Pesquisando

quinta-feira, 4 de abril de 2013

[Projeto Feérico] Trecho nº 1 - Kittie/Kristevá

[trecho perdido do Projeto Feéricos. A personagem LabGirl Kittie foi engavetada para o melhor fluir do enredo, aqui nesse pedaço há um pouco de como ela silenciava as vozes que ouvia quando entrava em crise de realidade vs o Sonhar]

A cadeira era confortável, a coceira atrás da orelha não. As vozes iam e vinham em intervalos longos como um eco de algo que não estava ali, ou talvez estivesse. Ela apenas não conseguia mais saber o que era real ou não.
- ...Orgulhoso de você, segundo-tenente... Orgulhoso.
" - Pode me dizer o que aconteceu com a minha esposa?"
" - Quantas pessoas você atende aqui embaixo? É difícil assim?"
" - Você sabe que é especial, não pode ir lá fora ficar mostrando o que faz. Eles vão saber."
" - Eles nunca sabem."
" - Eles vão saber."
" - Quem sabe de coisa alguma. Mude, destrua, reconstrua, continue."
" - Você poderia ficar bem aqui. É melhor para todos."
" - É melhor para mim que nós não conversamos mais."
" - É melhor para o mundo se ninguém souber o que você faz."
" - Você não faz nada, menina!"
" - Quantas vezes tenho que dizer para fazer o que eu peço???"
" - Tenente, isso não é coisa que se faça..."



- Hey, segundo-tenente Todd? Está ouvindo? - o breve toque em seu ombro chamou sua atenção para o homem grisalho a sua frente, na cadeira confortável. Sala muito iluminada, paredes iguais, sem janelas, apenas ela, a cadeira confortável, o homem grisalho e a luz cegante. - Você entende que a comunicação entre nós é difícil, não é?
- Sim senhor... - ela respondeu mecanicamente tateando a própria mão e vendo que estava ali mesmo, não era outro pesadelo.
- Então vamos fazer isso simples, sim? Qualquer coisa que não entender, me diga. Estarei aqui te ouvindo. - ele gesticulava sabiamente com um ar gentil de quem se preocupa com os outros. - E se eu não te entender, você escreve, certo?
- Escrever?
- É... Aí está o papel e a caneta. - Não havia mesa há um segundo atrás, agora era a sala de paredes iguais, muito iluminada, cadeira confortável, homem grisalho. Quem era, quem era? - Deixe-me apresentar, creio que você está confusa desde a última consulta? Sou o Major Dennis. Principal responsável pelo Programa de Reabilitação de Combatentes. Estamos felizes em tê-la conosco e muito agradecidos pela sua exaustiva ajuda no Haiti... - a expressão dela tornou-se puro assombro quando o nome do país foi pronunciado, sem perceber estava segurando uma caneta e preenchendo a folha de questionamento sem mesmo ter pensado nisso.
- Por que me deixaram no confinamento...? Estava apenas ajudando o Clifford...
" - Não, não esqueça disso agora querida, apenas se concentre sim?"
- Consegue me ouvir bem?
- Sim senhor - ela respondeu mecânicamente novamente. A mão voltando a preencher os dados básicos de uma ficha cadastral.
- Pois então, vamos lá... Você é especial, Todd. Por isso te chamei aqui...
" - Especial, você é especial. Consegue fazer isso de novo?"
" - Não vejo nada de interessante nisso. Pode ser mais específica?"
" - Como pode ser tão esquisita?"
" - Não há com o que se preocupar, só tome seu medicamento."
" - Não Todd, não há nada além da porta, não há monstro nenhum."
" - Eu não durmo, eu não durmo, não posso dormir. Eu não durmo."
" - MAS QUE DIABOS VOCÊ TÁ FAZENDO DE NOVO?"
- ... e sendo uma agente especial de nosso glorioso Exército, creio que há muitas coisas a serem esclarecidas...
" - Pesado, pesado, é muito pesado, preciso tirar."
" - Se tirar morre."
" - Que seja, que seja."
" - Apenas feche a matraca desse velho idiota e veja como ele sangra."
" - Deixa eu fazer meu trabalho!"

- ... e nosso trabalho como combatentes é ajudar uns aos outros quando certas situações saem do controle. Você está entendendo?

" - Não está aqui, posso procurar em outro lugar?"
" - Não há lugar nenhum."
" - Nenhum, nem há ninguém."
" - Eu só queria voltar pra casa... Só isso... É pedir muito, soldado...?"

- Eu quero voltar para casa. - ela disse roucamente mal acreditando que vocalizara algo que estava expressamente selado em sua mente confusa. O grisalho que discursava sobre os procedimentos básicos de contenção de combatentes com sérios problemas físicos e psicológicos após saírem do front, parou de imediato.
- Você não tem casa, Todd... Sua casa é aqui. - a frase foi dita com tanta certeza que a fez se convencer que aquilo poderia ser verdade mesmo. - Você mesma preferiu ficar na enfermaria por mais tempo para ajudar seus companheiros, se lembra?
- Não.

