Pesquisando

terça-feira, 2 de abril de 2013

Como sinto falta da Oresteia!

A letra de Orestes do A Perfect Circle me impactou na primeira vez que ouvi há uns anos atrás por fazer alusão ao sofrimento do personagem de mesmo nome, Orestes, que foi manipulado por tudo e todos para dar cabo a um plano de vingança cega contra sua própria mãe Clitemnestra  Dá até para sentir um bocado do rancor no refrão e como o pobre rapaz que caiu de gaiato na trama familiar sobreviveu após conseguir consumar a vingança da Casa dos Atritas. Por mais maluco que o enredo seja, me sinto bem em relembrar como essa peça me fez bem na época em que li - muita coisa estranha acontecendo na Graduação, Cthulhu nomnomnom my sanity - e em como o tema costuma voltar ao meu coração quando a coisa está pegando pro meu lado emocional.

Sendo inspirada na minha peça favorita da tragédia grega Oresteia - falamos de Destino Irônico, Vingança e problemas com pais e mães - Orestes do A Perfect Circle se encaixa direitinho com o estado de espírito recorrente:





Quanto mais escuto essa música, mais a tempestade aqui abaixo dos pulmões vai silenciando (Mesmo que eu tenha dado mais 1 semana para ela poder trovejar para onde fosse e expelisse alguns raios e granizos se desse), mas desta vez sinto que vai deixar resquícios de uma coisinha que eu menos gosto: a lição sarcástica do Destino.

Recapitulando as peças de Ésquilo e Sófocles, os versos de Homero e alguns livros clássicos a mais, se nota que a história de Orestes não começou bem e ia terminar pior ainda. Sendo o filho do meio do rei AgamemnomClitemnestra  antes mesmo da Guerra de Tróia, Orestes foi abandonado para morrer, pois como sempre, alguém havia predito que ele ia causar muito estrago. Mas era apenas a ponta do iceberg grego, já que a linhagem dos Atritas - filhos de Atreu, avô de Orestes - tinha feito caquinha no passado por ter como um de seus parentes o infame Tântalo, aquele carinha que tem fome e sede eterna e quando tenta pegar uma maçã em uma árvore plantada bem ao seu lado lá nos Ínferos, a árvore foge dele, ou quando vai beber água, o rio seca...

Como o começo desse currículo, a ascendência de Orestes foi de puro azar e cretinagem, incesto, fraticídio, usurpação de reinos, e destruidores de nações e lares (Vide Odisséia, nham?). A coisa ficou mais feia quando Atreu decidiu matar os irmãos para não ter que dividir reino algum, assim provocando a cólera de Tieste (Seu irmão gêmeo) e envolvendo o seu filho Egisto na bagunça toda. Depois que Egisto matou Atreu, a raivinha continuou com os filhos do mané, Menelau (Sim, o da Helena) e Agamemnom, que já não tinha uma fama boa por ser autoritário e um guerreiro sanguinolento.

Quando a Guerra de Tróia foi declarada, os dois irmãos foram atrás de Helena - nem preciso resumir o fracasso de 10 anos, né? E conta o fato do Agamemnom ter sacrificado a filha primogênita Ifigênia para a deusa Ártemis só para os barcos dos gregos poderem ter vento para ir para Tróia? - e quando ele voltou para casa, com Cassandra (sibila do deus Apolo, espólio de guerra, já estava grávida do general), foi vítima de uma emboscada pelo seu tio Egisto e sua própria mulher. Oh peninha!

Indignada com o acontecido, a mais nova, Electra - sim, ela do complexo! - apelou para os deuses que ouviram a sua prece de vingança e deram uma ajudinha no retorno de Orestes para Esparta. Planejaram mais outra bobagem do Destino e o rapaz matou Egisto e Clitemnestra  finalmente fechando o ciclo de coisas bizarras e ruins. Ou não, porque nos próximos meses após o ocorrido, as Fúrias vieram furiosas (ba-tun-dss!!) dos Ínferos para atormentar o cara porque matou a própria mãe - ofensa maior para as Fúrias é um filho matar os pais sem motivo aparente (Mas se esqueceram do sacrifício de Ifigênia, por algum motivo...)

Isolado do mundo e escapulindo da punição das Fúrias, Orestes se deu mal até o final da peça - e Electra choramingando porque teve a vingança do papito, mas deixou o irmão na mão - quando finalmente a história fica esclarecida pro camarada: a culpa toda era de Agamemnom pela burrice de sacrificar a filha mais velha para Ártemis, Clitemnestra tinha o direito a se vingar do marido e Egisto entrou no rolo porque o vôzinho Atreu matou seus antepassados.

Resumo! Novela mexicana! Mas proveitosa quando você vê pelo ponto de vista filosófico. Quem não tinha nada a ver com a coisa toda é que mais levou porrada. O tormento das Fúrias fez Orestes pirar na batatinha - e Electra também tava tãntãn por conta dos anos sozinha se torturando pela traição da mãe - e a Casa de Atreu foi pro saco. Para ser honesta, acho que a música do APC é mais virada aos sentimentos de Electra sobre a mãe do que o Orestes, o refrão, principalmente, traz toda a carga negativa emocional que a guria tinha pelos "traidores", mas nem fazia idéia do que seu pai foi capaz para poder embarcar para Tróia. Os irmãos se encontraram momentos depois em escritos de Ésquilo, mas o final não foi assim felizes para sempre, e palminhas de pé para o dramalhama familiar mais explorado no universo.

A linda Ifigênia virou sacerdotisa de Ártemis ou de acordo com outras versões, morreu mesmo e foi resgatada pelos deuses por tanta injustiça feita pela família. E tudo isso para poder mastigar bem o que essa música significa para mim - e minha cretina fascinação pela mitologia greco-romana.


Ps: Fãs alegam que a música é sobre o estado terminal da mãe do Maynard Keenan (vocalista do APC), maaaaaas como já disse: dramalhama familiar mais explorado do Universo.