Não gosto da raça dele.
 - Mas ele é tão fofo de acariciar...
 - Esquece isso. Vou te tirar daí, tou acessando as plantas...
 - Fia, eu tou aqui porque quero. Tenho que conversar com o caboclo aqui debaixo.
 - Mas quem?!
 - Tem um véi Zé mané aqui, tenho que falar com ele sobre umas...
 - Por favor, cara visitante. Este será o último aviso: se dirija ao guichê 2...
 - Eu já sei, p****! Quede esse trem?? - eu digo pro alto sem entender como um lugar como esse, fechado, alheio do mundo, pode fazer tão frio.
 - Segue a direita e sobe as escadas, Angie. - informa a hacker. Sério, como ela faz isso eu não sei, só sei que na próxima matinê vou encher ela de beijos, mesmo ela não querendo.
 - Cê ouviu o locutor sexy também?
 - Não, mas deu uma interferência do c****** aqui que fez estourar um drive.
 - Opa, foi mal aí caceta.
 - Tudo bem, tava velhinho mesmo...
 - Cara visitante, esperamos que não esteja seguindo as instruções dadas pelo intruso em nosso sistema. O guichê 2 se encontra na...
 - Okay, peraê vamos conversar! Ou você me dá a informação certa ou fica de lenga-lenga locutor! - a resposta vem na forma de uma música tosca.


 - Angie, você tá me ouvindo...? Angie?! - a voz da hacker vai sumindo nos auto-falantes invisíveis até um chiado de rádio sem sintonia toma conta do lugar. Esse irritante barulho vai se apoderando de tudo e cada espaço ali dentro, fazendo os lustres tremerem, os vitrais chacoalharem e minha cabeça parecer uma panela de pipoca de tão alto.
 - Okay, okay! Guichê 2, onde tá? Eu vou pra p**** do guichê 2! - eu grito um pouco acima do esperado, o ruído se tornando insuportável para então uma luz no fim do túnel escuro de onde vim ser iluminada pouco a pouco, ganhando luminosidade suficiente para eu perceber o que se espremia ali dentro: uma locomotiva tão antiga que suas entranhas de metal ecoavam mais alto que o ruído de antes. - Eu vim falar com o mendigo!! É com o maldito mendigo!! Dá pra chamar o Zé Mané?! - eu me desespero por ver que meus olhos já não aguentam ficar abertos pela dor de cabeça excruciante, meu nariz é o primeiro a sentir, um filete frio e viscoso de sangue desce e eu tento aparar como posso, mas o barulho... Por todas as estórias da carochinha! O barulho é nauseante!

A locomotiva para na estação e de repente tudo cessa.

O Silêncio e o Vazio dão as mãos e é como se segundos antes nada tivesse acontecido. O cheiro do metal frio, gélido, perigoso e sedutor mais acentuado. Eu acho que fiz xixi nas calças por essa? Ops, não, é só medo mesmo. Se meu antigo mestre me visse aqui, com certeza rolaria DR sobre "lugares onde eu NÃO DEVO me meter". Tudo pelo social, né non monamu?

 - De todos os seres que habitam a escuridão, você é o último que veria visitar meu lar, Senhor dos Entremundos... - opa, chamou na chincha? Sério que ainda me tratam desse título por aqui? Esse povo tá de zoeira, só pode. Não vejo ou ouço de onde vem a voz. A locomotiva está ali, parada, inerte, portas abertas, sem passageiros, luzes acesas do lado de dentro e lufadas de ar quente saindo dos trilhos.
 - Primeiramente Senhor é a sua avó, aqui é Ceñorita, marmanjo. E não habito a escuridão, gosto de praia, sol e mar aberto e também de jantares românticos em restaurantes chiques. - desconverso me preparando para o pior. Se fosse mesmo o maldito mendigo da lenda dos mais velhos, eu tava ferrada. Mas se fosse ele mesmo, eu tava certa: ele é o único a carregar as histórias dos 17 cavaleiros de Fiona.
(Plus side: as minhas teorias conspiratórias tem um certo charme quando se realizam)

 - Pois bem... Filha dos Ventos... - a silhueta borrada desce do vagão do meio, maltrapilho, curvado, cheirando a envelhecido, úmido, terra após uma grande chuva, mofo, azedo, cheira a esquecido pelos mundos. Ele manca, seu rosto coberto por espessa barba desgrenhada e suja de tudo, os olhos semicerrados demonstram sua embriaguez forte. O álcool em seu bafo chega aqui onde estou quando ele continua - Apenas a aprendiz de Dança com Espadas desceria aqui. É um feito e tanto.