" - Você nunca se lembra. Quando vai se lembrar?"
" - Esqueceu de novo? De novo? DE NOVO?"
" - Quando foi que isso aconteceu? Quem pediu isso? Ficar aqui, na prisão? Não não, quem pediu isso? Não fui eu, não fui..."
- E quando estivermos certos que sua recuperação está completa, iremos te beneficiar pelos anos servidos.
" - Mentira."
" - Mentira."
" - Conversa pra boi dormir."

- Temos acomodações no front se você quiser. Cruz Vermelha, primeira classe. Você ajudaria muitos se continuasse por lá.

" - Ele não sabe o que você passou por lá."
" - Ele sabe exatamente o que você passou por lá."
" - Ele não faz idéia do que você fez."
" - Ele sabe muito bem do que você é capaz."
" - Você é incapaz de algo assim."
" - Você não fez nada."
" - Quem fez o quê?"

- Mas eu não fiz nada... - ela respondeu no mesmo tom desesperado, o grisalho deu tapinhas na mesa com um sorriso benevolente.
- E é por isso que estamos dando essa oportunidade para você se sentir mais confortável com a situação... - a pausa entre essa frase e as outras vozes foi longa demais para ela achar que estava alucinando novamente. - Um emprego estável, uma vida equilibrada. Acompanhamento médico constante, o que acha?

" - Mate ele logo. Apenas faça. Fácil."
" - O fedor de óleo dele tá ferrando com teus miolos... Ele é mais um deles, vá, faça. Faça! Não tem por que ter medo, tou aqui pra te ajudar a acordar."
" - Na verdade estamos todos dormindo... Não há com o que se preocupar..."
" - Pára de pensar, pára de pensar nisso... Pára de pensar..."

- O seu tratamento será supervisionado por uma de nossas melhores equipes médicas, além de você poder contribuir a vontade com as pesquisas pela sua genialidade... Você sabe que é especial, não é? Todd?

" - Especial, especial, fica no fundo da fila."
" - Especial da casa! Quem vai querer?!"
" - Especial demais para nós."
" - Especial demais para mim..."
" - Eu apenas queria voltar para casa, não quero ser tão especial assim..."
" - Todd? Segundo-tenente Todd? Está me escutando?"

- Oh sim, sim...! - o grisalho sorriu e coçou a sobrancelha rala.
- Não podemos perder o foco aqui... Eu e você sabemos disso... - e dando um suspiro audível, ele concluiu com um tapinha no ombro dela. - Terminou de preencher os formulários?
- Que formulá...? - ela murmurou olhando para o próprio pulso. Caneta prensada entre os dedos, folhas de papel totalmente preenchidas, não sabia quando começara a fazer isso e quando terminara. O grisalho pegou as folhas e passou as páginas com cuidado. O cenho franzido chamou sua atenção, já que agora a cadeira não estava tão confortável assim. Nem a luz que iluminava o cômodo de paredes tão uniformes. Estava presa. Presa em uma gaiola que se colocara sozinha, sem chance de pedir ajuda ou perdão. Afinal de contas: O que fizera de errado para ser tratada como... especial?!
- Consegue soletrar o seu nome real?
- S-sim, eu acho...
- Vá em frente então... Vamos ouvir... - ela não entendeu de imediato o sorriso do grisalho e começou a soletrar o próprio nome como já fizera inúmeras vezes na vida, mas ao terminar de dizer as letras compridas, ela achou franziu a testa em confusão. Não parecia ser ela, não o nome. - Você sabe que não pode usar esse nome, sim? Os acordos confidencial e juramentos?
- S-sim, senhor...
- Sabe também que há regras que precisa seguir para não comprometer a nossa missão, não é?
- S-sim senhor...
- Poderia me dizer quais regras seriam...? - e ela repetiu os termos como se fosse algo decorado de tantas vezes. Apenas essa sensação ao terminar de falar que adentrava sua mente e seu coração. Ela não sabia o porque saber de tantas coisas sobre eles, mas não sobre si mesma. Ali era real mesmo?
- Major...?
- Sim, segundo-tenente?

" - Você é especial demais para ficar aqui dentro... Especial demais... Você sabe disso..."

- Como é que faço para essas vozes pararem de falar comigo? - ela perguntou rapidamente. O oficial de patente superior ajeitou a postura e soltou um assovio silencioso pelos lábios.
- Você apenas obedece o que nós pedimos. E tudo ficará bem.
- Tudo ficará bem?
- Oh claro que sim! Você é especial, Todd. Merece ficar bem.

" - Mentira."
" - Mentira."
" - Conversa pra boi dormir..."
" - Você nunca vai poder ser especial. Nunca."

===xxx===

Os remédios enfileirados perto do filtro de água mecânico da cozinha pequena do apartamento minúsculo. Seis ao todo, provavelmente viria um sétimo para ajudar o estômago com o terceiro da lista (Era o mais pesado e difícil de absorver). Calmamente destampou o primeiro frasco de plástico alaranjado e tirou a dose prescrita, um para o primeiro, gole no copinho de água, um para o segundo, gole no copinho, um para o terceiro, três goles no copinho e a necessidade de mais um, mas havia o quarto com duas pílulas. Esperou alguns minutinhos sempre de olho no relógio acima do filtro e desceu as duas pílulas azuis, pegou um copo maior e as engoliu com vontade. O quinto e o sexto que esperassem até à noite. Aí sim poderia terminar o ciclo de remédios do dia.

Levantou os braços e se pôs a fazer um exercício de alongamento que o Exército ensinara para as dores nas costas. Ativar a circulação, era o que diziam, mas ela como médica sabia que não se tratava de circulação alguma quando não se havia tanto sangue para circular ali. Estalou os ossos da nuca e ombros, olhou para o relógio do filtro e viu que estava na hora de ir. Dois passos mais a frente e sentiu a tontura costumeira do terceiro remédio. Agora sim ele estava fazendo efeito. O silêncio que povoava sua mente agora era como uma brisa marítima, assoviando leve em seus ouvidos e fazendo ela sorrir pela primeira vez no dia. Um sorriso forçado, de quem acha que está no controle, mas que na verdade dependia daquele maldito veneno para suportar mais outro dia no mundo horrível lá fora.

Disciplinada em seus passos foi andando para a porta, e quando sua mão sentiu o frio metálico da maçaneta, seu coração disparou como nunca antes. Girou a maçaneta e encontrou o motivo da virada de função corporal. Do elevador velho do prédio de apartamentos igualmente velhos, saía uma mulher consideravelmente discreta no andar, mas de presença forte e impossível de se não perceber. O sorriso dado quando os olhos se encontraram fez os ouvidos antes silenciados pela medicação serem tomados por um som grave e longe de um tambor pesado, logo o som foi ficando alto e nítido, como se aumentassem o volume gradativamente a cada passo dado em sua direção. Levou um pequeno susto quando ouviu em alto e bom som a voz cristalina e de sotaque carregado de Raine, a líder do grupo de caçadores.

- Oh olá Kittie...? Como vai indo? - a reação sempre era a mesma, entre o segundo de levar o susto e reagir normalmente perto de alguém que a deixava muito confusa. - Dormiu melhor hoje?
- Ahn... Sim... Leite quente ajudou... - o sorriso morno da mais velha fez a mesma gradual de som em seus ouvidos ir e voltar, alternando entre o tambor gutural vindo das profundezas de uma caverna dentro dela e novamente a voz cristalina. desta vez, a voz veio acompanhada de música, baixinha, quase inaudível, como uma harpa sendo tocada pela ventania.
- Trouxe as fichas que você pediu... Muita coisa para ser estudada. Tem certeza que vai conseguir dar um jeito nisso até hoje de tarde? Não quero ficar te abarrotando de coisas nossas e atrapalhar no teu serviço... - a fala era apressada, ansiosa e um tanto fora do compasso. Kristevá sorriu novamente, mas genuinamente. Com um leve tremor nas mãos recolheu as pastas com as fichas e colocou em sua mochila, sabia que a mulher mais velha continuava a falar sobre a missão, mas não prestava mais atenção nas palavras. O som da harpa estava audível agora, misturada com uma flauta de som agudo e talvez o compasso de tambores, o perfume herbal que não fora percebido ao se aproximarem, subiu gradativamente no olfato da médica. Uma mistura de ervas aromáticas e um pouco de canela. Os lábios continuavam a se mexer, mas era difícil de compreender o que realmente estava mais a preocupando, se era a ausência de som da realidade, ou a sobreposição de uma música antiga, tribal e familiar. Tudo cessou quando a líder tocou seu rosto com carinho e tirou um pouco dos cabelos ruivos que escapavam do coque feito com tanto cuidado. - Foge não, Kittie... Negócio sério aqui...?
- Ahn? Ah, ah, sim! - o afastamento necessário entre as duas fez com que tudo voltasse ao aparentemente normal para Kristevá.
Disclaimer: Era para a Kittie/Kristevá ser uma Vazia (Tradição de Mago - a Ascensão) (Pensei em Filha de Éter, mas não encaixaria no mundo de Changeling - the Dreaming.), muito perto do Despertar, mas sendo influenciada intimamente pela Tecnocracia infiltrada nas Forças Armadas Americanas para arrebanhar novos recrutas. As vozes que ela ouve seria do Avatar Dinâmico dela, de lembranças da vida no Haiti e de vidas anteriores. Claro que a miscelânea de cenários iria me atrapalhar a pensar na evolução da secundarista, então a dobrei bem bonitinho dentro da gaveta e provavelmente a usarei apenas em caso de emergência.
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