 - Bem, ele me ensinou a lutar pelo que tenho direito e cê sabe... pelo bem, a paz mundial e liberdade, igualdade e comida grátis... - dou de ombros completando meu melhor disfarce de desentendida para o ser mais misterioso da face da Terra (Pelo menos para os feéricos como eu).
 - O que veio fazer aqui?
 - E-eu tenho uma proposta pra ti.
 - Proposta? - o bafo é forte, o vento deve estar a meu favor. Ele manca, se arrasta, segue em direção a parede com ladrilhos intrincados, ali eu vira o que parecia o começo de uma história, com figuras e formas. Ele se apoia em uma dessas e coloca a cabeça de muitos cabelos igualmente arruinados pelo destrato e suspira. Longamente. O ar exalado é de morango e chantily. Ele não tá sozinho nessa, eu sabia!
 - É tipo assim: cê sobe um tiquim, ajuda a gente da Casa de Fiontáin e vamos lá pressionar o Príncipe Barthes a devolver o que você quer...
 - O que eu quero...? - ele desliza nos ladrilhos com dificuldade, parte do corpo caído ali, o pé manco fazendo o esforço maior, um certo brilho em olhos azuis, profundos como os oceanos. Ele está nesse mundo por muitas Eras, um simples reles humano.
 - É! A gente sabe dos esquema: teu coração pela tua ajuda. O que acha?
 - Você é apenas uma criança ingênua...
 - Mas não tava falando há uns minutos atrás sobre ser Senhor dos Entremundos? Véi, coerência aí no discurso!
 - O meu coração... foi arrancado!! - bravejou o mendigo se aproximando estranhamente perto de mim. Fui me afastando aos poucos e resolvi seguir o que já haviam falado tanto sobre situações como essa. Ficar na porta do vagão foi a solução, aproveitando o pouco de luz.
 - Urrum, tou sabendo, véi... E vamos recuperá-lo e tudo mais!
 - E como irá fazer isso? - ele não estava indo em minha direção, ele estava era tentando se manter de pé. Seu corpo torto escorregou pela parede e encontrou o chão com um baque inesperado. Corri para acudir, mas ele levantou uma das mãos para me impedir de chegar perto. - Estou fedendo! - ele disse debaixo do casaco pesado que usava, cara no chão e corpo torto. Como podia alguém chegar a esse ponto?
 - Ih véi, vem com essa não, cumpadi, que já aguentei muito fedorzinho na vida. Nasci num lixão, sacas? Cheirinho de desodorante vencido não é meu problema maior... - eu o acudi como pude, tentei levantá-lo com as mãos, mas nada. Ele era pesado demais.

Nos minutos que se passaram, eu na tentativa de levantar o sujeito e fazê-lo sentar com as costas na parede, percebi o porquê não estar conseguindo. O camarada tirou um cochilo alcoolizado ali mesmo no chão. Oh sacolinha...

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 - E foi assim que conheci o Mendigo do Arges...
 - É uma bela história...
 - Oh se é! - você está feliz, corada até, os perigos de antes não te incomodam mais. Isso é bom.
 - Mas bebum dos brabo?
 - Oh se era!
 - Era? Não mais?
 - Kittie, você sabe... - eu paro de falar, não gostamos desse assunto. Não concordamos com a barganha, mas é nosso destino. O meu é de realizar grandiosas coisas ao favor dos Feéricos, a justiça, a paz, a ordem e o progresso e a cidadania e todas essas baboseiras. O seu é ficar eternamente conectada a esse lugar medonho, sem vida, vazio e em silêncio. Os ladrilhos mudaram de posição, os vitrais antes azuis estão esverdeados, cobertos de uma fina camada de plantas trepadeiras e pouco se vê entre elas. Os lustres não funcionam mais, apenas uma lamparina de vela que deixo ao seu lado quando vai dormir. - Olha... sei que parece sacanagem pedir isso pra ti, nessa situação, mas...
 - Tudo bem, Ângela. Não tou com raiva... - a confissão me pega de surpresa. Ela não transparece emoção alguma desde que a conheci, a única que conseguiria tirar alguma coisa dela era a chefia lá em cima. Mas regras são regras e as minhas não se aplicam nesse caso. - Só queria mais tempo...
 - Tempo pra quê? - pergunto já sabendo a resposta, você suspira longamente, o corpo fazendo o mesmo movimento que já vira em outro alguém, o escorregar pela parede de ladrilhos, o imprimir sua dor nos mosaicos, o de ter a força vital de seu eterno Sonhar ser sugado de alguma maneira por esse lugar medonho que chamam de refúgio.
 - Cê sabe... - você admite tristonha. Tão ruim essa de encontrar a graça de Danuu e não poder levar a quem se deseja. Acontece nas melhores famílias, acredite, aconteceu comigo. - Mas então, quais são as novidades lá de cima?
 - Trocentas coisas sem noção. Guerra, acidentes de trânsito, muita intolerância, teve Parada Gay essa semana! - a lembro entusiasmada, qualquer reação dela é demonstrada pelo movimento lento de se sentar desajeitadamente ao chão, costas no ladrilho, queixo colado no peito, mãos tremendo.
 - Sinto falta das músicas... - e meu susto é maior quando os auto-falantes invisíveis alardeiam uma música de festa de tão antigamente que nós duas grunhimos de desgosto.
 - Afinal de contas: WTF é isso? Não tem som por aqui! - você solta uma risada fraca, dá para ouvir seus pulmões fracos chiando com rudeza.
 - Parece que a estação obedece quando tou sentindo alguma coisa...
 - Tipo, capta teus pensamentos?